sexta-feira, 21 de julho de 2017

Martha no Recife


MARTHA NO RECIFE

Clóvis Campêlo

Comecemos pelo começo, por onde se deve sempre começar.
No Marco Zero, onde se inicia o mundo, visitaremos a obra de Cícero Dias. Em obediência à rosa dos ventos, contemplaremos a cidade se expandindo em círculos concêntricos em busca da sua própria identidade e em busca dos poetas pernambucanos representados no Circuito da Poesia.
Ali mesmo, ao lado, reverenciaremos Naná Vasconcelos, com sua escultura e o seu berimbau, que providencialmente estabelece uma ligação indissolúvel entre as culturas da Bahia e de Pernambuco.
Na Rua da Moeda, saudaremos Chico Science, uma antena fincada no mangue onde mais uma vez Pernambuco falou para o mundo, e a sua revolução de beats e bites. Afinal, sempre fomos caranguejos com cérebros.
Às margens do Rio Capibaribe, sob a sombra generosa do seu chapéu de poeta, auscultaremos Ascenso Ferreira em busca de diagnosticar e identificar os ruídos modernistas que sempre o acometeram. O poeta, que nunca teve nada de besta, escolheu um lugar importante e simbólico para plantar a sua escultura. Ali, com certeza, sempre coube e sempre caberá um verbo transitivo direto.
Na ponte Maurício de Nassau, sem pagar nenhum pedágio à poesia, saudaremos o poeta Joaquim Cardozo, o engenheiro do poema, sempre atento aos entardeceres da cidade e aos transeuntes constantes e passantes. Talvez até, escutemos histórias sobre um tal boi voador. Afinal, o tempo decorrido sempre mistura memórias e imaginações.
Seguiremos adiante, passando pela Rua 1º de Março e chegando à Praça da Independência, onde Carlos Pena Filho, elegantemente trajado, entre putas, loucos e lúmpens, aguarda a hora de acender os seus poema no Bar Savoy. Seu olhar sereno contempla diuturnamente a Matriz de Santo Antônio, em torno da qual a cidade cresceu e apodreceu. Tudo no seu devido tempo.
Incólumes, atravessaremos a Avenida Guararapes, onde a vida ainda pulsa, e saudaremos Capiba na outra margem do Capibaribe. De costas para o rio, Capiba continua se guardando para quando o carnaval chegar. Nos bolsos de pedras, partituras e novas canções escondem-se contidas pela dureza da realidade implacável. Afinal, em determinados momentos, só nos cabe a inércia.
Como o Recife se fez sobre pontes e overdrives, mais uma vez cruzaremos o rio, com a naturalidade de um cão atravessando uma rua, e na paisagem úmida daquele lougradouro, após contemplarmos os casarões malassombrados da Rua da Aurora, encontraremos a secura dos poemas de João Cabral de Melo Neto, que, sentado à beira do caminho, não se cansa de contemplar o Recife da sua época. Naquele trecho do rio, onde um dia o escritor Suassuna tomou banho nu e onde os botos costumavam encantar os habitantes da cidade nos primórdios do século passado, ainda existe poesia suficiente para paralisar o poeta e seus admiradores.
Então já teremos traçado um longo trajeto, o que, para uma moça poetisa da Bahia, talvez seja uma overdose. O cheiro doce do rio, misturando-se com a brisa salobra do mar, poderá lhe causar vertigens.
Entretanto, nada disso importará desde que as emoções sobrevivam.

terça-feira, 20 de junho de 2017

O Cinema Atlântico


O CINEMA ATLÂNTICO

Clóvis Campêlo

Quem, como eu, tenta se habilitar a ser um pesquisar ligeiro e pouco profundo, corre o risco de surpreender-se de forma negativa com a ausência de informações virtuais sobre o objeto pesquisado. Muito embora tenhamos hoje à nossa disposição um grande manancial de informações, seja no google, na wikipédia ou em diversos blogs e sites de pertinazes pesquisadores, em determinados momentos esbarramos na ausência quase total de dados e informações. Sinto isso aqui e agora, ao pesquisar sobre o extinto Cinema Atlântico, do Pina.
Do fundo da memória, extraio apenas que o cinema marcou a minha infância e adolescência, com os filmes fantásticos de Cantiflas, Hércules, Macistes; as chanchadas da Atlantida, com Oscarito, Grande Otelo, Ankito e vários outros; os filmes de Drácula, com Cristopher Lee, etc, etc, etc.
Na grande rede, encontro um quase nada de informações sobre o cinema. Apenas no site da Universidade Federal de Pernambuco, sob o título de “Conheça a história do Recife através dos seus teatros”, descubro o seguinte: “Teatro Barreto Júnior - Localizado no bairro do Pina, foi o primeiro teatro da Zona Sul da cidade, que recebeu o nome do ator José do Rego Barreto Júnior. O espaço é resquício do Cine-Atlântico, que resistiu às demolições e fechamentos pelos quais passaram muitos cinemas do Recife no início da década de 80. A fachada ainda é mesma de seu estilo original, preservado até 1985, quando foram iniciadas as obras de restauração”.
Nem mesmo no site da Fundaj, em um bom artigo escrito por Lúcia Gaspar sobre os cinemas antigos do Recife, encontro referência ao Cinema Atlântico do Pina.
Volto à memória e relembro que do final dos anos 50 até 1971, fiz do Cinema Atlântico o meu lugar preferido para a apreciação da chamada sétima arte, com a sua programação popular e voltada para o público da classe média e do povão, que predominava no bairro naquela época.
O cinema era localizado em um prédio simples, sem muito luxo, com entradas e bilheterias pela Rua Conselheiro Aguiar e saídas pela Rua Estudante Jeremias Bastos, antiga Travessa Herculano Bandeira. Aos domingos, antes das matinês, a criançada trocava gibis na calçada principal.
Durante um certo tempo, a segurança e o policiamento do local foram feitos pela Polícia Mirim, composta principalmente de jovens e adolescentes requisitados nas comunidades mais carentes do próprio bairro. Geralmente eram pessoas conhecidas e que participavam conosco das peladas na praia do Pina. Lembro especificamente de Pinduca, um desses policiais mirins que morava numa rua próxima à nossa. Era irmão de Jorge Gabiru, um cara bom de bola que chegou a se profissionalizar e jogar em Portugal. Ganhou dinheiro e gastou tudo. Hoje sobrevive como cambista nos estádios do Recife. Costumo sempre encontrá-lo, em dias de jogos do Santa Cruz, trabalhando no Estádio do Arruda. Pinduca, hoje já falecido, tinha o dom de escrever paródias picantes feitas em cima de grandes sucessos da MPB. Uma figura e tanto. Pois bem, aos domingos, durante as matinês no Cinema Atlântico, era comum vê-lo vestido com a sua farda verde oliva tentando por um pouco de ordem naquela bagunça juvenil, uma missão quase impossível.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Vicente Celestino, a Voz Orgulho do Brasil


VICENTE CELESTINO, A VOZ ORGULHO DO BRASIL

Clóvis Campêlo

Talvez as gerações brasileiras mais novas já não saibam quem foi Vicente Celestino. Afinal, muitos afirmam que somos uma nação sem memória. Pode ser, embora se considerarmos a memória como alguma coisa utilitária, talvez encontremos justificativas para esse esquecimento.
Por isso, não nos custa nada reativar essas lembranças e trazer de volta informações ainda hoje necessária para que possamos conhecer melhor a história e as influência e desdobramentos da nossa música popular.
Filho de italianos da Calábria, Vicente Celestino nasceu no Rio de Janeiro, no bairro de Santa Teresa, ainda no século 19, em 12 de setembro de 1894. Trazia, assim, na sua formação musical todos os componentes e valores reinantes naquela época, e que marcariam de forma inexequível as suas composições.
A sua voz grave de tenor, por muito tempo, e numa época em que o rádio ainda não havia sido implantado no Brasile formado ídolos e moldando preferência, impôs-se como grande cantor e grande compositor. Aos poucos, porém, depois, foi sendo preterido em nome de cantores e compositores que se utilizavam de uma linguagem mais moderna e ao gosto popular do início do século passado. Por isso, na época, a incompreensão de alguns, e, hoje, o grande esquecimento.
O cantor Orlando Silva chegou a chamá-lo de bebê chorão do rádio, por conta do sentimentalismo exacerbado repetidamente cantados por ele: chorar a traição da mulher amada, sofrer masoquistamente por amor, afogar irracionalmente as mágoas na bebida...
É claro que a afirmativa maldosa encontrava uma explicação: vinte anos mais jovem do que Vicente Celestino e sob a proteção de nada mais nada menos do que Francisco Alves, Orlando Silva alcançava o sucesso quando Celestino já decaía no gosto do povo e da crítica. Como afirma o texto de Marco Aurélio Carvalho e Marcos Leite, no site Todas as Vozes, da EBC, a voz grave ainda era ótima, mas Celestino começava a ser rejeitado pelo Teatro Municipal.
Por isso, quando Caetano Veloso, no disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circenses, lançado em julho de 1968, gravou a canção Coração Materno, com um arranjo fantástico do maestro Rogério Duprat, todos pensaram que se tratava de mais uma chacota, o que logo foi contradito pelo compositor baiano, que afirmou tratar-se de uma homenagem.
Ironicamente, Vicente Celestino morreu em São Paulo, no Hotel Normandie, em agosto de 1968, quando se preparava para participar de uma gravação em sua homenagem, na gafieira Pérola Negra, ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil, a qual seria apresentada em um programa televisivo. Seus restos mortais foram enterrados no Rio de Janeiro, no Cemitério de São João Batista, sob os aplausos do público, depois de ser velado na Câmara Municipal por uma multidão de admiradores.
Segundo a insuperável Wikipédia, “começou cantando para conhecidos e era fã de Enrico Caruso. Antes do teatro cantava muito em festas, serenatas e chopes-cantantes. Estreou profissionalmente cantando a valsa Flor do Mal no teatro São José e fez muito sucesso e, também, entrou no seu primeiro disco vendendo milhares de cópias em 1915 na Odeon (Casa Edison).
Em 1920 montou uma companhia de operetas, mas sem nunca deixar o carnavalesco de lado, emplacando sucessos como Urubu Subiu. Rapidamente, depois de oportunidade no teatro, alcançou renome. Formou companhias de revistas e operetas com atrizes-cantoras, primeiro com Laís Areda e depois com Carmen Dora. As excursões pelo Brasil renderam-lhe muito dinheiro e só fizeram aumentar sua popularidade. Nos anos 20, reinava absoluto como ídolo da canção. Vicente Celestino teve uma das mais longas carreiras entre os cantores brasileiros”.
Ainda segundo a Wikipédia, “Vicente Celestino, que tocava violão e piano, foi o compositor inspirado de muitas das suas criações. Duas delas dariam o tema, mais tarde, para dois filmes de enorme público: O Ébrio (1946), que foi transformada em filme por sua esposa, e Coração Materno (1951). Neles Vicente foi dirigido por sua mulher Gilda Abreu (1904 - 1979), cantora, escritora, atriz e cineasta. No total, gravou em 78 RPM cerca de 137 discos com 265 músicas, mais dez compactos e 31 LPs, nestes também incluídas reedições dos 78 RPM”.
Finalmente, diz a Wikipédia: “Seu eterno arrebatamento, paixão e inigualável voz de tenor, fizeram com que o povo o elegesse como A Voz Orgulho do Brasil”.

terça-feira, 13 de junho de 2017

A Primeira Comunhão


A PRIMEIRA COMUNHÃO

Clóvis Campêlo

Naquela época, a Primeira Comunhão não era apenas uma festa familiar. Era uma festa comunitária. Toda a vizinhança participava. Lembro da nossa casa no Pina bem cheia, repleta de amigos, parentes e vizinhos. Um frege, no bom sentido, já que naquela dia especial nem eu nem meus irmãos, Carlinhos e Mana, poderíamos prevaricar. Nem em pensamentos. E, confesso, não era fácil manter essa retidão de pensamento e comportamento. Tudo conspirava contra.
Estávamos todos vestidos de branco, simbolizando a pureza das nossas almas. O sacramento se daria à tarde, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, sob a batuta do Padre José, ao lado dos outros alunos do Instituto Dantas, escola que promovia o evento cristão. A festa propriamente dita seria depois, em casa, ao voltarmos da igreja. Comida e bebida, à vontade. Mas aí já estaríamos aceitos fazendo parte definitivamente da comunidade da Igreja Católica Apostólica Romana.
A Primeira Comunhão é uma celebração da Igreja Católica, onde os participantes recebem pela primeira vez o Corpo e o Sangue de Cristo em forma de pão e vinho. Para receber a Primeira Eucaristia, como também é chamada a celebração, deve o cristão saber e compreender alguns princípios e fundamentos da Igreja, como os 10 Mandamentos, os Mandamentos da Madre Igreja, suas principais orações, e os 7 sacramentos. Antes do rito religioso, o participante deve se confessar, livrando-se assim dos pecados e faltas graves cometidos.
Segundo a Wikipédia: “a Eucaristia é " o próprio sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus, que Ele instituiu para perpetuar o sacrifício da cruz no decorrer dos séculos até ao seu regresso, confiando assim à sua Igreja o memorial da sua Morte e Ressurreição. É o sinal da unidade, o vínculo da caridade, o banquete pascal, em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da vida eterna." (n. 271). A palavra hóstia, em latim, quer dizer vítima, que entre os hebreus, era o cordeiro, sem culpa, imolado em sacrifício a Deus”. Ou seja, exista na cerimônia toda um simbologia que deve ser entendida, pratica e respeitada pelo participante.
Não era fácil para nós, eu e meus irmãos, seguirmos tudo isso ao pé da letra. Meu pai e minha mãe não eram de frequentar a igreja e nem nos obrigavam a isso. Mas havia um misto de respeito e temor que nos fazia ir adiante sem nada questionar. Para nós, era melhor e mais seguro estar ao lado de Deus, Jesus Cristo e todos os anjos do que vagarmos indefesos e solitários sob as tentações do demônio. E além do mais, todos os nossos colegas e amigos da escola estavam ao nosso lado naquele momento e isso fazia com que nos sentissemos seguros e protegidos. Restaria-nos depois, ao longo da vida, mantermos essa chama acesa e vibrante. Intuitivamente, sabíamos que não seria nada fácil, pois são muitas as tentações e os perigos dessa vida.
A festa em casa, ao voltarmos da igreja, foi plena e vibrante. Aos poucos, porém,a casa foi esvaziando e a família ficando sozinha. Nossas roupas brancas e nossos livrinhos foram guardados e ainda hoje se encontram entre os objetos deixados por dona Tereza, minha mãe, quando faleceu.
À noite, sozinho, quando me deitei e tentei conciliar o sono, percebi que teria pela frente uma longa caminhada a percorrer, e que nessa caminhada estaria para sempre dividido entre a virtude da retidão da crença religiosa e as tentações do mundo dos homens.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Mandrake e a nave aprisionada


MANDRAKE E A NAVE APRISIONADA

Clóvis Campêlo

Lee Falk nasceu em St. Louis, em 1911. Escritor e quadrinista, ao chegar em Nova York em 1936, aos 25 anos de idade, criou os personagens Fantasma e Mandrake, para apresentar ao King Features Syndicate. Mandrake logo ganhou as páginas coloridas dos suplementos dominicais, conquistando a cidade e o mundo.
Segundo a Wikipédia, Mandrake evocava a essência dos mágicos de vaudeville, que faziam espetáculos itinerantes pelo sul dos Estados Unidos, muito populares entre 1880 e 1920. As apresentações combinavam números de dança e acrobacias, música popular, encenações de operas e peças de teatro, adestramento de animais e todo tipo de “maravilhas exóticas de toda parte do mundo. Estes elementos marcaram a infância de Falk e se tornaram a matéria prima das aventuras do mágico e seu fiel companheiro, o nobre africano Lothar. O rosto do personagem, baseado no do próprio Falk, reunia todos os traços típicos do homem de aventuras exóticas que o cinema da época tinha se encarregado de mistificar: elegante, viril, enigmático, cavalheiresco e pronto para a ação”. Morando em Xanadú, numa propriedade fantástica no alto de uma colina, combatia os criminosos usando a hipnose como arma. Sua noiva, a princesa Narda de Cockaigne, fictício reino na Europa oriental, e seu companheiro inseparável, Lothar, gigante príncipe africano que abandonou sua tribo para acompanhar o mágico e surrar os bandidos com sua força, eram os personagens mais constantes nas histórias. Segundo a mesma fonte acima citada, Lothar, provavelmente, foi o primeiro personagem negro a surgir nas histórias em quadrinhos, mesmo que de uma forma caricata, usando roupas de pele e um chapéu típico turco.
Ainda segundo a Wikipédia, Mandrake era um ilusionista que se valia de uma impossível técnica de hipnose instantânea, aplicada com os olhos e gestos das mãos, e de poderes telepatas. Quando o narrador informava que ele executava seu gesto hipnótico, a arma do vilão se transformava em um buquê de rosas ou numa pomba. Na verdade, o personagem foi baseado em Leon Mandrake, um mágico que fazia performances no teatro pelos anos 20, usando uma cartola, capa de seda escarlate e um fino bigode. Estava criado o heroi que se impõe no mercado até os dias de hoje, sobrevivendo até mesmo a morte do seu criador, ocorrida em Nova York, no dia 13 de março de 1999. Falk faleceu no seu luxuoso apartamento em frente ao Central Park, vítima de um ataque cardíaco fulminante.
As histórias de Mandrake estrearam no Brasil na década de 30 do século passado, na revista Suplemento Juvenil. E assim como aconteceu com a maioria dos jovens americanos daquela década e das décadas seguintes, também marcou a vida dos jovens brasileiros, submetidos à imposição cultural que sempre marcou a nossa relação com Tio Sam.
Entre as muitas histórias por nós lidas, lembro particularmente de uma que narrava a aventura de uma nave alienígena presa em algum lugar gelatinoso do planeta Terra. A nave emite mensagens ameaçadoras de destruição do planeta, caso não seja rapidamente libertada da suposta armadilha. Desesperadas, as autoridades competentes, sempre capitaneados pela inteligência americana, tentam inutilmente localizá-la e provar que não existia da nossa parte nenhuma intenção bélica.
Nesse meio tempo, Mandrake aparece com um incômodo em um dos olhos. Algo muito pequeno lhe caíra em uma das conjuntivas e o incomodava bastante. Depois de algum tempo, resolve ir ao oftalmologista e descobre que o motivo do incômodo sentido era a pequeníssima nave alienígena. Retirada a nave do seu olho e finalmente libertada, chega a história a um final feliz.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Sentimento e solidão


Memphis Slim, o criador de Blue and Lonesome

SENTIMENTO E SOLIDÃO

Clóvis Campêlo

Houve um tempo em que dona Cida, minha mulher, esmerava-se na cozinha em receitas fabulosas. Talvez levada pela máxima de que um homem também se prende pela boca e pela barriga. Depois, cansou e confessou: “Estou sem novas ideias. Vou voltar ao trivial”. O trivial, para ela, seria o velho feijão, arroz, legumes e um pouco de carne. Funcionou à contento. Todos ficaram satisfeitos e bem alimentados.
Acredito que isso foi o que aconteceu com os Rolling Stones. Depois de onze anos sem gravar em estúdio, no final do ano passado gravaram Blue & Lonesome, um disco sem músicas inéditas e com velhas canções de blues. O trivial. Também funcionou e todos ficaram satisfeitos e bem alimentados.
A música que dá nome ao disco foi composta por Memphis Slim, pianista, cantor e compositor negro americano, nascido em Memphis, no Tenessee, no dia 3 de setembro de 1915, e falecido em Paris aos 72 anos, em 24 de fevereiro de 1988, de insuficiência renal. Seus restos mortais estão enterrados na cidade em que nasceu.
Fico pensando que voltar ao trivial foi um golpe stoniano de mestre. Setentões e podres de rico ainda teriam algo de novo a dizer para o mundo de hoje? O longo hiato talvez traduza isso.Afinal o blues pode traduzir com perfeição sentimentos entendíveis por todas as gerações. E até mesmo transformar possíveis negatividades em expressões atualizadas de contemporânea alegria. Como nos diz Daniel Corrêa em texto publicado na revista Rolling Stones: “A voz de Jagger, desgastada pelo tempo, acaba mudando o sentido que as frases tinham. De sofridos relatos de amor, muitas delas soam como vivas canções de experiência. De como o tempo traz autoconhecimento”. Falado e dito.
Aliás, quem não gosta de blues bom sujeito não é. E é preciso reconhecer que o gênero, ao desembocar no cenário urbano moderno, em terras americanas e mundiais, ganhou novas conotações. De lamentos repetidos monocordicamente para expressões de extases, foi um pulo. As guitarras elétricas ajudaram nessa metarmorfose ambulante. O blues mudou. E mesmo as velhas canções de sentimento e solidão, podem soar com outros timbres. Quem escutar, verá!
Como dizia o finado John Winter, uma boa música de blues deve sempre ser suja e barulhenta. É claro que nessa afirmativa, ele se refere ao blues do seu tempo: eletrificado, gritado e sem requintes excessivos tecnológicos de gravação. Os Stones, com as suas guitarras primárias, também conseguem isso: Blues & Lonesome é um disco básico. Qualquer outra intervenção mais requintada, como a elegante guitarra de Eric Clapton em duas músicas, pode logo ser detectada. Como diz o mesmo Daniel Corrêa no texto acima citado: “Blue & Lonesome é disco essencial para se ouvir e guardar na coleção. O único problema é a sensação de já estar ouvindo essas canções na voz dos Stones desde sempre, não como se fosse uma novidade, e não ter aquele gostinho de imaginar como seria ouvir novas canções autorais dos Stones, como o ótimo single “Doom & Gloom”, de 2012”.
Ou mesmo como diz o co-produtor do disco, Don Was, em material publicitário: “Este álbum é um testemunho manifesto da pureza de seu amor por fazer música, e o blues é, para os Stones, o manancial de tudo o que eles fazem”. Mais uma vez, falado e dito.
Para mim, só nos resta escutá-los!

terça-feira, 6 de junho de 2017

O cinquentão Sargento Pimenta


O CINQUENTÃO SARGENTO PIMENTA

Clóvis Campêlo

Lançado no Reino Unido no dia 26 de maio de 1967, o velho Sargento Pimenta completou cinquenta anos de vida bem vivida. No Brasil, não lembro a data do seu lançamento, mas foi um rebuliço tremendo. Estávamos em plena ditadura militar e os Beatles enveredavam pela psicodelia. Barato total.
Para mim, comprar o disco não foi fácil. Aos dezesseis anos de idade, ainda sem trabalhar e vivendo numa família em crise existencial e financeira, tive que me virar. Junta daqui e junta dali, chegamos ao patamar desejado. Conseguida a quantia necessária com uma pequena ajuda dos amigos, lá fomos nós para a Casa Rubi, na Rua do Sol, no centro antigo do Recife, às margens do Rio Capibaribe, comprar a preciosidade. Afinal, o nordestino é, antes de tudo, um forte.
Decepcionante foi chegar em casa e verificar que o alto-falante da minha pequena vitrola, havia estourado. Era a hora de mais uma vez exercitar a criatividade. Liguei a pequena caixa de som no alto-falante da televisão em preto e branco do meu pai, uma velha Müllard cansada de guerra, e funcionou. Logo o som estridente se espalharia pela sala. Extasiado, eu queria mais, Não me cansava de ouvir aquilo tudo, para desespero da velha Macionila, a nossa secretária, uma interiorana da cidade de Lagoa dos Gatos, que carinhosamente chamávamos de Lila. Reclamou da música estranha e pediu uma música de Vicente Celestino. Fui impiedoso. Aquela não seria a hora adequada para fazer concessões. Ela que tratasse de entender e gostar dos Beatles. Afinal,o LP gravado com todos os requintes da tecnologia de ponta e da criatividade da época estava sendo escutado naquela gambiarra funcional. Pra mim, ótimo!
Ali estava o oitavo LP da banda que revolucionava a música pop. O disco era conceitual e inovador, não só pelas músicas criadas, como pelas técnicas de gravação utilizadas pelo grupo e seus engenheiros. Não havia como ignorar tudo isso. Entre o mar e a maré, o Pina dos anos 60 estava antenado e ligado nas novidades do grupo. Hoje, no auge da maturidade cronológica mas ainda apaixonado por tudo o que os Beatles foram, são e serão, leio coisas engraçadas que foram escritas sobre o grupo e o disco, naquela época.
Por exemplo: “Sgt Peppers “reconcilia os ideais estéticos diametralmente opostos da música clássica e da psicodelia, angariando uma síntese psicoclássica das duas formas musicais”. Engraçadíssimo! Mas dá para entender? Quem disse isso foi um tal de Nahptali Wagner, para mim, um ilustre desconhecido, uma eminência parda, pegando carona no sucesso do momento.
Outra joinha: “Além de importante trabalho da psicodelia britânica, o disco de multigêneros incorpora diversas influências estilísticas, incluindo, vaudeville, circense, music hall, avant-garde, e música clássica ocidental e indiana”. Não sei quem falou isso, mas está lá na wikipédia. Era inteligência demais para a minha cabeça adolescente. E enquanto as galinhas cacarejavam no quintal, eu aumentava o volume pra curtir aquele rock'n'rool. A novidade vinha dar na praia do Pina. Graças a Deus e aos Fab Four. Naquele momento, a felicidade não era uma arma quente. A felicidade era poder olhar a cara aparentemente tranquila do Sargento Pimenta.
Je vous salue, meninos de Liverpool!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Grafite, o último rei do Arruda


Fotografia de Gabriel Campêlo

GRAFITE, O ÚLTIMO REI DO ARRUDA

Clóvis Campêlo

Como aconteceu com outros grandes jogadores que já passaram pelo Arruda, Grafite também deixou o seu nome gravado na história do Santa Cruz, Aliás, não só o seu nome, como também a sua imagem estampada nas paredes das arquibancadas corais, onde está desenhado como o último Rei do Arruda. Acompanhe a trajetória desse grande jogador e artilheiro e veja como ele foi importante no ressurgimento do Santinha na elite do futebol brasileiro..
Seu nome verdadeiro é Edinaldo Batista Libânio. Nasceu na cidade de Jundiaí, em São Paulo, no dia 2 de abril de 1979, no Ano Internacional da Criança.
Começou a sua carreira futebolística na Sociedade Esportiva Matonense, clube da cidade de Matão, que disputa as divisões inferiores do futebol paulista, fundado em 24 de maio de 1976, apenas três anos antes do nascimento do craque.
Em seguida, foi para Araraquara, defender a Ferroviária daquela cidade, clube mais antigo e tradicional do futebol paulista, criado em 1950. De Araraquara para o Recife, foi um pulo. Em 2001, chegava pela primeira vez às Repúblicas Independentes do Arruda para iniciar uma relação com o Santinha que se estenderia até os dias de hoje.
No Arruda, entre 2001 e 2002, disputou 22 jogos pela Cobra Coral, marcando apenas cinco gols, mas chamando a atenção pelas boas atuações e por sua frieza diante dos goleiros adversários na hora de finalizar.
Do Santa Cruz foi para o Grêmio Portalegrense, em 2002, onde disputou nove partidas sem marcar nenhum gol. Em 2003, foi contratado pelo Anyang Cheetaas, da Coreia do Sul, de onde, no segundo semestre veio para o Goiás, destacando-se no Campeonato Brasileiro daquele ano, marcando 12 gols em 20 jogos.
Em 2004, embalado pela boa fase no Goiás, foi para o São Paulo Futebol Clube, onde formou no ataque titular ao lado de Luís Fabiano, marcando 27 gols em 73 jogos. No São Paulo, em 2005, mesmo passando um bom tempo machucado, ajudou o clube e se tornar Campeão Brasileiro naquele ano, e Campeão Mundial de Clubes, participando dos jogos da semifinal e da final. Em função das suas boas atuações pelo tricolor paulista, foi convocado por Carlos Alberto Parreira para a Seleção Brasileira de Futebol, onde disputou quatro jogos, assinalando um gol contra a Guatemala, no jogo que marcou a despedida de Romário da seleção.
Em 2006, ganhou o mundo indo atuar na França, pelo Les Mans, onde em 51 jogos marcou 16 gols. Em 2007, foi o Wolfsburg, da Alemanha, onde em quatro anos e 131 jogos disputados, foi autor de 76 gols. Pelo clube alemão, conquistou, em 2009, o inédito título do Campeonato Alemão, sendo ainda o artilheiro da competição com 28 gols marcados e batendo o recorde de 53 gols de Gerd Müller e Uli Hoeneb, marcando 54 gols numa mesma temporada. Era a glória e a consagração definitiva do grande artilheiro na Europa.
Antes de voltar ao Santa Cruz, em 2015, ainda atuou pelo Al-Ahli Club, de Dubai, onde marcou 66 gols em 85 jogos, entre 2001 e 2014, e pelo Al-Sadd Sports Club, do Qatar, em 2015, onde jogou nove partidas, marcando um gol.
De volta ao Santa Cruz, foi recebido em grande estilo no Estádio do Arruda, onde chegou de helicóptero para delírio da torcida coral. Estreou contra o Botafogo carioca, no Campeonato Brasileiro da Série B, marcando de cabeça o gol da vitória e terminando a competição como vice-campeão, o que levou de volta o Santinha à Série A do Campeonato Brasileiro, em 2016.
Nesse mesmo ano, foi campeão da Copa do Nordeste e do Certame Estadual, realizando o sonho de conquistar títulos com a camisa coral, o que não havia acontecido antes. Ao todo, entre 2015 e 2016, participou de 71 jogos com a camisa coral e marcou gols, numa passagem brilhante e vitoriosa.
Ao sair do clube, em dezembro de 2016, rumo ao Atlético Paranaense, deixou nas redes sociais a seguinte mensagem de despedida:
"Queria agradecer a todos os jogadores, técnicos, diretores e especialmente funcionários, que são a base do nosso sucesso no dia a dia, por este um ano e meio de convívio, irmandade e lutas, porque sabemos que o dia a dia no Santa não é fácil. A saída não está sendo do jeito que imaginávamos que seria um dia, mas foi amigável, sem mágoas ou rancor de minha parte e vi que por parte do nosso 'Querido Presidente' Alírio Moraes também, em comum acordo decidimos que era melhor eu sair, sabemos das dificuldades que o clube vive administrativamente, vai ser melhor para ambos!"

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Dias piores virão


DIAS PIORES VIRÃO

Clóvis Campêlo

Há épocas em que tudo parece conspirar contra nós ou contra as nossas vãs filosofias e ideologias. Não só fatores internos, como elementos externos também. Como se já não nos bastassem o passar do tempo e a sua ação deletéria sobre nós e a matéria que nos sustenta e mantém a nossa relação com o mundo exterior que nos cerca. Envelhecer não é fácil. Por isso, dias piores virão!
Com certeza, o enfraquecimento físico do indivíduo favorece o afrouxamento do seu ideário. Em determinados momentos viver não é preciso. Preciso será sobreviver. E isso requer adaptação aos novos tempos e adversidades. Já se disse que na prática a teoria se modifica. A idealização excessiva pode modificar o mundo, mas também pode nos reter prisioneiros em uma bolha imaginária onde nem sempre a perfeição será alcançada.
Vivemos hoje em um mundo que nem sempre caminha no sentido em que o desejamos. Talvez nem mesmo isso tenha acontecido em algum tempo. Temos hoje nas prateleiras ideias diversas que nos são servidas prontas e nem sempre questionadas ou revistas. A grande maioria, porém, nem a isso alcança. Prefere aceitar a prática repetitiva e patológica, achando que essa tranquilidade aparente e monótona é o objetivo final da vida. Para que se inquietar? Afinal, são vários os ópios do povo, inclusive os possíveis antídotos.
E embora a inquietação excessiva não deva ser a meta, estar aqui e agora não deixa de ser preocupante para quem insiste em pensar e questionar os parâmetros consagrados.
Houve um tempo em que se dizia que a saída estaria nos nossos aeroportos. Sair seria viver e ficar apodrecer. Muitos saíram e não voltaram. E nem todos os que ficaram caíram na podridão. Afinal, o processo é muito mais dinâmico do que pensávamos e nem sempre (ou nunca), para alegria geral dos inadaptados, existirá o controle perfeito.
Para mim, não adianta mais falar em estados do bem-estar social. A matilha retornou com fome e sede de sangue. Finda a revolução que nunca houve de fato, restará a briga pelo espólio. Aos tolos, as migalhas!
Admito que talvez ainda nos seja necessário abrir mão da misericórdia, do sentimento religioso da salvação. Não será essa mais uma ideia inventada?
Ou mesmo desinventar as soluções coletivas. Será isso mesmo que a maioria ignóbil quer?
Como diria o poeta reacionário, talvez só nos reste o último tango argentino em Paris...

domingo, 23 de abril de 2017

Pixinguinha


PIXINGUINHA

Clóvis Campêlo

Este texto visa tão somente homenagear o compositor Pixinguinha no dia do seu nascimento.
Foi no dia de hoje, Dia de São Jorge, que Alfredo da Rocha Viana Filho nasceu na cidade do Rio de Janeiro.
Segundo a Wikipédia, Pixinguinha era filho do músico Alfredo da Rocha Vianna, funcionário dos correios, flautista e que possuía uma grande coleção de partituras de choros antigos. Aprendeu música em casa, fazendo parte de uma família com vários irmãos músicos, entre eles o China (Otávio Vianna). Foi ele quem obteve o primeiro emprego para o garoto, que começou a atuar em 1912 em cabarés da Lapa e depois substituiu o flautista titular na orquestra da sala de projeção do Cine Rio Branco. Nos anos seguintes continuou atuando em salas de cinema, ranchos carnavalescos, casas noturnas e no teatro de revista.
Ainda segundo a Wikipédia, Pixinguinha integrou o famoso grupo Caxangá, com Donga e João Pernambuco. A partir deste grupo, foi formado o conjunto Oito batutas, muito ativo a partir de 1919. Na década de 1930 foi contratado como arranjador pela gravadora RCA Victor, criando arranjos celebrizados na voz de cantores como Francisco Alves ou Mário Reis. No fim da década foi substituído na função por Radamés Gnattali. Na década de 1940 passou a integrar o regional de Benedito Lacerda, passando a tocar o saxofone tenor. Algumas de suas principais obras foram registradas em parceria com o líder do conjunto, mas hoje se sabe que Benedito Lacerda não era o compositor, mas pagava pelas parcerias.
Considerado hoje como um dos maiores compositores da música popular brasileira, na sua época Pixinguinha pagou o preço da excessiva modernidade como compositor. Algumas composições suas, como Carinhoso (1916-1917) e Lamentos (1928), foram consideradas excessivamente influenciadas pelo jazz. Por sinal, essa mesma crítica, anos depois, seria feita por alguns analistas mais radicais às composições do maestro Tom Jobim. Ambos sobreviveram e conquistaram o reconhecimento merecido.
Pixinguinha faleceu no dia 17 de fevereiro de 1973, Dia de Santo Aleixo Falconieri, um dos fundadores da Ordem dos Servidores de Nossa Senhora, santo de poucos devotos no Brasil.
Aos 72 anos de idade, morreu na Igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, quando se preparava para ser padrinho de um batizado. Em várias biografias suas consultadas na internet, não conseguimos identificar quem seria o felizardo a ter Pixinguinha como padrinho de batismo.
Pixinguinha passou os últimos anos da sua vida no bairro de Ramos, que adorava e foi enterrado no Cemitério de Inhaúma.
Ao grande compositor, nossa singela homenagem.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Para onde iria Bandeira?



PARA ONDE IRIA BANDEIRA?

Clóvis Campêlo

Para onde iria o poeta Bandeira todo vestido de branco e arrastando consigo aquela mala preta? Não aparenta grande esforço, apesar do ar cansado. À sua frente, segue a amiga Maria de Lourdes Heitor de Souza. Sugestivamente, quatro rapazes que compõem involuntariamente a imagem caminham em sentido contrário. Iria o poeta para Pasárgada, onde sempre foi amigo do rei? Estaria fugindo do beco em busca de ares menos rarefeitos?Para o poeta Drummond, que lhe dedicou alguns poemas, Bandeira não foi para Pasárgada porque não era esse o seu destino. Com certeza, não se habituaria lá. Para ele, Bandeira era homem de viver em seu território próprio e intransferível, homem dolorido e experiente que subjugara o seu desespero a poder de renúncia, vigília e ritmo.
Na fotografia acima, Bandeira parece carregar na mala o leve e inseparável peso da vida. Parece ter plena consciência de que já não haveria mais tempo para largá-la e recomeçar. Olha para a frente com a certeza de que já conhece o caminho a seguir. Não lhe interessa nem mesmo a bifurcação da calçada por onde transita. Não lhe parece haver outro rumo ou a possibilidade de retorno. Apenas caminha e vai.
Em outro poema chamado de Itinerário, o poeta Drummond traça o caminho inicial do poeta Bandeira, que se inicia na Rua da Ventura e chega à Rua da Saudade, passando pela ruas da Soledade, da Aurora e do Sol, e formando um halo em torno da Rua da União. Na visão de Drummond, o poeta Bandeira, verdadeiro itinerante, atravessava o Recife com a naturalidade de quem sabe que ali apenas começava o grande caminho.
Em mais outro poema, agora chamado de Rotinas, o vate mineiro, com conhecimento de causa, diz que o poeta Bandeira, cumprindo sem revolta e sem amargura o estatuto civil da pobreza, enfrenta uma crepuscular fila de ônibus em Copacabana, tendo na mão esquerda um livro e a tradução da tragédia alemã. Em outro território, o mesmo exercício da simplicidade e do despojamento. Um homem simples, embora sensível e poeta.
Bandeira sempre foi um homem de ir. Em Clavadel ou em Quixeramobim. Mesmo sabendo que o futuro poderia ser uma terra incerta e pedregosa. Do Recife ao Rio de Janeiro, a mesma certeza de que haveria a hora da chegada, assim como houve a hora da partida. Ao poeta modernista, não cabem revoltas. Apenas conhecimento e resignação.
Ao deixar o beco, simbolicamente Bandeira pouca coisa levava, como da vida pouca coisa se leva. Talvez imaginasse o grande encontro com o ineludível, com a passagem, com a transmutação final. Ao deixar o beco, embarcaria em um grande automóvel preto onde poderia ser vista no seu rosto uma tranquilidade consciente e inalienável. Ao deixar o beco, Bandeira tornava-se imortal e imorrível, uma referência segura e incomparavelmente bela.

Recife, março 2016

Fonte: Bandeira a Vida Inteira. Edições Alumbramento/Livroarte Editora, Rio de Janeiro, 1986.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O Galo


O GALO

Clóvis Campêlo

Lá vem o Galo! De novo? Afinal, estamos em um novo sábado de Zé Pereira. E sábado de Zé Pereira, no Recife, é sinônimo do Galo da Madrugada.
Durante anos, sai de casa cedinho para fotografar as fantasias do Galo no Forte das Cinco Pontas. Era a hora mais tranquila para isso. Porque depois, quando o bloco descambava pelas ruas do bairro de São José, no centro de Recife, não tinha mais quem juntasse os cacos. Na Rua da Concórdia, então, ninguém se entendia, muito embora todos escapassem no final. O Galo obedecia ao princípio da democracia, permitindo a todos o prazer da folia. Nada de camarotes globais e refrigerados. Sempre gostei de ir para as ruas, misturado com a alegria e as fantasias do povo. No carnaval do Galo e do Recife, nenhuma imaginação deveria ser castigada.
Mas também tinha gente que não gostava do Galo, ou do seu gigantismo midiático. Mestre Liêdo Maranhão mesmo era um deles. Alegava que aquilo não fazia sentido e acabava com a tradição do carnaval de rua do Recife. Dizia que o Galo era a Itaipu do carnaval recifenses, numa referência à imensa imensidão daquela obra. Afinal, cadê as orquestras de frevo tocando no chão e arrastando muita gente? Para dar conta da sua dimensão, o Galo reinventou os trios elétricos. Se tudo começou na Bahia, não importava. Bastava que tocassem a autêntica música pernambucana, o frevo. No início foi assim. Depois, começaram a introduzir outros ritmos. Diversidade ou oportunismo?
Liêdo Maranhão, na sua turrice, não deixava de ter razão, já que o Galo, segundo Enéas Freire, o seu próprio criador, surgiu para reviver os antigos carnavais de rua, em contraste com o predomínio, na época, dos bailes carnavalescos dos clubes sociais.
Assim, com essa intenção, o primeiro desfile do Galo aconteceu no dia 23 de janeiro de 1978, saindo o clube da sua sede, na Rua Padre Floriano, acompanhando por 75 foliões fantasiados de alma. Essa informação está no site da Fundaj, em texto de Virgínia Barbosa. Mais o Galo cresceu, cresceu e cresceu.
Em 1995, foi considerado oficialmente pelo Guiness Book, como o maior bloco de carnaval do mundo, Em função disso, o Galo alimenta até hoje estatísticas nem sempre confiáveis. Dizem até que em determinado ano já chegou a colocar nas ruas mais de 2,5 milhões de foliões. Talvez tenham razão. Talvez seja mais uma lenda a ser alimentada sobre o Galo. Ou bichinho danado, esse Galo! Criou asas e nunca mais se aquietou no terreiro!
No mesmo texto da Fundaj citado, encontramos a informação de que o estandarte do Galo foi criado por Mauro Freire, filho do fundador e presidente perpétuo do Bloco. É composto por um galo colorido num poleiro, tendo um sol dourado atrás, três máscaras, confetes, serpentinas e notas musicais do nosso ritmo, o Frevo. Por seu lado, o hino do bloco foi criado pelo compositor José Mário Chaves. A partir de 20 de fevereiro de 2009, o Clube de Máscaras O Galo da Madrugada passou a ser considerado, além do maior bloco carnavalesco do mundo, Patrimônio Imaterial de Pernambuco.
Como todo bom pernambucano, eu espero um ano pra cair na brincadeira. O Galo é coisa nossa. Indispensável. Vamos nessa!

Recife, fevereiro 2017

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Sobre prédios, pomares e modernidade


Rubem Braga no seu "jardim aéreo", em Ipanema

SOBRE PRÉDIOS, POMARES E MODERNIDADE

Clóvis Campêlo

Passa o tempo e os hábitos e costumes sociais vão mudando. O que antes era proibido e condenado socialmente passa a ser aceito. Do mesmo modo, o anteriormente permissível passa a ser visto como retrógado e superado. E assim caminha a humanidade.
Na maioria das vezes, isso tudo é movido por interesses pecuniários e comerciais. Nem sempre as mudanças significam evolução nos hábitos e melhorias nas condições de vida dos cidadãos. E isso, às vezes, é complicado.
Há 50 anos atrás, eu estudava no Ginásio Pernambucano e tinhas como professor de música um senhor chamado Miguel Barkokebras. As suas aulas eram sempre interessantíssimas e repletas de discussões amplas, gerais e irrestritas. Não apenas estudávamos a sua matéria, como discutíamos sobre tudo e sobre todos. Já naquela época, o professor Barkokebras dizia que a saída para as cidades modernas seria a verticalização. Que num futuro bem próxima, as pessoas se amontoariam em prédios altos para resolver a questão habitacional. E ele estava certo. Esse tempo já chegou.
Para quem, como eu, teve uma infância repleta de quintais e espaços livres para brincar, isso pode parecer terrível. Meus filhos ainda alcançaram uma fase de transição, entre as casas e os apartamentos. Meus netos, porém, já nasceram e estão crescendo em apartamentos. Isso modifica todo um modo de vida. Até mesmo as brincadeiras infantis se modificam e precisar ser adaptadas aos novos tempos e espaços. Deixam-se de lado as atividades físicas e predominam os jogos e brincadeiras em computadores. Mudam as crianças e mudam os seus relacionamentos e as suas visões do mundo. E isso parece ser irreversível.
Se no Recife esse processo de mudanças foi mais lento, em cidades brasileiras mais evoluídas, como o Rio de Janeiro, ele aconteceu bem mais antes. Nos anos 70, a verticalização já atingia de forma contundente bairros nobres cariocas, como Ipanema. Lembro que, naquela época, o Pasquim já fazia uma campanha cerrada contra essa verticalização desenfreada e contra a especulação imobiliária que tomava conta de bairros diversos do Rio de Janeiro.
O escritor Rubem Braga, considerado por muitos como um dos maiores cronistas brasileiros de todos os tempos desde Machado de Assis, por exemplo, conciliou tudo isso morando na cobertura de um pequeno prédio, em Ipanema, onde cultivava jardins e várias árvores frutíferas. Rubem Braga, aliás, nasceu no Espírito Santo, na cidade de Cachoeiro do Itapemirim, onde também nasceu Roberto Carlos. Antes de se fixar no Rio de Janeiro, segundo a Wikipédia, também morou no Recife, onde dirigiu a página de crônicas policiais do Diario de Pernambuco, e onde fundou o jornal Folha do Povo. Posteriormente, efetivou residência no Rio de Janeiro, onde viveu até a sua morte, em 19 de dezembro de 1990. Ainda segundo a Wikipédia, foi inaugurada no dia 30 de junho de 2010 a terceira saída da estação General Osório do Metrô em Ipanema, que conta com duas torres com dois elevadores ligando a Rua Barão da Torre ao Morro do Cantagalo, que recebeu o nome de Complexo Rubem Braga, em homenagem ao escritor que por anos morou na cobertura do prédio vizinho à estação.
Voltando ao Recife e às moradias modernas, porém, as mudanças provocadas pelas construções verticais desenfreadas influem não só no nosso modus vivendi, mas também em problemas estruturais de ordem prática. Com o aumento da densidade demográfica que isso provoca, surge a necessidade de um maior consumo de água, de uma maior geração de dejetos e esgotos, de um estrangulamento nos sistemas viários e de transportes coletivos. Ou seja, a cidade cresce e a sua complexidade aumenta.

Recife, fevereiro 2017

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sobre quintais, passarinhos e cachorros


SOBRE QUINTAIS, PASSARINHOS E CACHORROS

Clóvis Campêlo

No Pina, tive uma infância que hoje não existe mais. A casa dos meus pais tinha um quintal onde proliferavam as árvores frutíferas. E com elas, vinha a passarinhada. Ao mesmo tempo, o nosso quintal confrontava-se com o terreno da Escola Estadual Landelino Rocha onde abundavam os pés de oiti da praia e oiti coró. Neles, em época de reprodução, várias espécies faziam seus ninhos.
Os papacapins, aves que na época não tinham muito valor, naquelas condições propícias, reproduziam-se pra valer. Tornavam-se mesmo uma praga, famintos, invadindo os nossos alçapões e comendo as iscas que utilizávamos para passarinhar. Meu pai gostava de criar passarinhos e tinha época que havia mais de 30 gaiolas para serem diariamente cuidadas. Como o velho acordava cedo e cedo saía para o trabalho na repartição pública onde dava expediente, a responsabilidade com as aves sobrava para mim e para o meu irmão Carlinhos. Revezavamo-nos diariamente nessa labuta que, apesar de tudo, era-nos bastante agradável. Naquele tempo, criar passarinhos em cativeiro era socialmente aceitável e não se configurava no “crime ecológico” de hoje.
Como no nosso quintal havia uma profusão de árvores frutíferas, também era grande a quantidade dos passarinhos comedores de futas, os chamados “passarinhos de molhado”. Desses, meu pai não gostava muito por sujarem em demasia as paredes de casa. Mesmo assim, eram comuns os sabiás, guriatãs, sanhassus, xexéus, concrizes, arapongas, com suas plumagens coloridas e seu cantos diferenciados. Entre os comedores de alpistes e painço, proliferavam os canários da terra, os curiós, patativas e caboclinhos, galos de campina, os já citados papa-capins, azulões, cravinas e bigodes.
Lembro com saudade desse tempo pela liberdade e pelo espaço que nós, enquanto crianças, tinhamos para brincar. Além de tudo, havia mais respeito e consideração entre os vizinhos e amigos. Vivíamos em uma comunidade que se tratava e agia como tal. A insegurança pública e os amigos do alheio ainda não nos assustavam tanto.
Um dia, acordo cedo e vejo o meu pai observando algo junto ao portão. Aproximei-me para ver o que era e ele me avisou: “Não chegue muito perto pois ela pode lhe morder”. Era uma cadela toda branca (logo tornou-se a famosa Branquinha) que havia parido um único cachorrinho malhado em preto e branco. Esse filhote cresceu, tornou-se um belíssimo vira-lata e ganhou o nome de Rex, por conta do seu porte imponente. Viveram conosco até o dia em que a família de desfez, com a separação dos meus pais. Hoje, não consigo mais lembrar que destino tiveram quando saímos daquela casa e, acompanhando minha mãe, fomos morar em um apartamento em Boa Viagem.
A partir daí, nosso estilo de vida mudou. Morar em apartamento exige novas atitudes e, assim, demos adeus aos quintais e passarinhos do Pina. Cachorros, ainda houve uma outra fêmea da raça pequinês, chamada Lili, que nos acompanhou durante alguns anos. Lili era mansa e dócil e terminou por ser levada por alguém com quem simpatizou. Deixamos o portão aberto e foi por ali que ela saiu para nunca mais voltar. Talvez tenha sofrido um pouco, pois cachorros são fiéis e não trocam de dono com tanta facilidade. Talvez tenha tido a sorte de encontrar alguém generoso e que a tratou com o carinho e o respeito que merecia.

Recife, fevereiro 2017

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Ainda sobre Felinho


AINDA SOBRE FELINHO

Clóvis Campêlo

Amigos, coisa boa é escrever e receber o chamado feed-back, a resposta de quem nos leu e teceu comentários e observações sobre o nosso texto.
Foi o que aconteceu com o artigo sobre Felinho e a sua maravilhosa performance na gravação do frevo Vassourinhas, em 1956, com a orquestra do maestro Nelson Ferreira.
Do amigo e escritor Urariano Mota, recebo o comentário abaixo, com informações valiosas que transcrevo na íntegra:

"Muito boa pesquisa, Clóvis Campêlo . Parabéns. Eu chamo a atenção para a genialidade do grande maestro e compositor Nelson Ferreira. Foi ele quem incentivou o gênio de Felinho para que brilhasse no frevo Vassourinhas. Em um maestro convencional, autoritário, Felinho não teria autorização para os seus imortais improvisos. Palavras do violonista Henrique Annes numa entrevista: "Felinho era um homem baixinho, um figura muito assim carismática, não é?, uma pessoa assim de méritos, foi quem criou as variações de Vassourinhas, não é? Eu conheci Nelson Ferreira, eu era menino, e Nelson Ferreira contava que foi uma vez no Clube Internacional, ele tocando Vassourinhas, tararará... aí disse que Felinho tomou uns porres, e subiu em cima da cadeira, e começou a fazer as variações: tiririri-ri-ril-ril. Ah (ri), foi aí que nasceram as variações do Vassourinhas.
- Aí Nelson Ferreira tinha sensibilidade e fez: “Que coisa boa. Repete isso”.
- Coisa boa, não é? Aí terminaram gravando. Tem uma gravação até na Rádio Clube. A gravação original é da Rádio Clube. "

De outro amigo, o radialista e musicólogo Gilvando Paiva, recebo mais um comentário, também transcrito na íntegra, com observações bem colocadas sobre as oscilações do meu texto apressado:

"Sou fã do inesquecível Felinho. Tenho em minha discoteca essas duas obras-primas: sua participação destacada na gravação de Vassourinhas e o frevo Formigão, de sua autoria. Perdoe-me, amigo Clóvis, mas no artigo há momentos em que você confunde saxofone com clarinete. Somente uma vez você diz que as variações de Vassourinhas foram feitas com saxofone. Nas demais referências, você afirma que Felinho as fez com clarinete. A bem da verdade, ouvindo-se a gravação a gente constata que elas foram feitas com saxofone. Essa observação vai a título de colaboração.
Receba o meu abraço."

Agradeço aos amigos pela paciência em ler meu texto e complementá-lo ou retificá-lo com informações tão importantes.
Penso ainda que a homenagem à Felinho era a sua intenção principal e acredito que isso tenha sido conseguido.
Saravá!

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A arte de Felinho


A ARTE DE FELINHO

Clóvis Campêlo

Assim como Nelson Ferreira, Felinho nasceu na cidade de Bonito, no agreste pernambucano, no dia 14 de dezembro de 1895. Morreu no Recife, em 9 de janeiro de 1980, pobre e esquecido, segundo o site Overmundo.
Aliás, ainda segundo o site Overmundo, Felinho integrou a Orquestra do Centro Musical Pernambucano e em 1931 foi clarinetista do Teatro Helvética. A convite do maestro Nelson Ferreira, passou a tocar saxofone no conjunto da Rádio Clube de Pernambuco, permanecendo ali por 20 anos. Foi primeiro flautista da Orquestra Sinfônica do Recife até sua morte, mas ficou famoso foi pelas divinais variações que criou no saxofone para o frevo "Vassourinhas" e pela criação de "Formigão".
Segundo Renato Phaelente, no seu livro  MPB - Compositores Pernambucanos, Felinho teve um ensinamento musical tão profundo, que aos 15 anos de idade tornou-se regente de bandas de música de várias cidades pernambucanas. Ainda segundo Phaelante, aprendeu a tocar clarinete com o clarinetista Antônio de Holanda. No Recife, criou o Quarteto de Saxofones Ladário Teixeira, ao mesmo tempo em que participava da Orquestra de Concertos e participou, com flautista, da inauguração da Orquestra Sinfônica do Recife. Ainda segundo Phaelante, As variações para clarinete, introduzidas por ele no frevo Vassourinhas, gravado em 1956 com a orquestra do maestro Nelson Ferreira, tornaram-no conhecido e admirado por todos os amantes da música.
Em um dos seus livros de memórias, Liêdo Maranhão lembra que na mocidade frequentava os "assustados" na casa de Felinho, no bairro de São José, onde morava.
O vídeo acima nos mostra a figura bem comportada de Felinho, que na verdade se chamava Félix Lins de Albuquerque, enquanto a sua improvisação com o clarinete poder ser ouvida e admirada. Na verdade, essa gravação bastante convencional de Vassourinhas salva-se pelas variações geniais de Felinho. Ele recria a música com tanta competência e convicção que chega a tornar-se quase seu co-autor.
Isso me lembra o caso do grupo britânico Procol Harum, onde na música A White Shade of Pale o solo de teclado feito pelo organista Matthew Fisher deram-lhe na justiça o direito a 40% da autoria da canção.
Em tempo de proximidade do carnaval, vale a pena relembrar de Felinho, o mago do saxofone e do clarinete que recriou Vassourinhas.
Saravá!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

No tempo de Alaíde Drink's


Waldick Soriano era habituê na radiola de fichas

NO TEMPO DE ALAÍDE DRINK'S

Clóvis Campêlo

Para mim, naquela época, Alaíde Drink's era melhor do que o Mollin Rouge de Paris. Era um puteiro modesto, nos anos 60 e 70, situado na Rua do Jaú, no lusco fusco da Zona do Pina. Mas de gratas recordações.
Uma radiola de fichas, encravada em uma das paredes laterais, no segundo saguão, tocava de Waldick Soriano a Jimi Hendrix, passando por B. J. Thomas. Depois que já estávamos biritados,Fire, era a nossa música preferida. E aquilo ali pegava fogo mesmo. Para acalmar, nos intervalos, Rock'n'roll lulaby. Ou seja, sexo, álcool e rock'n'rool. Hoje, os três itens são quase incompatíveis. Ou seja: não se passa impunemente pelos anos.
A Rua do Jaú era conhecidíssima. Nela, a zona do Pina resplandecia. Começava pela boate Primavera, no início da rua, por trás de onde hoje se situa o edifício do JCPM. O seu letreiro azul em gás neon podia ser visto na avenida Antônio de Goes e funcionava como um chamariz. Era uma casa de nível médio, digamos assim.
Mais adiante, na esquina com a Rua Comendador Moraes, ficava a famosa Casa Branca, com mulheres selecionadíssimas e bem mais caras. Apesar da sua fachada discreta, era um ambiente mais sofisticado e de bom gosto. Nada de baixarias. Para nós, na sua grande maioria filhos de funcionários públicos da classe média, era praticamente inacessível.
Restava-nos, portanto, o ambiente descontraído de Alaide Drink's, onde, além de tudo, a radiola de ficha nos satisfazia as exigências musicais. Ali bebíamos, dançávamos e conversávamos com as mulheres quando não estavam no metiê. Ali comemorávamos os feitos e as datas festivas, como, por exemplo, a conquista do tri no México, pela seleção brasileira de futebol. Aliás, aquela festa foi inesquecível. A boate fervilhava repleta de gente e alegria. O ambiente não era refrigerado (naquele tempo, um luxo distante) e as bandeiras do Brasil se enrolavam nos ventiladores de teto. Éramos brasileiros, jovens e tricampeões mundiais de futebol. E em plena ditadura militar, permitíamo-nos ser felizes.
Tudo era muito simples, na boate. Um letreiro grande, pintado, mas sem iluminação, indicava aos transeuntes que ali funcionava, com toda dignidade, um puteiro. A rua, aliás, não era ocupada apenas pelos estabelecimentos da zona. Também haviam residências. Na maioria das vezes, a convivência era pacífica e ordeira. E, durante o dia, era comum encontrarmos com as raparigas na praia do Pina, onde gostavam de tomar banho nas piscinas naturais em frente ao Cassino Americano. Não lembro de que houvessem grandes discriminações, embora a tradicional família pinense fosse um tanto quanto rígida nos seus valores morais e sociais.
Naquele tempo, quando a juventude insistia em nos fazer felizes, a liberdade sexual (ou o sexo livre, como chamávamos) era um sonho distante. Para os rapazes, restavam a opção das empregadas domésticas, com sua liberdade sexual revolucionária, ou as profissionais da zona, que, no caso de Alaíde Drink's, a preços módicos, satisfaziam-nos.
A todas essas figuras importantes rendo as minhas sinceras homenagem.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

A igreja do Pina


A IGREJA DO PINA

Clóvis Campêlo

Dizem que uma imagem fala sem palavras e, por si só, diz tudo. A imagem acima me foi encaminhada pela amiga Anna Cristina Salgueiro, e mostra a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no bairro do Pina, nos anos 30 do século passado.
Anna, que também é chamada de Tininha, foi minha vizinha, no bairro, nos anos 60, na Rua Estudante Jeremias Bastos. Aliás, mais do que amigos e vizinhos, por um curto período de tempo, fomos cunhados. E mais do que cunhados e vizinhos, fomos torcedores fiéis e fervorosos do Santa Cruz Futebol Clube. Juntos, em 1969, vimos o Santinha conquistar o seu primeiro título no Estádio do Arruda ainda em construção. Era o início do penta e nós fomos testemunhas oculares disso.
Como um assunto puxa outro, lembro que a Rua Estudante Jeremias Bastos antes se chamava Travessa Herculano Bandeira, em homenagem ao ex-governador, nascido na cidade pernambucana de Nazaré da Mata, e que governou o Estado de Pernambuco de 1908 a 1911.
A rua passou a ser chamar Estudante Jeremias Bastos nos anos 70, graças ao esforço do senhor Geraldo Bastos, também morador da rua e empregado da Padaria Pão Nosso, em homenagear um dos seus filhos falecidos. Seu Geraldo tinha arroubos políticos e por várias vezes se candidatou a vereador do Recife, sem sucesso. Mas conseguiu mudar o nome da rua. Assim, o logradouro foi promovido de travessa para rua, e rebaixado de governador para estudante. Coisas da vida! Para o ex-governador talvez não tenha feito muita diferença, já que permaneceu com o seu nome na avenida principal do bairro.
Pois bem, é nessa avenida que se encontra a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Na fotografia acima, podemos ver que naquela época trata-se apenas de um esboço de avenida. Era por ali que passava o bonde que vinha do bairro da Cabanga e dava acesso à praia. Notamos ainda que do lado esquerdo da igreja ainda não existiam as ruas de hoje, entre as quais se inclui a Jeremias Bastos, havendo apenas um descampado que ia até a beira do mar. Por detrás da igreja, porém, já vislumbramos as comunidades do Bode e do Encanta Moça em desenvolvimento.
A fotografia é importante tanto do ponto de vista do registro iconográfico quando das informações históricas implícitas. E coisa importante, também, para quem, como eu, sempre amou o Pina.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Santa Cruz 1 x 0 Náutico



SANTA CRUZ 1 x 0 NÁUTICO

Clóvis Campêlo

Caros amigos corais:

A primeira vitória em competição válida é como a primeira camisa oficial ganha: a gente não esquece! E foi isso o que aconteceu hoje, 04/02/2017, no Estádio do Arruda. Em jogo válido pela Copa do Nordeste 2017, derrotamos o Clube Náutico Capibaribe. Essa vitória serviu-nos para comprovar que o pálido empate em 0 x 0 contra o time do Belo Jardim no meio da semana, pelo Estadual 2017, foi muito mais um acidente de percurso que uma demonstração nossa de incapacidade técnica.
Dessa feita, o salvador da pátria foi o atacante Éverton Santos, no começo da segunda etapa. A vitória serve para acalmar os torcedores mais críticos e deixa-nos com a perspectiva de que dias melhores ainda virão. E isso, todos nós queremos.
Jogamos e vencemos com Júlio César; Vítor, Bruno Silva, Jaime e Roberto; Elicarlos, David e Léo Costa; Thomás (Halef Pitbull), André Luís (William Barbio) e Éverton Santos (Thiago Primão). Técnico: Vinícius Eutrópio.
Mais uma vez, o público foi decepcionante, em se tratando de um a Clássico das Emoções: 5.086 pagantes, que proporcionaram uma renda de R$ 61.730. Isso nos levar a pensar que as tabelas e os preços das competições oficiais, como o Estadual e a Copa do Nordeste, precisam ser revistos.
Mas, por enquanto, contentemo-nos com a bela vitória.

Dona Dita


DONA DITA

Clóvis Campêlo


Dita Cunha Machado, esse é o nome da minha sogra.
Nasceu na cidade de Riachão, no Maranhão, no dia 4 de fevereiro de 1931.
Ainda menina, mudou-se para a cidade de Carolina, também no Maranhão, acompanhando a irmã mais velha, Maricota, que havia casado.
Em Carolina, conheceu Pedro Alves Machado, com quem casou, no dia 8 de julho de 1952, na sua cidade natal.
Do casamento nasceram nove filhos: Renato, Cleuber, Alberto, Vera, Aparecida, Luiz Antônio, Eliana, Lizane e Ronaldo, este último falecido em dezembro de 2009.
Em 1982, depois de 30 anos de casamento, separou-se de Pedro Machado, indo morar na cidade de Impertatriz, onde a maioria dos filhos já morava e trabalhava.
Com uma memória invejável para a sua idade, quase 81 anos, diz que chegou em Imperatriz no dia 14 de dezembro de 1982, quando a filha Eliana completava 15 anos.
Em Impetariz ficou até 1989, quando decidiu aceitar o convite de Renato, o filho mais velho, e mudar-se para a capital, São Luís do Maranhão. Nessa nova mudança, foi acompanhada pelos filhos Alberto e Eliana.
Confessa que, de início, temeu a nova mudança. Hoje, porém, depois de 22 anos diz gostar da cidade e de não ter mais vontade de deixá-la.
Em São Luíz, morou sete anos no bairro do Cohatrac, mudando-se depois para a Cidade Operária, onde já se encontra há 15 anos.
Hoje, dona Dita tem 16 netos e 5 bisnetos, espalhados por três estados do Brasil: Maranhão, São Paulo e Pernambuco.
Lembra que os seus pais, que se chamavam Luíz Cunha e Antônia, eram naturais de Terezina, no Piauí. Ele, funcionários dos Correios, foi morar em Riachão por conta do emprego. Lá, nasceram todos os onze filhos do casal.
A sua mãe, que era conhecida como Tonica, faleceu em 1952, levando seu Luís a contrair novo matrimônio e também transferir-se para Carolina.
Com uma boa saúde, dona Dita ainda toma uma cervejinha (como Zeca Pagodinho tem preferência pela Brahma, mas afirma que experimentou a Devassa e gostou do sabor) não sofre de hipertensão ou diabetes. Gosta de viajar e visitar os parentes distantes.
Diz que a vida é boa e que a velhice não é nenhum empecilho para a felicidade e o bem-estar.
E afirma com convicção: "Quem não quiser ficar velho que morra jovem".

Recife, dezembro 2011


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Chico da Cobra


Fotografia de Clóvis Campêlo / fevereiro 2012



Fotografia de Clóvis Campêlo / julho 2015




Fotografias de Clóvis Campêlo / dezembro 2015

CHICO DA COBRA

Clóvis Campêlo

Muito mostrado e pouco falado, Chico da Cobra faz parte hoje da galeria dos grandes torcedores corais, ao lado de gente como Pantera, Ivanildo da Buzina, Mazinho da Buzina, Super Santa, Bacalhau de Garanhuns, o Elvis Coral, e antes ainda, nos anos 50, Anísio Campêlo.
Sua caracterização incluí uma enorme cobra coral de papel machê, com a qual anda agarrado. No início dizia que a cobra de papel era para divertir as crianças. Presente em todos os jogos do Santinha, ainda aproveita o carnaval de Recife e Olinda para desfilar com a sua criação.
Começou imitando o famoso rubro-negro Zé do Rádio, hoje falecido. Percebeu depois que a originalidade fazia a diferença e mudou o personagem para Chico da Cobra, deixando um enorme rádio de lado e criando seu personagem de grande sucesso e aceitação.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Criaturas



Fotografias de Clóvis Campêlo
Participação especial de Cida Machado e escultura de Francisco Brennand

CRIATURAS

Clóvis Campêlo

Se até as pedras se encontram, por que não as criaturas? Criadas na solidez das rochas ou na maciez da pele, são signos da Criação. Olham-se e se analisam em buscas de respostas talvez desnecessárias. Ser e estar, eis a questão! E se do pó vieram e ao pó voltarão, cabe, nesse intervalo chamado de vida configurada, cumprirem o papel a que foram destinadas. É o fado, o destino de cada um, traçados bem antes da concretização da forma.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A praia do Pina




 


 

 




A PRAIA DO PINA
Participação especial de Cida Machado
Recife, dezembro 2016
Fotografias de Clóvis Campêlo