domingo, 14 de janeiro de 2018

O Museu da Abolição do Recife




O MUSEU DA ABOLIÇÃO DO RECIFE

Fotografias e pesquisa de texto de Clóvis Campêlo

Casarão construído no século XVII pelo fidalgo Pedro Duro, cuja esposa se chamava Madalena Gonçalves.
No século XIX, pertencia ao Barão de Goiana, tio e sogro do Conselheiro do Império, Senador, Ministro e Chefe do Gabinete Imperial, João Alfredo Corrêa de Oliveira, que o recebeu como herança. João Alfredo, assim como Joaquim Nabuco e outros, foi um abolicionista que lutou pelo fim do Sistema Escravagista, assinando, juntamente com a Princesa Isabel, a Lei Áurea.
No século XX encontrava-se abandonado e em péssimo estado de conservação, tendo sido, ao longo do tempo, utilizado pela Cooperativa de Transportes João Alfredo e pela Companhia Pernambucana Autoviária Ltda, como garagem e oficina para conserto de ônibus. Muitas famílias desabrigadas também moraram no imóvel e, durante o período da II Guerra Mundial, foi ocupado por uma unidade do Exército Brasileiro.
Foi transformado em Museu da Abolição no ano de 1957.

Recife, novembro 2014

Fonte: Wikipédia

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Para as dores nos ossos


PARA AS DORES NOS OSSOS

Clóvis Campêlo

Com dores nas articulações, vou ao médico. Depois dos exames radiográficos, vem o resultado: artrite e artrose. Segundo ele, coisas da idade. Para as dores, analgésicos, antiinflamatórios e um remédio a base de fitoterapia. Mas com um aviso: "A tendência é isso tudo piorar com o passar do tempo, seu Clóvis". Entendo eu, portanto, que a medicação prescrita trata-se de um mero paliativo.
E agora? Como já sofro de psoríase, uma doença autoimune que também ataca as articulações, preparo-me para o pior, que, com certeza, ainda há de vir.
No entanto (sempre existe um no entanto), lembro dos meus velhos compêndios homeopáticos e resolvo fazer neles uma nova investida. Descubro o eupatorium perfoliatum e me lembro que uma vez eu dei a meu irmão, durante uma crise de dengue, e a coisa funcionou a contento.
Recorro ao Guia da Medicina Homeopática, do dr. Nilo Cairo, e nas suas páginas encontro o seguinte: "Em qualquer moléstia em que predominar o sintoma - dores por todo o corpo como se fossem nos ossos, as quais não aliviam nem pelo repouso nem pelo movimento, está indicado o eupatorium, - influenza de forma reumática (principal remédio), febre intermitente (pela manhã, com vômitos biliosos), dengue, febres biliosas, bronquites, etc. Ossos sensíveis e carnes dolentes. Dor occipital, com sensação de peso, após ter-se deitado".
Com base nessa descrição, acredito ter encontrado o remédio adequado para mim. Resolvo ainda, porém, pesquisar mais na grande rede, e no site Medicina Natural encontro que o eupatorium é uma planta medicinal também conhecida como erva-de-cobra, planta-sudorípara, sálvia-indiana e boneset. Pertence à família Asteraceae.
A publicação diz ainda que a planta, segundo texto do Dr. Pierce publicado em 1895, é um excelente estimulante do apetite, além de ótimo tônico e sudorífero. Consta ainda que foi usada como medicamento durante a epidemia de febre amarela que aconteceu em 1793, na Filadélfia. Seus compostos principais são taninos, glicosídeos, ácido gálico, resina e óleo essencial, além de boas quantidades de cálcio, magnésio, potássio e vitamina C.
Descubro ainda, no artigo citado, que a planta é citada em estudos médicos desde meados do século XVIII. O seu nome popular em inglês (boneset) foi dado por americanos que a utilizaram para tratar a "febre de breakbone", que causava fortes dores ósseas, no início do século XX.
Sinto-me recompensado pela pesquisa e com a quase certeza de que esse é o remédio que preciso. Precisaria, no entanto, fazer aqui uma pequena distinção apenas entre o uso homeopático da planta, conforme se refere o dr. Nilo Cairo no seu livro citado, e o seu uso fitoterápico, conforme a indicação do site Medicina Natural. 
Enquanto no segundo caso a o princípio ativo da planta é obtido através de infusão, na forma de chás, na homeopatia é feita a diluição decimal ou centesimal da sua tintura-mãe em farmácias homeopáticas especializadas para isso, sendo esse uso mais indicado para quem tem possíveis problemas alérgicos.

O Dia do Frevo



O DIA DO FREVO

Clóvis Campêlo

Ora, todos nós sabemos que o frevo se celebra durante o carnaval. Então, principalmente na capital pernambucana, os dias do frevo são os dias do tríduo momesco, como se chamava a festa antigamente. Porém, sempre existe um porém, o Dia do Frevo é comemorado hoje em datas distintas, e para ambas existe as devidas justificativas.
O site Paraná Em Foco nos dá logo as duas explicações: "Os pernambucanos comemoram nesta terça-feira (9) o Dia do Frevo. Declarado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o ritmo comanda as festas de carnaval nas ladeiras de Olinda e também pelas ruas do Recife. A data foi escolhida porque há 109 anos o jornalista Oswaldo Oliveira, que trabalhava no Jornal Pequeno, do Recife, se referiu pela primeira vez à dança chamando-a de frevo".
E didaticamente continua: "Segundo historiadores, a palavra frevo quer dizer ferver. E resultou da maneira incorreta como as pessoas mais humildes flexionavam o verbo ferver trocando a ordem das letras “e” e “r”, ou seja, “frever”. O ritmo é derivado da marcha e do maxixe, e surgiu no Recife no final do século 19 para dar ao povo mais animação nos folguedos de carnaval. O ritmo é extremamente acelerado e a música animada. Nas suas origens, sofreu várias influências ao longo do tempo. Apesar de Pernambuco comemorar hoje o Dia do Frevo, um decreto assinado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2009, instituiu o Dia Nacional do Frevo em 14 de setembro".
O Jornal do Commercio do Recife, na sua edição do dia 14 de setembro de 2016 confirma em linhas curtas a informação acima: "Quem é pernambucano sabe que 9 de fevereiro é comemorado no Recife o Dia do Frevo. A data simbólica registra o dia em que a palavra "frevo" foi publicada no jornal pela primeira vez. No entanto, neste dia 14 de setembro, também foi instituído o Dia Nacional do Frevo, reconhecido no calendário oficial do Brasil".
No entanto, no seu blog, o radialista Antônio Cezar faz o seguinte questionamento: "O Dia do Frevo ou Dia Nacional do Frevo em 14 de setembro de cada ano, é uma comemoração não confirmada no Brasil, que aparece listada em vários calendários brasileiros de dias festivos, creditada a um suposto Decreto Federal de 13 de janeiro de 2009, muito embora o referido Decreto tenha instituído apenas o "Dia Nacional da Música Clássica" no Brasil. Segundo se sabe, essa data comemorativa não confirmada de brasileiros teria por fim, marcar a data do aniversário do nascimento do jornalista brasileiro, Osvaldo da Silva Almeida [conhecido principalmente como Paula Judeu], ocorrido em 14 de setembro de 1882, a quem chegara a ser atribuída à criação da palavra "frevo", referida no livro "Frevo, capoeira e passo" do pesquisador brasileiro, Valdemar de Oliveira. Também se lê muito nos sites que alardeiam essa data festiva, que ela teria sido bastante festejada até 1969 com o apoio da EMETUR [Empresa Metropolitana de Turismo] da cidade brasileira de Recife-PE".
Portanto, para mim, fica a dúvida no ar muito embora as datas sejam plenamente justificáveis, em se tratando de homenagens. Apenas acho que em fevereiro a homenagem é mais seja adequada haja vista a proximidade com o próprio carnaval, festividade com a qual o frevo está diretamente ligado.
Para ilustrar a matéria, escolhemos as duas fotografias acima, e que retratam o nosso carnaval de rua e a dança do passo em dois momentos distintos. A primeira imagem, feita pelo fotógrafo francês mas radicado na Bahia Pierre Fatumbi Verger (já falecido), mostra passistas descontraídos e caracterizados de forma livre e pessoal, como bem soa ao carnaval. A segunda, de autor desconhecido, mostra o frevo sendo executado de maneira bem mais técnica e com passistas vestidos com roupas estilizadas e padronizadas. Nada contra, porém.
Que venha o carnaval de 2018!

Corrupção


"A corrupção é como a saúva: ou a gente acaba com ela ou ela acaba com o Brasil!"

Renato Boca-de-Caçapa, o filósofo do povo

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O amor que se canta



O AMOR QUE SE CANTA

Clóvis Campêlo

Assim como a mulher amada, toda cidade querida deve ser cantada em prosas e versos. E assim o fizeram dois grandes compositores da música popular brasileira: Capiba e Caetano Veloso.
Capiba, pernambucano nascido na cidade de Surubim, compôs Recife, cidade lendária. Caetano Veloso, baiano nascido em Santo Amaro da Purificação, compôs Sampa, hino de amor à capital paulista.
E embora Capiba, em momentos de diversidade afetiva, também tenha composto e cantado Olinda, cidade eterna (esta gravada por Caetano) e Igarassú, cidade do passado, será a primeira que irá nos interessar nesse momento de comparações.
Na sua canção, quase uma modinha, gravada por Chico Buarque no mesmo CD que o homenageou e também por João Gilberto, o pai da bossa nova, Capiba canta o seu amor não pelo Recife moderno de hoje, mas por uma cidade lendária que já não existia mais nem mesmo no seu tempo. É uma canção de saudades, como podemos verificar já nas primeiras estrofes:

Eu ando pelo Recife, noites sem fim
percorro bairros distantes sempre a escutar
Luanda, Luanda onde estás
É a alma de preto a penar

Recife, cidade lendária
de pretas de engenho cheirando a banguê
Recife de velhos sobrados
compridos, escuros
faz gosto se vê


E prossegue nas estrofes seguintes cantando um Recife bucólico, onde talvez as tradições da cidade pequena porém decente já desse lugar às inquietações da modernidade irreversível que se aproximava a passos galopantes:

Recife teus lindos jardins
recebem a brisa que vem do alto mar
Recife, teu céu tão bonito
tem noites de lua pra gente cantar

Recife de cantadores
vivendo da glória em pleno terreiro
Recife dos maracatus
dos tempos distante de Pedro I


E arremata finalmente, num grito ao mesmo tempo de capitulação e de revolta inútil:

Responde ao que vou perguntar
que é feito de teus lampiões
Onde outrora os boêmios cantavam
suas lindas canções.

Naquele momento final do brado, do mesmo modo que acontecerá com o compositor baiano na esquina da Avenida Ipiranga com a Rua São João, alguma coisa transforma de maneira definitiva o coração e as convicções do compositor surubinense: o Recife se arremessava para o futuro, esquecendo do seu passado glorioso onde cabiam tanto Pedro I quanto os negros renegados dos maracatus. E a incerteza do futuro parecia machucar o poeta e compositor: ainda haveriam lindas canções? Ou aquela canção acima de tudo dorida e colorida pelas lembranças do passado serviria para lhe acalmar os ânimos naquele momento?

Em Sampa, um belo samba-canção, a relação de Caetano Veloso com a cidade paulistana é ao mesmo de tempo de susto e de enfrentamento. Talvez aquilo tudo fosse demasiadamente grande num primeiro momento para o filho de Santo Amaro da Purificação, mas eram as coisas do mundo presente, minha nega, e precisariam ser entendidas e ter a sua mais completa tradução. E o jogo precisaria ser rápido e definitivo:

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João


No segundo momento, onde o compositor ainda não se reconhece e nem consegue ver o seu rosto no perfil emaranhado da cidade, há o entendido de que diante daquela nova realidade, só lhe resta aceitá-la e mesmo sem decifrá-la plenamente entender-lhe o significado de ser o avesso do avesso do avesso:

Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso


Aceitar provisoriamente a cidade, porém, não significa ter com ela uma relação de passividade ou de omissão diante dos seus problemas e da sua realidade dura e injusta. E surge a crítica, porém, já de uma forma apaixonada e não destrutiva. Afinal ele percebera que apesar de tudo e de toda a sua injustiça e dos seus injustiçados, poderia passear sem medo na sua garoa e como os Novos Baianos, poderia curti-la numa boa:

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mas possível novo quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa.


Este texto modesto e despretensioso é, acima de tudo, uma declaração de amor a Capiba e a Caetano Veloso, e a tudo o que eles significaram e significam na construção da música popular brasileira moderna. Foi a maneira que encontrei para agradecê-los e enaltecê-los um pouco. Tenho dito.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Bloco Carnavalesco Madeira do Rosarinho

Fotografia de Victor Soares

BLOCO CARNAVALESCO MADEIRA DO ROSARINHO

Clóvis Campêlo

A pesquisadora Lúcia Gaspar, no site da Fundaj, assim o descreve: "Um dos blocos carnavalesco mistos mais tradicionais do Recife, o Madeira do Rosarinho, foi criado por Joaquim de França e um grupo de dissidentes, no dia 7 de setembro de 1926, por causa de divergências com a diretoria do antigo bloco Inocentes do Rosarinho. Inicialmente, o grupo pensou em chamar o de gogoia, por estar reunido embaixo de uma árvore dessa espécie, mas houve um consenso de que o nome não “soava bem”. Cogitou-se então chamá-lo Madeira que Cupim não Rói, por ser a gogoia uma madeira resistente. Por fim, optou-se por Madeira do Rosarinho".
O historiador Carlos Bezerra Cavalcanti, no livro O Recife e seus bairros, ao comentar sobre o bairro da Encruzilhada, assim se pronuncia: "Os blocos, como Madeira e Inocentes do Rosarinho, Clube das Pás Douradas, Maracatu de Dona Santa, vinham se exibir no Largo que ficava todo embandeirado e iluminado, dispondo ainda de palanques, barracas, abres e sistema de alto-falante por onde se ouvia, exclusivamente, a maravilhosa música pernambucana, hoje tão esquecida na sua própria terra".
Voltando a Lúcia Gaspar, no seu artigo da Fundaj: "Seu símbolo é um escudo, semelhante aos de clubes de futebol, nas cores vermelha, branca e verde, com uma figura mascarada no centro. A sede do bloco, no bairro do Rosarinho (Rua Salvador de Sá, 64), é um local de entretenimento para a comunidade e para os recifenses em geral. Com capacidade para cerca de mil e quinhentas pessoas, o bloco realiza festas e bailes nos seus salões durante o ano todo, além dos dias de Momo. Na quarta-feira de cinzas, o Madeira do Rosarinho sai às ruas com o Bacalhau do Madeira, bloco que arrasta uma multidão de foliões pela comunidade e seu entorno". E conclui: "O Madeira participa do Concurso de Agremiações Carnavalescas do Recife e é detentor de um hexacampeonato e mais de vinte títulos, entre os quais o de Campeão da Primeira Categoria, em 2005, e do Grupo I, em 2007. Seu desfile acontece no domingo de Carnaval. Conta com um coral profissional, uma orquestra com vinte músicos e cerca de 190 componentes distribuídos em onze alas, além de diversas fantasias nas cores tradicionais do Bloco. Seus ensaios acontecem sempre nas segundas-feiras".
Em matéria publicada no Diario de Pernambuco do dia 1º de fevereiro de 2016, a jornalista Luce Pereira assim se manifesta: "Minha senhora, meu senhor, tem hora em que os versos repetidos à exaustão parecem grudar nos miolos feito tatuagem. Caso de Madeira que cupim não rói (Capiba) outro clássico das multidões, embora padeça da mesma indiferença por parte de quem ouve e canta. Mal associam o hit carnavalesco ao bloco ao qual pertence, e então imagina-se que nem de longe saibam a história por trás da letra. Mas aqui a explicação precisa ser dada com detalhes, porque ele é o hino, a carteira de identidade de um dos clubes mais tradicionais do Recife, o Madeira do Rosarinho, que nasceu no dia 7 de setembro de 1926. Noventa anos. Já estreou na folia, é bom que se diga, com a sina de não levar insatisfação para casa. Surgiu de uma dissidência do Inocentes do Rosarinho, este batizado oito meses antes, em 18 de janeiro do mesmo ano. Foram parecidos apenas na maneira de nascer – o primeiro, de uma conversa entre cinco amigos mantida embaixo de uma jaqueira, o último, sob a sombra de uma árvore de gogoia. Consideremos que a mesma rivalidade observada hoje entre as escolas de samba cariocas e paulistas existia entre os blocos mais tradicionais de Pernambuco. Viria de uma destas brigas a música cantada a plenos pulmões, ainda hoje, por milhares de brincantes espalhados pelo estado inteiro. Sim, porque, naquela época, respostas a insatisfações aconteciam através de palavras musicadas com maestria. Ao menos por isso já vale a pena dizer: bons tempos, aqueles.Era 1963. Momo reinava em Pernambuco, o Madeira já tinha 37 de vida, e eis que os juízes do concurso daquele ano resolvem conceder o título de vencedor do carnaval ao também tradicionalíssimo Batutas de São José, uma disputa que, de acordo com o sentimento do preterido, pareceu “marmelada”. Para a sorte daquela e das futuras gerações de loucos por folia, entrava em campo a genialidade de Capiba, chamada para transformar a revolta em desabafo e o perdedor (de direito) em vitorioso (de fato). Resultado: com o segundo lugar, espécie de “campeão moral”, o Madeira acabou encontrando a fórmula para nunca mais sair da boca do povo".
Voltemos, porém, para o texto de Lúcia Gaspar, que assim se colocou sobre as principais músicas do bloco famoso e querido: "São destaques no seu repertório musical as marchas Me apaixonei por você, Pára-quedista (grafia da época) e, a mais famosa delas, Madeira que cupim não rói, composta por Capiba, em 1963, como uma forma de protesto contra o resultado do concurso de blocos daquele ano, que concedeu o primeiro lugar ao Batutas de São José, como diz, principalmente, a segunda estrofe da música".
Veja abaixo a letra de Madeira que cupim não rói:

MADEIRA QUE CUPIM NÃO RÓI

Capiba

Madeira do Rosarinho
Vem à cidade sua fama mostrar
E traz com seu pessoal
Seu estandarte tão original

Não vem pra fazer barulho
Vem pra dizer e com satisfação
Queiram ou não queiram os juízes
O nosso bloco é de fato campeão

E se aqui estamos, cantando essa canção
Viemos defender a nossa tradição
E dizer bem alto que a injustiça dói
Nós somos madeiras de lei que cupim não rói

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O Bar Savoy



O BAR SAVOY

Clóvis Campêlo

O escritor Urariano Mota, no seu livro Dicionário Amoroso do Recife, assim o define: "Ele ficava na Avenida Guararapes, número 147. Foi o primeiro bar do Recife no afeto, e podemos até dizer, o primeiro sem segundo. A memória desse bar deveria ser retida por todo pernambucano de origem ou formação".
Segundo a página Recife de Antigamente: "O antigo Bar Savoy funcionou no centro do Recife durante 48 anos (1944 - 1992) e era parada obrigatória de artistas e intelectuais que se reuniam no local para discutir política e literatura".
Segundo o escritor, poeta e teatrólogo José Calvino de Andrade Lima, em texto publicado no Recando das Letras: "O Savoy foi fundado em 1944 pelo espanhol Alvarez, passando para os irmãos Simões e, por fim, para o português Joaquim Esteves Pereira, que inaugurou o Canto do Poeta. Esteves, a quem Gilberto Freyre chamava “o bom Esteves”, abandonou o Recife. Na sua gestão, o Savoy transformou-se em uma verdadeira entidade cultural, promovendo concursos, cursos, palestras e adquirindo um magnífico acervo de excelentes obras de arte".
O jornalista Ricardo Noblat, no seu blog do Globo, postou o poema abaixo, de Carlos Pena Filho, onde o Bar Savoy é tema e inspiração:

CHOPP

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antônio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.

Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.

Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

No blog Coisas da Vida, o escritor João Vicente assim se manifesta sobre o desaparecimento do bar tradicional no centro histórico do Recife: "O Bar Savoy resistiu por muito anos desde sua criação em 1944 pelo espanhol Manuel Alvarez até os anos de 1990. Nas muitas idas a Recife após a anistia de 1979, eu sempre costumava frequentar o Bar Savoy na companhia dos poetas Jaci Bezerra, Alberto da Cunha Melo e raras vezes também Domingos Alexandre. Se não me falha a memória, o Bar Savoy já estava sob a batuta do empresário Joaquim Esteves Pereira, que procurava manter toda a tradição da velha casa, animando o espaço com atividades culturais diversas, inclusive concursos literários. Alberto da Cunha Melo, conforme o referido email de Cláudia, no seu caderno confessional “A noite da longa aprendizagem: notas à margem do trabalho poético”, no dia 13 de dezembro de 1984, registrou a concessão de prêmio ao poeta Marcus Accioly pelo Bar Savoy. Voltei algumas vezes ao Bar Savoy nos anos 90, e logo eu pude sentir que a velha casa estava em franca decadência, e que o seu réquiem com certeza já fora encomendado".
A minha geração ainda chegou a frequentar o Bar Savoy, embora já despido da sua aura de local preferido pelos grandes poetas e intelectuais do Recife. Nos anos 90, por exemplo, ainda presenciei Liêdo Maranhão tocando pandeiro no primeiro andar, no Recanto do Poeta, em comemoração ao aniversário de Gilberto, livreiro da Praça do Sebo. Mas só. A decadência e o abandono do centro histórico do Recife também ajudaram a desvalorizar e esvaziar o local. Assim como todas as outras coisas do mundo capitalista, é o interesse econômico que determina a morte ou a sobrevivência de áreas importantes da urbe. Como já disse o poeta, é a força da grana que ergue e destrói coisas belas. No Recife também não foi diferente. E nessa roda-viva o Savoy foi definitivamente tragado, ficando apenas nas lembranças dos saudosistas e historiadores.
Recentemente andou se falando na restauração do local e reabertura do bar. O prédio, que pertencia ao INSS, foi vendido e os novos compradores fizeram o anúncio que até hoje não se concretizou.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A Frevioca




A Frevioca em três momentos

A FREVIOCA

Pesquisa de textos de Clóvis Campêlo

Segundo o site da Prefeitura da Cidade do Recife: "Criada no ano de 1980, a Frevioca foi um dos primeiros projetos da Fundação de Cultura Cidade do Recife. Montada na carroceria de uma caminhonete pelos cenógrafos do Teatro de Santa Isabel, Jair Miranda e Mestre Zezinho, e a equipe de carpintaria da época, coube à Frevioca a importante missão de resgatar o carnaval de participação do centro do Recife. As orquestras eram poucas para atender toda a programação e a Frevioca se mostrou eficaz e animou durante anos o carnaval no coração da cidade, arrastando verdadeiras multidões. No ano de 1984 o equipamento foi adaptado, adquirindo as características de bondinho. Nos anos 1990, com a expansão do Carnaval de Rua no Recife, é construída a Frevioca II. Esta contou com a montagem do diretor teatral José Pimentel sob a supervisão do então diretor-executivo da Fundação de Cultura Cidade do Recife, Leonardo Dantas da Silva. Mais de uma década após sua criação as Freviocas, consideradas então equipamentos emblemáticos para a cidade, passaram a integrar programações diversas ao longo do ano, como o São João, natal, datas cívicas. Em 30 de junho de 2010 o vereador Estefano Menudo apresenta à Câmara Municipal do Recife um projeto de lei que concede às Freviocas I e II o título de Patrimônio Artístico e Cultural do Recife, aprovado por unanimidade entre os parlamentares".
A historiadora Maria do Carmo Andrade, em texto publicado no site da Fundaj, diz o seguinte:"A Frevioca, uma espécie de trio elétrico do Carnaval do Recife, foi criada em 1979, estreando pelas ruas do centro da cidade no carnaval de 1980. Seu idealizador, o jornalista e escritor Leonardo Dantas Silva, então recém-nomeado como o primeiro presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, tinha por objetivo reviver os velhos carnavais de rua do Recife, proporcionando a presença de uma orquestra para animar os desfiles das agremiações, já que poucas dispunham de condições financeiras para isso. A primeira Frevioca era um antigo caminhão decorado, com amplificadores de som e uma orquestra composta por 32 músicos, sob a regência do maestro Ademir Araújo e o cantor Claudionor Germano. Depois, passou a ser conduzida por uma carroceria de ônibus e posteriormente por uma de bonde, marca registrada como um importante meio de transporte na paisagem do Recife antigo".
O site Dicionário Informal assim a define: "É um transporte feito especialmente para o Carnaval, e, que carrega uma orquestra de frevo. A Frevioca, uma espécie de trio elétrico do Carnaval do Recife, foi criada em 1979, estreando pelas ruas do centro da cidade no carnaval de 1980".
O pesquisador Fernando Machado, no seu blog, afirma: "O historiador Pereira da Costa define Frevioca, como: pândega, folia, divertimento; club, troça, cordão carnavalesco: “essa bem feita frevioca dos Carregadores de Piano prepara-se cada vez mais para os dias de carnaval” (Jornal do Recife n.º 50 de 1914). Já Leonardo Silva complementa: “A Frevioca é uma orquestra volante de ritmos carnavalescos que veio a se tornar o mais importante veículo de animação das ruas do Recife durante o carnaval”. O novo must do Carnaval do Recife, arrasava, pelas ruas do Recife, com seus 32 músicos, sob a regência do maestro Ademir Araújo, puxada pelo cantor Claudionor Germano".
Acreditamos que com a criação da Frevioca o carnaval de rua do Recife e o frevo, que durante um certo tempo andaram claudicante e perdendo espaço para os chamados ritmos baianos, ganharam condições de competir com a forte influencia dos trios elétricos baianos. Tirou as orquestras de frevo do chão, onde o alcance das suas músicas era muito limitado, e, amplificando o seu som, colocou-as em condições de igualdade com a invenção baiana. Desse modo, as orquestras recifenses, sem alterar o seu produto musical mais autêntico, ficaram em condições de arrastar verdadeiras multidões pelas ruas da cidade, inicialmente durante o carnaval, e depois, em outras festas como o São João e o Natal.
Assim, entendemos: do mesmo modo que a orquestra do maestro Nélson Ferreira desfilando pelas ruas de Salvador, em 1951, influenciou Dodô e Osmar a criarem a fubica do trio elétrico, a consolidação do trio elétrico nos carnavais do Brasil, estimulou os criadores da Frevioca.
Talvez o carnaval multicultural seja isso aí.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Equívocos


EQUÍVOCOS

"Equívocos são como peidos: às vezes cheiram mal e cada um que aguente os seus!"

Renato Boca-de-Caçapa, o filósofo do povo

domingo, 31 de dezembro de 2017

O Cinema São Luiz



O CINEMA SÃO LUIZ

Pesquisa de textos de Clóvis Campêlo

Situado no bairro da Boa Vista, no centro do Recife, com a ajuda do Governo do Estado de Pernambuco, é hoje um dos últimos cinemas de rua ainda em atividade na cidade.
Sobre ele, assim se expressa o site Cultura-PE: “Inaugurado no dia 6 de setembro de 1952 e situado às margens do Rio Capibaribe e na cabeceira da mais moderna ponte da cidade à época, a Ponte Duarte Coelho, o São Luiz tornou-se um dos mais emblemáticos cinemas do Recife, prezando por essa arte em sua concepção clássica, com exibição em cine-teatro. Hoje o Cinema São Luiz é o de mais rica concepção artística e arquitetônica do Recife e um dos últimos cinemas de rua do país. Em 2008 o prédio foi tombado como monumento histórico pelo Governo do Estado que, por meio da Fundarpe, trouxe de volta ao público o tradicional Cinema São Luiz, revitalizado e sem os vícios da mídia cinematográfica, preservando e difundindo a arte do cinema e contribuindo para o resgate da história da cidade e manutenção de um verdadeiro templo de sua cultura. Em 5 de novembro de 2015, o cinema pernambucano inaugurou seu novo projetor digital Barco 23B 4K, com capacidade de projetar filmes em 3D. O São Luiz agora também conta com um servidor digital e novos processadores e amplificadores de som para o formato Dolby 7.1”.
Sobre o cinema e os seus painéis, criados pelo artista pernambucano Lula Cardoso Ayres, assim se expressa o site da Universidade Católica de Pernambuco: “O artista, também conhecido como Lula Cardoso Ayres, fez parte da equipe original de engenheiros, artistas e decoradores que projetaram o Cinema São Luiz, juntamente com: Américo Rodrigues Campello, Maurício Coutinho, Oscar Dubeux Pinto e Pedro Correia de Araújo. Lula ficou encarregado de cuidar da decoração e programação visual do hall de entrada do cinema. Filho do artista, engenheiro pernambucano e curador do Instituto Lula Cardoso Ayres, Luiz Cardoso Ayres Filho vem de uma família que teve um importantíssimo papel na construção do Cinema São Luiz. Maurício Coutinho, tio de Luiz Cardoso Filho, foi um dos engenheiros que projetaram o cinema e, juntamente com Luiz Cardoso Ayres, era muito ligado à família Severiano Ribeiro, que era proprietária do São Luiz. Nessa relação de família e amizade, Cardoso Ayres foi chamado para pintar um mural decorativo para o salão principal do cinema. Essa pintura, produzida em 1952 e finalizada em 1954, sendo restaurada em 1983 e preservada desde então, continua chamando atenção do público que entra no São Luiz devido às suas cores fortes e figuras que remetem-se às manifestações culturais do Recife. Lula Cardoso Ayres não só deu ao Cinema São Luiz um belo mural para a decoração, mas uma identidade visual ao cinema que marca a perfeita união entre o clássico e o moderno. Sua obra permanece imortalizada no último cinema de rua da cidade do Recife”.
Para finalizar, transcrevemos o texto publicado pelo site Roteiros PE sobre o cinema: “Situado no cartão postal do Recife, em plena Rua da Aurora e margeado pelo Rio Capibaribe, o Cinema São Luiz foi inaugurado no ano de 1952 e tornou-se o símbolo da era dos cinemas de bairro da capital pernambucana. Construído dentro do Edifício Duarte Coelho numa época de expansão urbana da capital pernambucana, ele ocupa os quatro primeiros pavimentos do prédio de 14 andares. À época de sua inauguração, o são Luiz contava com 1.340 assentos de madeira, revestidas de estofado vermelho. Atualmente a sala passou por um trabalho de restauração e em nome de uma maior acessibilidade reduziu o número de poltronas para 800 lugares. Sua arquitetura possui tons arte decor e remete à estrutura grandiosa dos cinemas-teatro, com um painel do artista plástico Lula Cardoso Ayres logo na sala de espera, após a entrada. Ao adentrar a sala de exibição, o espectador é presenteado com vitrais laterais que ladeiam a tela, da artista e vitralista pernambucana Aurora de Lima, aluna do artista alemão Heinrich Moser. O São Luiz é um dos poucos cinemas no mundo a ter vitrais dentro de sua sala de exibição. O ambiente tem no seu projeto a participação de profissionais como Américo Rodrigues Campello, Maurício Coutinho, Pedro Correia de Araújo e Oscar Dubeux Neto. A decoração da plateia foi pensada para fazer com que o espectador se sinta dentro de uma imensa tenda real, através de grandes tapeçarias suspensas, que se cruzam no teto. Este material recebeu o bordado dos três lírios de França, fazendo referência ao Rei da França Luis IX. Além dos lírios, 16 escudos de guerra em referência às cruzadas. Completando o interior, piso de mármore branco, revestimento de paredes em folheado de madeira de jatobá, e luminárias em bronze. Após um período de restauração, o São Luiz foi devolvido aos recifenses com toda a sua beleza, modernizando somente a sua imagem e seu som".

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O Saci Pererê


O SACI PERERÊ

Clóvis Campêlo

O Dia do Saci Pererê foi instituído nacionalmente em 2003, através de um projeto de lei elaborado pelo deputado federal Chico Alencar do PSOL do Rio de Janeiro. O objetivo seria resgatar figuras do foclore brasileiro em contraposição ao Dia das Bruxas (Halloween, de tradição celta), entre nós introduzido como mais uma faceta do colonialismo cultural a que estamos expostos desde a mais tenra idade.
Engana-se, porém, quem pensa que o Matita Perê nasceu isento de influências alienígenas. Figura bastante conhecida do folclore brasileiro, supõe-se que o saci surgiu entre os indígenas da Região das Missões, no sul do país, de onde se espalhou para todo o país. Vejamos o que diz a nossa querida Wikipédia: “Na Região Norte do Brasil, a mitologia africana o transformou em um negrinho que perdeu uma perna lutando capoeira, imagem que prevalece nos dias de hoje. Herdou também, da cultura africana, o pito, uma espécie de cachimbo e, da mitologia europeia, herdou o píleo, um gorrinho vermelho usado pelo lendário trasgo. Trasgo é um ser encantado do folclore do norte de Portugal, especialmente da região de Trás-os-Montes. Rebeldes, de pequena estatura, os trasgos usam gorros vermelhos e possuem poderes sobrenaturais”. Portando, os xenófobos que o desculpem.
Na literatura brasileira, foi Monteiro Lobato o primeiro escritor a se interessar pela figura do Saci Pererê. Em 1917, pesquisou sobre a figurinha entre os leitores do jornal O Estado de São Paulo, colhendo diversas histórias que narravam as estrepolias do pequeno ente, sempre brincalhão e travesso. No ano seguinte, sob o título de O Saci Pererê: resultado de um inquérito, publicou o seu primeiro livro. Mais tarde, em 1921, no livro O Saci, voltou a escrever sobre a figura em um livro dedicado à literatura infantil. E na coleção sobre o Sítio do Picapau Amarelo, O Saci de Lobato foi efetivado como personagem constante, embora secundário.
Em 1958, Ziraldo criou a Turma do Pererê, sob a forma de estórias em quadrinhos, lançada primeiramente em cartuns, no ano seguinte, nas páginas da revista O Cruzeiro. No ano seguinte, seria lançada a revista, a primeira revista brasileira em quadrinhos totalmente colorida. A revista circulou de 1960 a 1964, quando foi banida das bancas ao lado de outras revistas, por determinação da ditadura militar. Ainda chegou a ter 43 edições e uma tiragem média de 120 mil exemplares. O Saci Pererê era o personagem principal, ao lado de vários outros habitantes da Mata do Fundão, como Tininin, Galileu, Geraldinho, Moacir, Alan, Pedro Vieira e vários outros.
Em 1975, e Editora Abril relançou a revista sem êxito, alcançando apenas 10 edições.
Em 1983, o folclórico personagem chegou às telas das televisões brasileiras, em programa apresentado por vários anos na Rede Globo, embora produzido pela TVE Brasil em parceria com o próprio Ziraldo, tomando como base as histórias de Monteiro Lobato e com trilha sonora composta e produzida por nomes consagrados da música popular brasileira. Era a consagração definitiva.
Para finalizar, no site Geledés, do Instituto da Mulher Negra, encontramos dez curiosidades sobre a figura/lenda do Saci Pererê, que abaixo reproduzimos. Algumas confirmam o que foi dito acima, outras questionam e outras ainda trazem informações novas. Veja:
A lenda do saci foi inicialmente criada por índios do Sul do Brasil. Na versão tupi-guarani, um indiozinho de cabelos vermelhos teria o poder de ficar invisível e confundir os caçadores. Seu nome era Caa Cy Perereg.Os escravos se apropriaram da história e o saci se tornou negro e com um cachimbo na boca. O seu gorrinho é um elemento da cultura europeia, já que foi inspirado nas toucas romanas (os piléis). Conta a lenda que o saci se torna submisso àquele que rouba sua carapuça.
Um dos hábitos do saci é pedir fogo aos viajantes para acender seu pito. Dizem que ele tem até uma das mãos furadas de tanto carregar as brasas do cachimbo.
Afinal: qual perna falta no saci? Na dúvida entre a direita ou a esquerda, muitos afirmam que ele tem uma perna centralizada, apoiada em dedos laterais mais desenvolvidos.
Os “causos” populares contam que dentro de cada redemoinho de vento existe um saci e, para capturá-lo, é preciso ter paciência e um pouco de sorte. Primeiro, a pessoa deve se posicionar lentamente perto dele e jogar uma peneira. Depois, com cuidado, ela deve colocar uma garrafa vazia de cachaça lá dentro e esperar que o saci-pererê entre nela. Na hora de fechar, é bom não esquecer de desenhar uma pequena cruz na rolha.
O dia 31 de outubro já é considerado o Dia do Saci na cidade de São Paulo. A data é uma proposta nacionalista feita pelo presidente da Câmara, Aldo Rebelo, em 2004, para preencher o lugar do Halloween (dia das bruxas americano).
O saci-pererê é a mascote oficial do Sport Club Internacional de Porto Alegre. A figura foi criada na década de 50 por cartunistas dos jornais “Folha Desportiva” e “A Hora”. No começo, era apenas um garotinho negro. Depois, se transformou no Saci.
Quem primeiro retratou o saci-pererê em histórias infantis foi Monteiro Lobato, na série de livros Sítio do Pica-pau Amarelo. Foi desse jeito que a lenda se espalhou pelo Brasil. Depois disso, apareceu em seriados na TV e nas histórias em quadrinhos da Turma da Mônica.
O saci-pererê é considerado um símbolo nacional, pois congrega as três raças que compõem o povo brasileiro (branco, negro e índio).
Segundo a lenda, os sacis vivem exatos 77 anos. Eles são geridos pelos gomos do bambu. Quando morrem, se transformam em cogumelos venenosos.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A morte de Patativa do Assaré e seu último poema


A MORTE DE PATATIVA DO ASSARÉ E SEU ÚLTIMO POEMA

Pesquisa de textos de Clóvis Campêlo

O poeta Patativa do Assaré morreu aos 93 anos de idade, no dia 8 de julho de 2002, na mesma cidade onde nasceu. Sobre o seu falecimento, assim se expressou o site Clique Music: "Faleceu ontem o poeta e compositor Patativa do Assaré, aos 93 anos, na cidade cearense da qual tomou o nome emprestado. Antônio Gonçalves da Silva foi aclamado ao longo do século XX como um dos mais importantes poetas populares do Brasil, tendo influenciado especialmente a música nordestina. Luiz Gonzaga ajudou a difundir a arte de Patativa interpretando músicas suas como A Triste Partida e Vaca Estrela e Boi Fubá; seus versos foram cantados também por artistas como Renato Teixeira, Fagner e Rolando Boldrin. O poeta sucumbiu a uma pneumonia e já vinha há dois anos com problemas de saúde".
Sobre ele, assim se pronunciou a Wikipédia: "Uma das principais figuras da música nordestina do século XX. Segundo filho de uma família pobre que vivia da agricultura de subsistência, cedo ficou cego do olho direito por causa de uma doença. Com a morte de seu pai, quando tinha oito anos de idade, passou a ajudar sua família no cultivo das terras. Aos doze anos, frequentava a escola local, em qual foi alfabetizado, por apenas alguns meses. A partir dessa época, começou a fazer repentes e a se apresentar em festas e ocasiões importantes. Por volta dos vinte anos recebeu o pseudônimo de Patativa, por ser sua poesia comparável à beleza do canto dessa ave".
Em julho deste ano, ao completar quinze anos da sua morte, a Rádio Câmara, em Brasília, publicou a seguinte nota, mostrando que mesmo na atualidade a sua poesia ainda influencia grupos e compositores atuais: "Antônio Gonçalves da Silva foi um poeta popular que morreu em 2002. Semialfabetizado, aos 12 anos começou a fazer repentes e aos vinte anos de idade recebeu o apelido de Patativa do Assaré, um elogio à sua poesia, que seria comparável à beleza do canto dessa ave. O cidadão cearense nos deixou aos 93 anos de idade. Patativa ainda influencia a arte feita hoje, o grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado, bebe na fonte do poeta para compor suas letras".
O site Mundo Educação assim o definiu: "O nome dele é Patativa do Assaré, mas você pode chamá-lo também de “porta-voz do sertão”. Patativa, homem simples, mas de grande sabedoria e inteligência linguística, é um daqueles casos em que a poesia se mistura e se confunde com a vida de quem a escreve, por isso, conhecer a história do escritor é essencial para compreender sua poética. Longe do cânone literário e distante daquilo que se convencionou chamar de “a grande literatura” (afinal, o que é literatura?), Patativa do Assaré mostra que é preciso dessacralizar a arte, sobretudo a literária, e trazê-la para perto do povo. Inspiração Nordestina, seu primeiro livro, foi publicado em 1956 e, em 1967, ganhou uma segunda edição, renomeada para Cantos do Patativa. Em 1970, foi lançada uma nova coletânea de poemas, Patativa do Assaré: novos poemas comentados e, em 1978, foi lançado Cante lá que eu canto cá. Em 1988, o público foi agraciado com o livro Ispinho e, em 1994, Fulô e Aqui tem coisa. A poesia de Patativa inspirou não apenas escritores, mas também músicos, sobretudo os cantadores do nordeste, contribuindo assim imensamente para a música popular brasileira. A característica principal de seu trabalho é a oralidade: o poeta transferia a palavra para o papel tal qual ela era falada pelo homem simples. Por esse motivo, seus poemas, feitos para serem recitados, perdem em significação e expressividade quando expressos por meios não verbais".
No site Teatro do Pé, o próprio Patativa do Assaré se autodefine e fala um pouco de si mesmo: "Eu, Antônio Gonçalves da Silva, filho de Pedro Gonçalves da Silva, e de Maria Pereira da Silva, nasci aqui, no Sí­tio denominado Serra de Santana, que dista três léguas da cidade de Assaré. Meu pai, agricultor muito pobre, era possuidor de uma pequena parte de terra, a qual depois de sua morte, foi dividida entre cinco filhos que ficaram, quatro homens e uma mulher. Eu sou o segundo filho. De treze a quatorze anos comecei a fazer versinhos que serviam de graça para os serranos, pois o sentido de tais versos era o seguinte: Brincadeiras de noite de São João, testamento do Juda, ataque aos preguiçosos, que deixavam o mato estragar os plantios das roças, etc. Com 16 anos de idade, comprei uma viola e comecei a cantar de improviso, pois naquele tempo eu já improvisava, glosando os motes que os interessados me apresentavam. Nasci a 5 de março de 1909. Perdi a vista direita, no perí­odo da dentição, em conseqüência da moléstia vulgarmente conhecida por dor-d’olhos. Desde que comecei a trabalhar na agricultura, até hoje, nunca passei um ano sem botar a minha roçazinha, só não plantei roça, no ano em que fui ao Pará".
Do poeta cearense sempre nos chamou a atenção o poema Desilusão, onde pressentindo o final da vida, mostra-se incrédulo e sem mais esperanças. Nele, o poeta mostra-se mais caprichoso na linguagem, obedecendo a métrica do soneto e conformado com o momento final do seu encantamento.

DESILUSÃO

Como a folha no vento pelo espaço
Eu sinto o coração aqui no peito,
De ilusão e de sonho já desfeito,
A bater e a pulsar com embaraço.

Se é de dia, vou indo passo a passo
Se é de noite, me estendo sobre o leito,
Para o mal incurável não há jeito,
É sem cura que eu vejo o meu fracasso.

Do parnaso não vejo o belo monte,
Minha estrela brilhante no horizonte
Me negou o seu raio de esperança,

Tudo triste em meu ser se manifesta,
Nesta vida cansada só me resta
As saudades do tempo de criança.

Patativa do Assaré

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O Mercado da Madalena





O MERCADO DA MADALENA

Pesquisa de textos e fotografias de Clóvis Campêlo 


Segundo o site da Prefeitura da Cidade do Recife, "o Bairro da Madalena é local de grande importância histórica. Foi rentável zona açucareira do Recife antigo. A construção do mercado teve início em 6 de fevereiro de 1925, e a inauguração se deu no mesmo ano. No local, se reunía um aglomerado de feirantes, que ali vendiam frutas e verduras, sem qualquer interferência por parte da Prefeitura. Funcionava à noite e, por isso, recebeu o nome de Mercado do Bacurau. O horário noturno atraía, além de comerciantes, boêmios, que buscavam um local vivo nas noites provincianas do Recife. Nos fins de semana, o movimento era mais intenso durante o dia, com destaque para o comércio de comidas típicas: mungunzá, tapioca, cuscuz com café, e o saboroso sarapatel de Manoel Mendes.Hoje, são 180 compartimentos, que oferecem alimentos variados: frutas, verduras, legumes, cereais, carnes e peixe. A parte onde funciona a administração conserva a estrutura original. Alterou-se, apenas, a parte térrea, onde funcionavam os sanitários e o depósito".
Já o pesquisador Flávio Guerra, no seu livro Velha igrejas e subúrbios históricas,  de 1978, diz o seguinte sobre o bairro da Madalena: "O importante bairro da Madalena, hoje uma aprazível área residencial, já quase dentro da própria zona urbana da cidade, que se expande cada vez mais, podendo-se, por isso, talvez, considerá-lo um bairro, é incontestavelmente um dos mais nobres e poéticos trechos do velho Recife". E citando Mário Sete: "Madalena, austera e nobre, possuindo para morar uma porção de solares imponentes, de frente e terraços para orio, vive dentro de si mesmo, aguentando o declínio sem gemer, sonhando com o seu grande passado, o seu fulgurante enlêvo de outrora".
Por seu lado, o historiador Carlos Bezerra Cavalcanti, no livro O Recife e seus bairros, de 1998, afirma: "Dona Madalena Gonsalves deu seu nome ao engenho que, segundo Pereira da Costa, campeava no largo, hoje denominado Praça João Alfredo". E complementa: "Esse bairro conservou, através dos tempos, sua condição aristocrática, nele residindo até 1841, o futuro Conde da Boa Vista, Francisco do Rêgo Barros, um dos mais brilhantes Presidentes da Província de Pernambuco. Nele também, mais precisamente num casarão da Rua Benfica, hospedou-se em 1859, Sua Majestade Imperial, Teresa Cristina, que acompanhou o marido D. Pedro II em sua visita a nossa Capital".
Ainda segundo Carlos Bezerra Cavalcanti no livro acima citado, o mercado foi inaugurado no dia 19 de outubro de 1925, pelo governador Sérgio Loreto. Ainda segundo Bezerra, em 1982, o historiador Vanildo Bezerra Cavalcanti descobriu no frontispício do mercado um escudo descaracterizado que se tratava do Brasão da cidade do Recife, que hoje, devidamente restaurado, pode ser visto na fachada do prédio.
O pesquisador João Braga, no livro Trilhas do Recife - Guia Turístico, Histórico e Cultural, afirma que o mercado foi inaugurado na gestão do prefeito Antônio de Góes Cavalcanti. Afirma ainda que o mercado recebeu o nome de Bacurau, numa referência ao pássaro madrugador, porque funcionava no horário noturno.
Para finalizar, a Wikipédia diz o seguinte: "O mercado tem sua importância na cultura e na gastronomia pernambucanas. Em sua parte externa há uma praça de alimentação, funcionando as 24 horas do dia, com comidas típicas regionais.
Anexa ao mercado, é muito conhecida a feira de passarinhos. Devido à abrangência econômica da cidade do Recife, pessoas de diversas regiões do Nordeste se alojam na cidade em busca de oportunidades, e o mercado é um ponto de encontro dos matutos na cidade, principalmente aos sábados ao redor do Box Sertanejo".


sábado, 16 de dezembro de 2017

É "fake", mas eu gosto!

 Os chineses de Dafen

Eu e a minha réplica de Wellington Virgolino

É "FAKE", MAS EU GOSTO!

Clóvis Campêlo

Para mim, a originalidade é uma invenção burguesa. Antes, aprendia-se imitando, copiando e superando os mestres. Era a mimeses, que tanto Platão quanto Aristóteles se preocuparam em valorizar e explicar.
Por isso, aceitei de bom grado o quadro acima. Por isso, admiro os chineses de Sheenzen, cidade situada na região sul da China, especialista em copiar os grandes mestre da pintura ocidental, especialmente Monet e Van Gogh.
Segundo matéria da jornalista Úrsula Passos, publicada no jornal Folha de São Paulo, em 11/01/2015, estima-se que os camaradas chineses de Dafen, bairro da cidade onde estão situados os ateliês dos copiadores, seja responsável por 60% das falsificações feitas em todo o mundo. Não é mole.
Ainda segundo Passos, pode-se comprar as cópias chinesas até por via on-line em galerias que entregam encomendas em diversos países do mundo. Uma réplica dos girassóis de Van Gogh, por exemplo, pode sair em torno de R$ 135,00, em valores daquela época.
Aqui no Recife, lembro de Tércio, pintor que ficava na Rua Nova, por traz da Igreja Matriz de Santo Antônio e que copiava qualquer pintura ou fotografia que lhe fosse entregue. Faz algum tempo, encomendei-lhe a reprodução em óleo de uma fotografia do meu filho Gabriel, feita por mim quando ele ainda era menino. O quadro, se não perfeito, ficou muito bom e me custou um preço razoavelmente barato. Ainda hoje, está colocado na parede da sua sala, presente que lhe dei.
Outro dia, procurei por Tércio e soube que havia ido embora para São Paulo, onde o mercado é mais promissor, depois de ter sido vítima do golpe da "Boa noite, Cinderela" aplicado por uma mulher com a qual estava se envolvendo sentimentalmente. Ela, levou-lhe o dinheiro, uma boa parte do material de trabalho e a vontade de continuar no Recife. Uma pena para mim que, seduzido por seu trabalho e pelo preço acessível, queria mais.
O quadro acima, foi um presente dado por minha irmã. É a réplica de um trabalho do Wellington Virgolino, pintor pernambucano falecido em 1988. Segundo a Wikipédia, "autodidata e observador voraz do cotidiano, Welington Virgolino ficou conhecido pela pintura de dimensões estilizadas, apresentando certas deformações nos corpos das figuras humanas e dos elementos que compunham a tela. Autor denominado de "modernista/figurativo", retratava gente do povo, operários de construção e as expressões do sentimento de cada personagem. Mostrando as frustrações e os sofrimentos da vida precária do trabalhador brasileiro, eternizado em personagens como "Os calceteiros", "Calungas de Caminhão" e "Operários". Assim como não deixou de registrar as invenções e reinvenções da infância, ainda com ênfase em seus questionamentos sociais, através de suas crianças".
Para mim, suas figuras gorduchas diferem do colombiano Botero, por não estarem isoladas, interagindo com outros personagens e com o contexto onde se situam.
Um grato presente que hoje ilustra a sala de estar do meu apartamento. Não é um original, é "fake" mas eu gosto.

Recife, 16/12/2017


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Abelardo da Hora

Auto-retrato


ABELARDO DA HORA

Clóvis Campêlo

São muitas as histórias sobre Abelardo da Hora. Uma delas, a mim foi contada pelo jornalista Ronildo Maia Leite, em 1991, quando o fotografei no seu apartamento, na Rua Maestro Nelson Ferreira, na praia da Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. Contou Ronildo que em plena ditadura militar, Abelardo da Hora pendurava-se de cabeça para baixo na ponte Duarte Coelho, segurado pelos companheiros militantes, para pintar no parapeito da ponte a palavra liberdade. Isso hoje, pode parecer bobagem, mas naquele tempo exigia coragem e convicção política.
Umas outras histórias sobre Abelardo, eu li no livro Dicionário Amoroso do Recife, do escritor Urariano Mota. No livro, Abelardo é o verbete que o abre. A primeira, refere-se ainda aos tempos sinistros da ditadura, quando todo o Comitê Estadual do Partido Comunista, do qual o escultor fazia parte, foi assassinado. Apenas Abelardo escapou, por ser casado com a irmã de Augusto Lucena, então prefeito biônico do Recife e homem de confiança dos militares golpistas. A segunda história, mais amena e mais engraçada, embora de resultado desfavorável para o artista, deu-se na casa do empresário Ricardo Brennand, onde Abelardo, ainda adolescente, trabalhava e vivia. Todos os dias, pela manhã, deparava-se com as filhas do mecenas saindo para a escola. Impressionado com a beleza de uma delas, fez uma escultura, por ele mesmo chamada de A torre dos meus sonhos, onde dois cupidos brincavam com os cabelos de uma jovem em pé, enquanto um rapaz com a sua fisionomia abraçava-se às pernas da moça. O velho Brennand não gostou da ousadia e, por conta disso, Abelardo da Hora terminou por deixar a casa do empresário.
As mulheres, inclusive, sempre foram um tema predominante na arte do artista plástico. Basta observar nos prédios residenciais do Recife a quantidade de figuras femininas esculpidas pela arte de Abelardo.
Apenas uma vez fotografei mestre Abelardo. A fotografia foi feita em 1992, no Museu da Imagem e do Som de Pernambuco, na época dirigido por Celso Marconi, um marxista devoto de Nossa Senhora da Conceição. Infelizmente, a única fotografia de Abelardo da Hora feita por mim se extraviou. Este texto foi por nós pensado exatamente para dilvulgá-la. Confesso que estou pagando por minha falta de organização.
Durante anos passei diariamente na porta da casa de Abelardo, na Rua do Sossego, e, apesar da sua acessibilidade, nunca tive coragem de incomodá-lo no recesso do lar para tentar fotografá-lo.
Alguns anos antes do seu falecimento, quando lhe prestaram uma homenagem no carnaval do Recife, cruzei com ele no Galo da Madrugada. Estava eufórico e animado e essa foi mais uma boa oportunidade por mim perdida.
Abelardo da Hora nasceu na cidade pernambucana de São Lourenço da Mata, em 31 de julho de 1924, e faleceu no Recife, em 23 de setembro de 2014.
Sobre a sua obra, assim se coloca a Wikipédia: “A maneira de Abelardo da Hora se expressar através da escultura é única e forte. Não é superficial nem interessada em ser fácil para o mercado absorver. Na escultura, como nos desenhos, há nitidamente três vertentes que podem ser facilmente identificadas: a preocupação de sempre alertar para o descaso com relação aos menos favorecidos. São desenhos e esculturas denunciadoras de um estado de coisas insuportável, tal a miséria em que vive grande parte da população; o elogio da força e riqueza dos que se reúnem em maracatus, bumbas-meu-boi, frevos, etc., que nascem no interior nordestino e vêm para as cidades grandes mostrando ritmo, cores, organização. Fantasias ricas que encantam os centros urbanos. O artista traduz isso em desenhos extraordinários e, o que é mais difícil, transpõe para esculturas de concreto; a grande riqueza do planeta resumida num flagrante exemplo através do corpo feminino. Não é apenas a mulher que está viva, mas suas esculturas. É toda a natureza que explode no artista”.
Como artista militante, participou ainda nos anos 60 do memorável Movimento de Cultura Popular (MCP), criado quando da gestão de Miguel Arraes de Alencar como prefeito do Recife. Segundo texto de Lúcia Gaspar, publicado no site da Fundaj: “O Movimento de Cultura Popular do Recife foi extinto com o golpe militar, em março de 1964. Dois tanques de guerra foram estacionados no gramado da sua sede, no Sítio da Trindade. Toda a documentação do Movimento foi queimada, obras de artes destruídas e os profissionais envolvidos foram perseguidos e afastados dos seus cargos”.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Parabéns, presidente!


PARABÉNS, PRESIDENTE!

Clóvis Campêlo



Talvez o grande erro de Lula e do Partido dos Trabalhadores tenha sido apostar em um acordo com bandidos e larápios tradicionais da política brasileira em nome da chamada governabilidade. Foi aí que o PT perdeu o rumo e se deixou contaminar. Infelizmente.

Mas, natural da cidade de Caetés, onde veio ao mundo em 27 de outubro de 1945, “foi o único presidente do Brasil nascido em Pernambuco. Bateu um recorde histórico de popularidade durante seu mandato, conforme medido pelo Datafolha. Programas sociais como o Bolsa Família e Fome Zero são marcas de seu governo, ambos reconhecidos pela Organização das Nações Unidas como os programas que possibilitaram a saída do país do mapa da fome. Lula teve um papel de destaque na evolução recente das relações internacionais, incluindo o programa nuclear do Irã e a questão do aquecimento global”.

Na época do seu nascimento, Caetés era apenas um distrito da cidade de Garanhuns, situada no agreste meridional de Pernambuco. A cidade de Caetés surgiu de um povoado fundado por Miguel Quirino dos Santos. Até 1918 a localidade chamava-se "São Caetano". O topônimo mudou para Caetés por influência do jornalista, historiador e publicista da língua tupi, Mário Melo. Segundo este historiador, caetés é uma corruptela de caá-etê, significando "mato real ou verdadeiro, mata virgem". Emancipou-se como município em 13 de dezembro de 1963, desmembrando-se do município de Garanhuns.

Antes, em em 1952, com apenas sete anos de idade, Lula acompanhou a mãe e os irmãos numa viagem para São Paulo, em busca do próprio pai. Saiu de Caetés em um caminhão pau-de-arara. Em São Paulo chegou, viu e venceu. De engraxate a vendedor de jornais, torneiro-mecânico, líder sindical, deputado federal e presidente da República, numa trajetória vitoriosa.
Apesar da sua derrota para Fernando Collor de Melo em 1989, na eleição presidencial, Lula manteve sólida liderança no PT, bem como prestígio internacional, como no destaque obtido quando da fundação do Foro de São Paulo, em São Bernardo do Campo, em 1990. Tratava-se de um encontro periódico de lideranças partidárias que visava congregar e reorganizar as esquerdas latino americanas, que estavam politicamente desorganizadas com a expansão do neoliberalismo após a queda do muro de Berlim. Em setembro de 1993 estava percorrendo os Estados da Amazônia em campanha para a eleição presidencial de 1994. Em Ariquemes (RO), Lula disse: “Há no congresso uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns trezentos picaretas que defendem apenas seus próprios interesses”.
Em 27 de outubro de 2002, Lula foi eleito presidente do Brasil, derrotando o candidato apoiado pela situação, o ex-ministro da Saúde e então senador pelo Estado de São Paulo José Serra do PSDB. No seu discurso de diplomação, Lula afirmou: "E eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República do meu país."
Em 29 de outubro de 2006, Lula é reeleito no segundo turno, vencendo o ex-governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin do PSDB, com mais de 60% dos votos válidos. Após esta eleição, Lula divulgou sua intenção de fazer um governo de coalizão, ampliando assim sua fraca base aliada. O PMDB passa a integrar a estrutura ministerial do governo.
Pela primeira vez na história desse país, tomamos rumos diferentes e respiramos uma certa ilusão de protagonismo. No entanto, enquanto país estratégico no contexto mundial atual, por conta das suas riquezas e possibilidades, fomos vítimas de um novo golpe urdido provavelmente nos porões da CIA, conforme sempre afirmou o jornalista Paulo Henrique Amorim.
Os golpistas rapidamente redirecionaram o país para a subserviência e entreguismo, modificando regras de relações trabalhistas, sempre privilegiando a o capital em detrimento dos trabalhadores em geral.
Lula sempre despertou sentimentos antagônicos em relação à sua figura e isso nem Freud explica. Por causa da admiração que lhe tenho cheguei a romper com vários amigos menores que nunca souberam respeitar a diversidade de pensamentos e credos políticos. Melhor assim. Antes que só que mal acompanhado.
Parabéns, presidente! E vida longa para você.

Fonte: Wikipédia

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Quando o vermelho entra em cena







QUANDO O VERMELHO ENTRA EM CENA
Recife, agosto 2017
Fotografias de Clóvis Campêlo

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Um prefácio e seis contos

UM PREFÁCIO E SEIS CONTOS


Clóvis Campêlo

Não há a menor dúvida, amigos, de que existe um acordo tácito e implícito entre o prefaciador e o prefaciado. Tanto quanto os atributos dos textos analisados, sempre busca o primeiro retribuir ao segundo, de forma positiva, a gentileza do convite e da confiança depositada. E aí é que a vaca torce o rabo: não sendo o analisado dotado de grande capacidade literária e imaginativa, sobrará ao prefaciador o esforço hercúleo de juntar os cacos das mal traçadas linhas e estabelecer uma colagem razoável e digna.
No entanto, sendo o escritor dotado de boa capacidade literária e dominador das técnicas narrativas, torna-se agradável e pertinente, ao prefaciador, criar o seu texto apresentativo e paralelo, sem medo nenhum de ser feliz. De uma forma ou de outra, escrever prefácios é construir linhas de cumplicidades e parcerias.
No caso de Marcos Godoy, que além de amigo, colega de trabalho e companheiro de literatura, é um escritor competente e já reconhecido na sua labuta de escreviver, a tarefa a nós imposta, apesar da imensa responsabilidade, tornou-se muito mais um prazer do que uma obrigação. Não há como negar a sua competência na construção textual e narrativa.
No conto chamado de A confissão, mas que bem poderia ser chamado de A vingança, já podemos observar as opções técnicas por ele escolhidas para definir as bases do seu texto. Narrado na primeira pessoa, mostra-nos o que alguns estudiosos do assunto chamam de narrador autodiegético, personagem principal e que relata as suas experiências pessoais. A predominância da descrição em muitos momentos das histórias, como o fizeram todos os grandes autores do Realismo, leva-nos a entender a preocupação de Godoy com a verossimilhança. Sendo os contos narrados o resultado das histórias que escutava do seu pai, segundo o que o próprio autor nos revelou, nada mais justo do que preocupar-se com a contextualização e com a sua inserção em ambientes reais. O conto, aliás, que bem poderia ter acontecido em Serra Talhada, cidade natal do autor, situada a 415 quilômetros do Recife e uma das mais importantes do sertão pernambucano, conta a história da peça pregada pelo autor em Zé das Cabritas, sertanejo esperto mas crédulo na sua fé religiosa, obrigando-o a pagar uma penitência exagerada em função da sua confissão ao falso padre. Descoberta a farsa, pacientemente, Zé das Cabritas aguardou anos até surgir a oportunidade de dar o troco, fazendo com que o narrador literalmente entrasse numa fria.
No conto O estranho mundo de Doralice, a história começa em media res, com os acontecimento anteriores ao início da narrativa sendo resgatados pela memória do narrador. Esse artifício utilizado faz com que o fatos ocorridos anteriormente ao início da narrativa sejam trazidos ao presente através de flash-backs e analepses, provocando uma mudança no plano temporal. Esse artifício narrativo, aliás, é usado em profusão pelo autor em vários momentos desta e de outras narrativas deste livro. Talvez, numa tentativa de criar um jogo interpretativo com o leitor, quebrando um pouco da sua inércia diante do texto. Nesse sentido, outro recurso também muito utilizado são as digressões. São pequenas histórias, observações ou descrições acrescentadas ao texto principal e que nem sempre tem necessariamente a ver com ele, afastando do leitor a atenção momentânea sobre as ações da história principal.
No caso específico de O estranho mundo de Doralice, serve-nos de exemplo o episódio da anciã octogenária que discute com o dono da padaria por causa de divergências no valor da sua caderneta mensal.
De uma maneira geral, poderíamos considerar ainda o uso pelo autor do discurso direto livre como uma forma de interpor um personagem qualquer entre o narrador e o leitor. Se há algo interessante a ser dito, que o narrador saia de cena e fale o personagem. É a própria Doralice quem se expressa diretamente ao afirmar que precisa dormir para sonhar, para fugir de realidade da sua vida insatisfatória, para criar a utopia que insiste em perseguir e que a faz suportar a desventura da sua vida.
No conto O cangaceiro, ao contrário do que o título poderia supor (mais uma atitude lúdica do autor?), não é o cangaceiro Jesualdo Ibiapino da Silva, o Tenente Atropelo, que figura como protagonista da história. Durante toda a narrativa o anti-herói mantém-se fora da moldura da história, aparecendo apenas no final, envolto numa nuvem de poeira, que o traz à cena e, do mesmo modo, o leva de volta aos bastidores. Só reaparece no final do conto, com a sua morte anunciada numa notícia de jornal. Ele, que durante a vida matara tanta gente com crueldade, morre em consequência de um câncer no pulmão, provocado pelo cigarro que tanto lhe aprazia. Ironicamente, o cigarro e os fósforos que salvaram o personagem Joel, no encontro casual com o cangaceiro, são os elementos responsáveis pela doença causadora da sua morte. Nesse texto, fica latente as situações de “distraimento” do leitor pelas artimanhas narrativas do autor. Aqui, os personagens pouco falam, imperando a voz do narrador. Afinal, não seria de bom tom lhes dar voz e facilitar a leitura e interpretação do texto por parte dos leitores.
No que tange aos cigarros, em um tempo onde verificamos a sua demonização e tentativa de exclusão social, permitindo-me também uma digressão, lembro da história de Clayton, amigo da juventude, que, assim como Joel livrou-se da morte por acender o cigarro do cangaceiro, escapou da morte por sair da parada de ônibus onde se encontrava para comprar cigarros em um fiteiro. A parada ficava em frente a um sobrado antigo que desabou matando as outras pessoas que lá se encontravam. Para Clayton, como não cansava de afirmar, o cigarro salvara a sua vida.
O conto O Advogado Baiano é narrado na terceira pessoa e repete o cenário interiorano referenciado nas histórias anteriores: a mesma calmaria, a mesma arrumação, a mesma praça, os mesmos bancos. As horas passam perceptíveis, realçando a rotina do local. De novidade, apenas o novo coreto a ser inaugurado e o personagem recém-chegado, com ares ilustres de personalidade importante a ser apresentada. Aliás, como que demonstrando antecipadamente que a narrativa se encaminharia para um desfecho hilário e cômico, o narrador chega a compará-lo com o personagem de Clark Gable, no filme Aconteceu Naquela Noite. O final da história, porém, além de completamente inusitado, joga por terra todo o glamour da figura do jovem advogado e mostra com humor até onde pode chegar a ganância e a ambição humana.
O conto A Flor e o Espinho destoa de todos os outros anteriores. Primeiramente, como o diz o próprio narrador, porque aconteceu numa aldeia distante, distante das terras e dos dias de hoje. Ou seja, o tempo da narração é posterior ao tempo da narrativa. Do mesmo muda o cenário do acontecimento narrado. Não mais temos como palco as terras secas e áridas do sertão. Agora, estamos numa floresta úmida e perfumada. No que tange à construção do texto e da história, somem as descrições realistas e, em seu lugar, surgem as metáforas românticas, sugerindo ao leitor que chegara a horas de ser contada uma história de amor. Na verdade, um amor trágico, bem ao sabor dos românticos, destruído pela rigidez das convenções sociais que regiam aquela comunidade e aquele povo.
Narrado na primeira pessoa, Sobre Amores e Amigos é um conto pessoal e introspectivo. O narrador/personagem volta-se para dentro de si e apenas faz referências espaciais externas para se contextualizar. Debruçado sobra a larga janela, observa as pessoas e o mundo sem se deixar contagiar. Uma mulher que passa sob a chuva, vestida como se fosse para a missa, com uma sombrinha chinesa e sapatos de duas cores é uma figura interessante mas sem nenhuma influência no seu conflito interno. Ela a observa, mas logo a esquece.
Duas palavras destacam-se no primeiro parágrafo pela repetição: começo e vazio, que denunciam o imenso sentimento de solidão no qual o narrador/personagem está submerso.
A introspecção do texto reflete diretamente na sua forma narrativa: é a voz do narrador que predomina. O discurso direto livre aparece apenas duas vezes, de forma curta, em telefonemas equivocados que demonstram a sua inutilidade. E é voltando-se para dentro de si mesmo, das suas memórias e conjecturas, que o narrador/personagem irá procurar e reconstituir o seu equilíbrio emocional no aqui e no agora.