segunda-feira, 23 de abril de 2018

O Edifício Califórnia

 O Edifício Califórnia nos anos 60. Fotografia de autor desconhecido

 O Califórnia em 1994. Fotografia de Clóvis Campêlo

O edifício em 2018. Fotografia de Clóvis Campêlo

O EDIFÍCIO CALIFÓRNIA

Clóvis Campêlo

Segundo matéria de Augusto Saboia publicada no blog das Parcerias Público-Privadas, em 14/5/2017, o edifício foi um dos primeiros prédios construídos na avenida Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, sendo considerado um dos ícones da arquitetura moderna pernambucana.
Projetado em 1953 pelo arquiteto Acácio Gil Borsói, o empreendimento, que por anos esteve em estado de má conservação, passa por um processo de revitalização que promete mais que melhores condições estruturais: a proposta pretende movimentar a área com a ofertas de atividades artísticas e gastronômicas.
Na primeira fotografia, provavelmente feita nos anos 60, e na segunda fotografia, de 1994, o prédio ainda aparece isolado, ladeado por diversas casas que hoje não existem mais.
Segundo o site do arquiteto Acácio Gil Borsói, autor do projeto, em matéria sem data, o edifício é composto por dois volumes sobrepostos: o primeiro ao nível da rua, predominantemente horizontal, destinado às funções de comércio e serviços e que, juntamente a uma série de pilotis, suporta um segundo volume vertical que acomoda o uso residencial. A solução para este edifício reflete claramente uma série de características da arquitetura moderna, como os pilotis, as janelas “em fita”, e a rígida setorização das zonas internas do apartamento.
O recuo lateral do volume prismático vertical, em relação ao lote vizinho, permitiu a aposição de esquadrias nas fachadas Leste, Norte e Sul. Na fachada Oeste, por outro lado, o arquiteto opta pela ausência total de fenestrações, provavelmente para impedir a entrada de luz e calor excessivos no interior da edificação.
Em 1978, foi desenvolvido por Acácio Gil Borsoi um estudo para uma reforma no Edifício Califórnia. O objetivo da intervenção seria modificar o uso residencial do edifício, convertendo os apartamentos projetados na década de 50 ao uso de hotel. Entretanto, esta reforma não chegou a ser executada.
No site Pátria Amada, em texto sem assinatura e datado de 19/10/2011, encontramos o seguinte: “O edifício Califórnia, na Av. Boa Viagem, começou a ser construído em 1958 e foi inaugurado em 1960. Assinado por Acácio Borsoi, um importante arquiteto brasileiro, marcou um ciclo de construção de grandes obras na cidade do Recife. Foi um dos primeiros arranha-céus da cidade (o mais alto da época), juntamente com o edifício Acaiaca, de 1958, este também na Avenida Boa Viagem, e o edifício Holliday, de 1957, no cruzamento da rua Salgueiro com a rua dos Navegantes, também uma localização privilegiada do bairro de Boa Viagem, prédios arrojados e modernos que inauguraram um novo estilo de morar.”
Não sei se procede a informação acima de que o edifício Califórnia era o mais alto do Recife naquele tempo, já que durante muitos anos esse título foi atribuído ao edifício Capibaribe, no bairro da Boa Vista, construído na mesma época às margens do rio homônimo.

 

A camisa do santo


A CAMISA DO SANTO
Olinda, junho 2015
Fotografia de Clóvis Campêlo


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Os prédios do Terceiro Jardim de Boa Viagem

Fotografia de Clóvis Campêlo / 2018

OS PRÉDIOS DO TERCEIRO JARDIM DE BOA VIAGEM

Clóvis Campêlo

 
Segundo a placa existente no calçadão, os três jardins existentes na praia da Boa Viagem foram inaugurados em 31 de março de 1970, durante a gestão do prefeito Geraldo Magalhães Melo.
Os prédios altos ali existentes hoje, foram construídos antes da criação da lei de ocupação do solo urbano, substituindo as casas com quintais repletas de coqueiros que haviam antes.
O belo e portentoso prédio do meio pertence ao hotel Beach Class Suíte. Nele observamos que diferentemente dos outros há uma mudança no estilo arquitetônico.
Enquanto nos dois prédios que o ladeiam se sobressaem as linhas funcionais da arquitetura moderna, em ângulos retos e sem muitas firulas, o edifício central possui curvas e pontas que demonstram muito mais uma função decorativa do que algum objetivo prático. Um exemplo do que convencionou chamar de arquitetura pós-moderna? Talvez sim. Vejamos abaixo algumas considerações sobre isso.
Segundo o site Porto Bello, “a arquitetura também foi profundamente afetada pela onda moderna e se transformou radicalmente, em especial nas primeiras décadas do século XX. Esse foi um período de rejeição aos estilos tradicionais. Ocorreram modificações em diversos aspectos, que deram forma a muito do que é construído até hoje em cidades do mundo inteiro. Quem conseguiu resumir bem o espírito desse momento foi o alemão Mies van der Rohe (1886 – 1969), em uma frase que é, ela própria, exemplo do seu significado: “menos é mais”. A Arquitetura Moderna privilegia tudo o que é simples, mas nunca o que é simplório. Essa característica se manifesta principalmente nas formas (que são básicas) e nos materiais utilizados (o concreto aparente, o aço e o vidro são as matérias-primas favoritas). Ao redor de todas as peculiaridades que marcam essa vertente, está a valorização das funções sociais das construções. Em diferentes graus, todos os grandes arquitetos modernos preocupam-se com a forma como suas criações serão utilizadas na prática pelas pessoas”.
Segundo o blog Arquiteto Fala, diferentemente da primeira, “a arquitetura pós-moderna, nada mais é do que um termo usado para definir as novas propostas arquitetônicas a partir dos anos 60, assim como fazer uma crítica ao movimento anterior, conhecido como arquitetura moderna. Uma crítica ao excesso de funcionalidade, onde a forma seguia a função. No pós-modernismo prevalece o impacto visual. O maior desafio dos arquitetos pós-modernos, é conseguir resolver a separação entre o "gosto" das elites que criam os ambientes, e os diferentes tipos de público que irão utilizar esse determinado espaço. Se antigamente o cliente não participava diretamente da idealização do projeto, agora ele passa a ser o protagonista juntamente com o arquiteto, pois a sociedade da informação permite que o público participe, cabendo ao arquiteto traduzir esses "diversos gostos", com bom senso”.
De um modo geral, as definições acima, se não nos esclarecem completamente quanto aos dois estilos arquitetônicos, podem nos ajudar a ver com mais clareza cada uma dessas propostas.

No que tange ao prédio acima em questão, segundo o arquiteto Aristóteles Coelho Pinheiro, não é pós-moderno nem art decó. É apenas uma cópia em escala reduzida do Miami Beach.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Crônicas Recifenses


Compre aqui o livro 'Crônicas Recifenses'

O Antigo Posto 3


 
Fotografias de Clóvis Campêlo / 2018

O ANTIGO POSTO 3

Clóvis Campêlo

 
Segundo Raul Lopes no site Skyscrapercity, com a chegada dos edifícios a Boa Viagem, entre as décadas de 40 e 50, as pessoas passaram a frequentar mais a praia que leva o mesmo nome do bairro. Com isso, foi preciso construir postos salva-vidas. 70 anos depois ainda restam seis desses antigos postos, uma espécie de patrimônio histórico de Boa Viagem, ou verdadeiros itens de memória afetiva do bairro.
Há cinco anos o publicitário Wellington Ferraz pensava em dar uma nova vida e uso a esses antigos postos –foi aí que ele se uniu à Nuvem Produções para dar vida ao projeto Salva Arte, viabilizado pela Prefeitura do Recife. Agora, no lugar de postos salva-vidas inutilizados, a praia ganhou verdadeiras obras de arte assinadas por artistas locais.
A grafitagem que ornamenta o antigo posto 3, foi feita pelo artista plástico Gláuber Arbos.
Aliás, sobre o bairro da Boa Viagem com a sua praia, vale a pena transcrever as palavras do escritor João Braga no livro Trilhas do Recife – Guia Turístico, Histórico e Cultural: “O bairro de Boa Viagem iniciou o seu adensamento populacional após a implantação da linha de bondes elétricos, em 1924, através da construção de uma ponte metálica de 700 metros sobre a estrutura do emissário de esgotos ali existente. Até então, a única forma de se chegar ao bairro era por barcos. Nessa mesma época, deu-se a implantação da Avenida Boa Viagem. Mas, já na metade do século XVII, surgia a povoação de Boa Viagem. Em 1858, com a passagem do trem da Estrada de Ferro do Recife a São Francisco, começou a ser mais procurada. Em 1906 o bairro possuía apenas cerca de 60 casas. Em 1925, intensificou-se a construção de prédios na avenida”.
Difícil era imaginar, naquele tempo, que o bairro se transformaria nesse conglomerado arquitetônico com uma grande população e com características próprias, cosmopolitas.
Hoje, os velhos postos remanescentes sobrevivem ao lado de postos mais novos feitos em madeira, com outra concepção arquitetônica e bem mais próximos à praia.
Principalmente nos finais de semana, quando a movimentação na praia aumenta de forma impressionante, é necessária a atenção redobrada dos salva-vidas do Corpo de Bombeiros.
Sem falar que hoje a praia da Boa Viagem é considerada uma das mais perigosas do mundo por conta dos ataques dos tubarões.

 

Um rolê pelo Recife











UM ROLÊ PELO RECIFE
Recife, julho 2015
Fotografias de Clóvis Campêlo

 

sexta-feira, 13 de abril de 2018

As esculturas da Praça da Independência


 Escultura do poeta Carlos Pena Filho pintada e pichada

 Escultura do empresário Assis Chateubriand solene com um saco de lixo nas mãos
 Escultura do jornalista Antônio Camelo, também pintada
 Escultura de pessoa desconhecida que teve a placa arrancada

Escultura de Corbiniano Lins em homenagem aos mascates do Recife

Fotografias de Clóvis Campêlo / 2018

AS ESCULTURAS DA PRAÇA DA INDEPENDÊNCIA



Clóvis Campêlo



Situada no bairro do Santo Antônio, no centro histórico do Recife, segundo a Wikipédia, é a mais antiga praça da cidade. Durante o domínio holandês, constava nos mapas da época o local chamado de Terreiro dos Coqueiros. Mudou de denominação várias vezes, sendo chamada de Praça Grande, Praça do Comércio, Praça da Ribeira e Praça da Polé. Em 1816, após uma reforma, mudou de denominação para Praça da União. Finalmente, em 1833, recebeu o nome atual de Praça da Independência. Porém, por abrigar durante muito tempo o prédio do Diario de Pernambuco, passou a ser chamada pelo povo recifense como a Pracinha do Diário.

Segundo texto da pesquisadora Samira Adler Vainsencher, publicado em 2003 no site da Fundaj, “a Praça da Independência é considerada, hoje, como aquela de maior movimento na cidade do Recife. Por ela, cruzam e iniciam avenidas e ruas de grande relevância, tais como a rua Duque de Caxias, a rua 1º de Março, a avenida Dantas Barreto, a rua Nova, a avenida Guararapes, o Largo do Rosário, a rua Matias de Albuquerque e a rua Engenheiro Ubaldo Gomes de Matos. Como o coração do bairro de Santo Antônio, além disso, é nela que onde são realizados os grandes comícios e de onde partem passeatas, procissões, cortejos cívicos, os blocos de carnavais. Esse logradouro público, portanto, continua centralizando os mais recentes acontecimentos, manifestações e/ou reivindicações ocorridos no Estado de Pernambuco, tanto por parte da política, das religiões, quanto dos movimentos populares e da cultura”.

Pois bem, é nessa praça que estão colocadas esculturas e bustos de personalidades recifenses ou de grande relevo, homenageadas pela cidade do Recife. A praça hoje, porém, já não tem mais a relevância que tinha antes do abandono do centro da cidade pelo poder público e pela iniciativa privada. Como já dissemos antes em outros textos, encontra-se hoje ocupada por prostitutas, mendigos e desocupados, os quais, maltratados pela cidade, nem sempre sabem reconhecer a importância daquelas figuras de pedra e cimento que ocupam permanentemente o logradouro. Esvaziada de importância, com os grandes prédios ao seu redor abandonados e em acelerado processo de ruína, inclusive o prédio que durante anos abrigou o Diario de Pernambuco, a praça e suas esculturas são constantemente agredidas pela população.

Na praça encontram-se esculturas do poeta Carlos Pena Filho, do empresário Assis Chateubriand, do jornalista Antônio Camelo, além de um busto cuja placa arrancada não nos deixou identificar o homenageado. Na praça também existe uma escultura em homenagens aos mascates do Recife, confeccionada pelo artista Corbiniano Lins, recentemente falecido.

Pelas fotografias acima, percebe-se que a intervenção popular nas obras nem sempre foram positivas ou de reconhecimento. Sinceramente não sei a quem culpar por isso. Se a cidade, por maltratar e abandonar o seu povo sofrido, ou se a mesmo povo, deseducado e sem grandes esperanças de reabilitação que devolve à praça a mesma violência e indignação com a qual é tratada pelos poderes constituídos e pela urbe ameaçadora.

Fica a pergunta solta no ar.

O Edifício Acaiaca


Fotografias de Clóvis Campêlo / 2018

O EDIFÍCIO ACAIACA

Clóvis Campêlo

Segundo Rachel Mota, em matéria publicada no site Por Aqui, em 19/5/2017, o prédio nasceu como um local destinado a veraneio, já que era assim que o bairro era visto em seus primórdios. Não se passaram muitos anos até que as famílias descobrissem o quão encantador seria morar em frente ao mar. Segundo o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Luiz Amorim, o Acaiaca é uma das soluções oferecidas pelos arquitetos Delfim Amorim e Lúcio Estelita para o problema do edifício vertical moderno destinado à moradia. “As características da edificação quando da sua construção, no final dos anos de 1950, o destacaram na paisagem litorânea por sua dimensão, verticalidade e simplicidade volumétrica”, analisa. De acordo com Amorim, o Acaiaca tem propriedades arquitetônicas inusitadas. “As janelas horizontais contínuas voltadas para a paisagem marítima, a aplicação de azulejos desenhados por Amorim para o revestimento das fachadas e o uso do peitoril ventilado para garantir a plena circulação no interior dos apartamentos, mesmo com as janelas fechadas, tornaram-no elemento de referência urbana”, observa.
Segundo matéria publicada no site Notícias NE 10, o edifício que foi construído no fim da década de 50 tem 11 andares e 44 apartamentos - quatro por andar. No meio de tantos prédios, chama a atenção por ser um dos poucos que são horizontais na praia. Delfim Amorim foi o arquiteto da construção, que tem inspiração modernista. Sete funcionários cuidam do edifício. Entre eles, está o único porteiro do condomínio: Mauro Clenio. Ele tem 38 anos e já dedica 12 deles ao Acaiaca. Da janela de sua portaria, enxerga o mar diariamente, porém sem perder a concentração com o serviço de atender os moradores. "O mar é relaxante, mas é preciso atenção. Fico aqui na portaria e também auxílio às pessoas dos apartamentos quando elas precisam", disse Clenio, que se gaba de ter um escritório na praia. "Poucos podem falar isso", brinca.
Segundo o Dicionário Ilustrado Tupi-Guarani, acaiaca é uma árvore, mais conhecida como cedro. A árvore também é conhecida como: cedro amarelo, cedro-rosa, cedro-branco, cedro-vermelho, cedro-da-várzea, aca jucatinga, acajatinga, cedro-balata, capiúva, aiacá, acajacá e acaiacatinga. O nome acaiacá tem origem nas línguas Aruák e Karíb. É também o nome de uma cidade no interiore de Minas Gerais.
Segundo matéria assinada por Guilherme Carréra, publicada no jornal Correio Braziliense, em 17/8/2015, citando dez lugares que revelam a história e a arquitetura do Recife, faz a seguinte referência ao Edifício Acaiaca: “O arquiteto franco-suíço Charles-Édouard Jeanneret-Gris , nascido em 1887, transformou os conceitos da arquitetura. Conhecido como Le Corbusier, é um dos criadores da arquitetura modernista, escola seguida mundo afora, inclusive, no Recife. Principal representante dessa corrente, o edifício Acaiaca foi desenhado pelo português Delfim Amorim, sob forte influência corbusiana. À beira-mar da praia de Boa Viagem, Zona Sul da cidade, é ponto referencial dos frequentadores da orla. Na altura do Segundo Jardim, o Acaiaca possui 11 andares e 44 apartamentos”. Mesmo considerando o erro no que se refere à localização do edifício, na verdade situado bem depois do Segundo Jardim de Boa Viagem, o texto nos esclarece quanto a inspiração do arquiteto ao criar o projeto do edifício.


Crônicas Recifenses, o livro


CRÔNICAS RECIFENSES, O LIVRO

Marcos Godoy

Clóvis Campêlo é daqueles escritores que se revelam sem qualquer embaraço. A paixão pela cidade do Recife, o cotidiano, as personalidades do seu tempo e outras que povoam o seu universo cultural, os fatos ocorridos; transformam o homem no escritor e o escritor num pássaro de asas de grandes dimensões, qual sobrevoa as memórias da sua própria existência para produzir narrativas apaixonadas e, sobretudo, apaixonantes. Crônicas Recifenses é antes de tudo, um livro de pura sensibilidade e inteligentíssimo, que guarda na sua estrutura literária um exercício da melhor prosa poética extraída de coisas aparentemente simples, comuns e corriqueiras do cotidiano de uma cidade, de personalidades que marcaram épocas, de fatos diversos e da vida do próprio autor. John Updike, na sua notável concepção acerca do fazer literário, diz que “os detalhes são divinos”, como modo de apreciar a narrativa. Nesse sentido, o que aparentemente é simples, comum, realça toda a narrativa deste livro com a divindade dos detalhes tão bem manejados pelo autor. É um texto livre como uma experimentação, no qual Clóvis se permite a certas ousadias impulsionadas pelo seu gênio criativo. Talvez a arte da escrita seja a que mais embriaga de paixão os seus vocacionados. É assim que Clóvis Campêlo se revela: um escritor embriagado de paixão pela literatura. Um escritor engajado, um criador incansável, que tem produzido um magnífico acervo literário ao longo dos anos. Crônicas Recifenses é apenas uma parte desse acervo que agora chega às mãos do público leitor. Numa época em que se verifica a produção cultural e a forma de consumir bens culturais, transformando-se tão radicalmente e em tão curto espaço de tempo, refletindo diretamente nos processos de decisões do consumo de bens (culturais) e, consequentemente, estabelecendo um padrão artístico de sedução, de baixa qualidade; Crônicas Recifenses chega como um saboroso alento para cultura pernambucana e brasileira. E porque não dizer, um brinde à arte!
Crônicas Recifenses é um delicioso passeio pela cidade do Recife, pelos fatos que marcaram épocas e a vida de personalidades, pelas memórias de um homem pernambucano, através da genialidade criativa de Clóvis Campêlo.

- Prefácio feito pelo escritor Marcos Godoy para o meu livro Crônicas Recifenses, o qual poderá ser adquirido no site do Clube de Autores - https://www.clubedeautores.com.br

quinta-feira, 12 de abril de 2018

O Restaurante Samburá

 




O RESTAURANTE SAMBURÁ

Clóvis Campêlo

Sobre o restaurante Samburá, no site TripAdvisor, constato a seguinte declaração feita por alguém que se denomina LoucosporMarketing: “Almocei domingo com um grupo no Restaurante Samburá, que fica no hotel de mesmo nome. A história é original, pois ouvi lá do próprio dono, um senhor de 91 anos que estava no almoço. Ele me contou que fundou o Restaurante Samburá em 1 de janeiro de 1910, à beira-mar em Olinda, quando não havia nada em volta. Em seguida, a área em torno foi loteada e ele vendeu centenas de lotes, que deram origem ao atual bairro. Na década de 80, o Samburá foi transferido para o outro lado da avenida, saindo da areia da praia, e construindo um hotel em cima do atual restaurante. Então, o Samburá não é um restaurante num hotel, e, ao contrário, é um restaurante que tem um hotel em cima. A cozinha é deliciosa, com pratos da culinária do Nordeste, em estilo self-service nos fins de semana”.
Hoje o restaurante e hotel está situado na Av. Ministro Marcos Freire, 1551, no Bairro Novo, em Olinda. Antes, porém, em 1953, segundo mensagem que nos foi enviada pelo mensenger do Facebook pela assessoria de imprensa do hotel, começou como um quiosque na beira-mar. Posteriormente, evoluiu para um prédio no formato de um samburá, cesto bojudo e de boca estreita, feito de cipó ou taquara, e muito usado para carregar iscas e apetrechos de pesca, e para recolher o pescado.
Depois, por conta da legislação municipal que proibia construções na praia, o restaurante foi transferido, para o local onde se encontra atualmente. Na época, todos os estabelecimentos que estavam em situação semelhante tiveram os prédios demolidos.
Como podemos verificar nos parágrafos acima, há uma divergência de datas quanto ao início do funcionamento do estabelecimento comercial. Acreditamos que o ano de 1953, que nos foi informado pela equipe de comunicação do próprio restaurante e hotel, seja o mais provável. Deixamos por enquanto a questão em aberto.
Como podemos observar pela terceira fotografia acima, já havia na época da sua feitura um trabalho de contenção do avanço do mar naquela área com a colocação de pedras e espigões de areias.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Margeando o Capibaribe






MARGEANDO O CAPIBARIBE
Recife, 2015
Fotografias de Clóvis Campêlo

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Tio Amaro


TIO AMARO

Clóvis Campêlo

 

Amaro Regueira era meu tio-avô, irmão do meu avô materno Luís de Albuquerque Regueira. Era um homem simples e pacato, que gostava de criar galinhas, acostumado à vida no interior e no campo.
Lembro dele na nossa casa do Pina, já velho e com problemas circulatórios seríssimos. Fumante inveterado, tinha as pernas escuras por conta da má circulação sanguínea.
Sobre ele, minha mãe contava uma história interessante e engraçada: apesar da mansidão, às vezes ele perdia a paciência com a meninada e dava respostas inesperadas. Curiosa como sempre foi, a minha mãe, ainda menina, pediu-lhe que lhe ensinasse a conhecer quando a galinha estava prestes a por o ovo. Ocupado, tio Amaro não lhe deu atenção. De tanto insistir, recebeu essa resposta: “Minha filha, meta o dedo no rabo da galinha. Se estiver duro, é ovo; se estiver mole, é merda!”. Dona Tereza, minha mãe, contava isso sempre rindo muito.


quarta-feira, 28 de março de 2018

A arte de envelhecer


A ARTE DE ENVELHECER

Clóvis Campêlo

Envelhecer não é fácil, amigos. É preciso se ter maturidade para enfrentar essa fase da vida (por sinal, a fase final). Algumas pessoas não conseguem aceitar a chegada da terceira idade e sofrem com isso. Principalmente quem usa a cara e o corpo como instrumento de profissão. São muitos os atores e atrizes que entram em depressão com a chegada da fase final da vida.
Quando jovens, no entanto, a velhice e a morte sempre nos parecem coisas distantes e despreocupantes. As visões da velhice na juventude geralmente são românticas e alegres. Digo isso pensando em dois grandes compositores que marcaram a minha infância e adolescência e nas músicas por eles compostas falando da velhice.
O primeiro é Paul McCartney que ainda na fase dos Beatles, em 1969, no álbum Sargent Peppers Lonely Heart Club Band, compôs a música Whan I'm Sixty-Four. Paul, como se sabe, ao contrário de John Lennon, veio de uma bem ajustada família de classe média inglesa. Seu pai, nas festas natalinas ou de família, gostava de sentar ao piano e tocar velhas e tradicionais canções inglesas. Isso Paul absorveu bem e utilizou com sabedoria nas suas composições.
Na música acima citada, ele faz uma indagação inocente e bem-humorada: “When I get older losing my hair / many years from now / will you still be sending me a valentine”. Ou seja: “Quando eu envelhecer, perdendo meus cabelos / Daqui a muitos anos / Você ainda estará me mandando um cartão no dia dos namorados?”
Paul que já faz tempo passou dos 64 anos, finaliza a música com uma proposta e outra indagação: “Send me a postcard, drop me a line / stating point of view / indicate precisely what you mean to say / yours sincerely wasting away / Give me your / answer fill in a form / mine forever more / Will you still need me / Will you still feed me / When I'm sixty-four”. Traduzindo: “Mande-me um cartão-postal, escreva uma linha / Expressando seu ponto de vista / Explique precisamente o que você quer dizer / Com sinceridade / Dê-me sua resposta, preencha em um formulário / Minha para sempre / Você ainda precisará de mim? / Você ainda me alimentará? / Quando eu tiver sessenta e quatro anos”.
Não é preciso dizer que Paul sempre foi um homem em paz consigo mesmo, com as mulheres que amou, com seus filhos e sua família. E essa sensação é transmitida para seus admiradores não só nessa como em outras músicas suas.
Com Roberto Carlos não foi diferente. Embora tenha tido a sensibilidade de transformar em arte e músicas os anseios e sentimentos de toda uma geração, suas canções falam do mundo e da vida de forma positiva e propositiva. Na música Os Velhinhos, ele assim se expressa: “Quando a velhice chegar / Eu não sei se terei / Tanto amor pra te dar / Hoje, vem amor, vem amar / Os meus lábios esperam / Te querendo beijar / Amanhã estaremos velhinhos / Contaremos juntinhos / Os segredos do amor / Para os nossos netinhos”.
Talvez a lembrança dessas músicas e desses compositores para mim, que também já ultrapassei a marca dos 64 anos, sirva para amenizar um pouco a lembrança do que tempo bom que passou e que, embora não volte mais, serviu como base para que tenhamos chegado ao momento atual em que vivemos com nossas famílias, nossos filhos e netos.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Moraes Moreira, Benedito Lacerda e o pombo-correio

 Benedito Lacerda e Pixinguinha

 Moraes Moreira e os Novos Baianos

MORAES MOREIRA, BENEDITO LACERDA E O POMBO-CORREIO



Clóvis Campêlo



Compositor, flautista e maestro, Benedito Lacerda nasceu na cidade fluminense de Macaé, em 14 de março de 1903. Compositor, cantor e violonista, Moraes Moreira nasceu na cidade baiana de Ituaçu, no dia 8 de julho de 1947. Quatro décadas, portanto, separam os nascimentos do dois compositores brasileiros.

O primeiro, já no Rio de Janeiro, iniciou sua trajetória musical tocando bumbo na banda do Exército. O segundo, começou tocando sanfona de doze baixos nas festas da sua cidade natal.

Lacerda, que chegando ao Rio foi morar no morro do Estácio, cresceu cercado de chorões e sambistas, convivendo com gente de peso na MPB, como Noel Rosa. Moreira, em Salvador, conheceu Tomzé e Baby Consuelo, ao lado da qual formou o grupo Novos Baianos, do qual foi integrante de 1969 a 1975.

Benedito Lacerda morreu no Rio de Janeiro, em 16 de fevereiro de 1958, quando Moraes Moreira tinha apenas dez anos de idade. Este último continua por aí em carreira solo. Ao todo, segundo a Wikipédia, tem mais de 40 discos gravados em carreira solo, ao lado dos Novos Baianos ou com outros grupo e artistas.

Todo esse preâmbulo introdutório foi por nós utilizado apenas chegarmos a um ponto em comum nas suas composições: ambos criaram músicas utilizando o pombo-correio como tema. As composições, inclusive, são homônimas.

Na sua música Pombo-Correio, Benedito Lacerda assim se expressa: “Soltei meu primeiro pombo-correio / com uma carta para a mulher / que me abandonou; / Soltei o segundo, o terceiro / o meu pombal terminou / ela não veio e nem o pombo voltou”.

O compositor, portanto, chora não apenas a perda da mulher amada, mas também a sua indiferença, não lhe respondendo as cartas e nem lhe devolvendo os pombos de estimação. Pura ingratidão.

Moraes Moreira canta assim o seu Pombo-Correio: “Pombo correio / Voa depressa / E esta carta leva / Para o meu amor / Leva no bico / Que eu aqui / Fico esperando / Pela resposta / Que é pra saber / Se ela ainda gosta de mim”. No bico do pombo de Moreira ainda existe a esperança de uma resposta positiva, portanto, onde retornem o pombo e a mulher amada. Afinal, a esperança é a última que morre.

Na segunda parte da sua canção, Lacerda revela como o fim daquele amor desarrumou a sua vida: “Depois que aquela mulher me abandonou / não sei porque minha vida desandou / O canário morreu / a roseira murchou / o papagaio enlouqueceu / e o cano d'água furou. / E até o sol por pirraça / invadiu a vidraça e o retrato dela desbotou”. Sem o comando feminino, o mundo do compositor caiu e não só ele foi vítima desse desequilíbrio, como também tudo o que o cercava. Nada de um final feliz.

Moreira, pelo contrário, deixa o final em aberto: “Pombo-correio se acaso um desencontro / acontecer não perca nem um só segundo / voar o mundo se preciso for / o mundo voa / mas me traga uma notícia boa”. Portanto, seja lá qual for a situação encontrada pelo pombo na sua missão, fica a esperança do compositor de que ele retorne e lhe traga boas novas. Afinal, a vida é bela e deve continuar.
Aliás, nos tempos modernos de hoje, onde predominam a internet, o facebook e o whatsapp, é difícil imaginar um singelo pombo-correio atravessando os céus do Brasil para entregar uma carta de amor.

Gabriel e Tatiana


GABRIEL E TATIANA

Clóvis Campêlo
 
TATIANA
 
Conheci Cida em dezembro de 1977, numa cidade chamada Riachão, situada no sul do Maranhão. É interessante frisar que, antes, nenhum de nós dois jamais estivera ali.
Nasci no Recife e fui ao Maranhão acompanhando meu irmão mais novo que ali morara um tempo, trabalhando, e que iria se casar com uma jovem do lugar.
Cida, natural da vizinha cidade de Carolina, também no sul do Maranhão, ali fora acompanhando um irmão mais velho que dirigia um pequeno caminhão, fazendo entrega de café fabricado na torrefação onde trabalhava. Assim, nós nos conhecemos. Nosso primeiro encontro se deu numa festa de 15 anos, acontecida na noite anterior ao casamento do meu irmão. Ali mesmo, começamos a namorar. Terminado o casamento, voltei ao Recife e Cida, a Carolina.
Em fevereiro de 1978, durante o carnaval, fui a Carolina e conhecer os pais de Cida e o restante da sua família.
Ficou decidido que em março eu voltaria à cidade e nos casaríamos, vindo morar no Recife.
E assim foi feito: no dia 11 de março de 1978, nos casamos na Matriz de Carolina e viemos para o Recife. Na época, eu tinha 26 anos e a Cida, 16.
Em 1979, Ano Internacional da Criança, no dia 20 de janeiro, às 7:30 da manhã, dia de São Sebastião, Tatiana nasceu, sendo, portanto, o resultado inicial dessa história especial e inusitada.
Na realidade. deveria ter nascido no dia 1º, Dia da Confraternização Universal. Não sei se erraram na conta, mas se passaram 20 dias do prazo estabelecido para que ela nascesse. Estava atravessada na barriga de Cida e foi retirada a fórceps. Ainda hoje ela tem na testa as marcas do nascimento.
Naquele tempo não havia ainda ultrassonografia para se saber antecipadamente o sexo das crianças. Assim, na porta da sala de parto, haviam dois bonequinhos, um do sexo masculino e outro do sexo feminino. Dependendo do sexo do nasciturno, acendia um ou outro.
Enquanto Cida e Drª Aspásia lutavam na sala de parto para que Tatiana viesse à luz, lá fora, na sala de espera, estávamos eu, meu pai, que assim como também se chamava Clóvis, e minha mãe, dona Tereza, nervosos e ansiosos.
Quando a luzinha acendeu, todos se abraçaram e se confraternizaram, felizes porque tudo correra à contento.


GABRIEL
 

Quatro meses depois do nascimento de Tatiana, Cida engravidou novamente. Quando Gabriel nasceu, no dia 12 de março de 1980, Tatiana tinha um ano e dois meses.
Com nós meninos ainda pequenos, fomos moram em Rio Doce, na cidade de Olinda, numa casa com um pequeno quintal onde haviam árvores e um tonel cheio de água, onde as crianças gostavam de tomar banho.
Em julho de 1986, nos mudamos e fomos morar num apartamento, no bairro do Cordeiro, no Recife. Ali, os meninos passaram a maior parte das suas vidas. Ali cresceram e fizeram amizades que duram até hoje.
Gabriel nasceu às 7:30 da manhã, em um dia de muita chuva.
Nessa época, morávamos na Ilha do Leite e de lá para o Hospital Português, onde ele nasceu, a distância não era muito grande.
Em circunstâncias normais, eu e Cida, teríamos ido até andando.
Mas chovia muito, algumas ruas estavam alagadas e resolvemos pegar um táxi, um alegre fusquinha azul celeste que contrastava com o dia cinzento.
Chegamos no hospital e a Drª Aspásia Pires, que sempre fez os partos de Cida, já nos esperava.
Ela entrou com Cida na sala de exames e logo a vi correndo de volta, desesperada.
Aflito, perguntei o que estava acontecendo e ela me respondeu: "Ele já está nascendo".
Mal deu tempo Cida entrar na sala de partos e Gabriel já veio à luz, apressado, querendo ver o mundo com os próprios olhos.
Foi um parto tranquilo, normal.
Pouco tempo depois, Gabriel já estava no berçário e Cida sentada na cama, serena, tomando uma canja quentinha.
Foi assim que Gabriel nasceu. Foi assim que veio ao mundo, sendo o nosso caçula e completando a nossa família.
Era tão pequeno que nós o apelidamos de Catotinha.


Recife, 1986

quinta-feira, 15 de março de 2018

Entre o concreto e a natureza

Fotografia de Clóvis Campêlo / dez 2013

ENTRE A NATUREZA E O CONCRETO

Clóvis Campêlo

Nascemos na lama rica do mangue e sobre ela crescemos. Antes um istmo, hoje ocupamos toda a planície que o rio criou e o homem, com a força e a ambição que Deus lhe deu, ajudou. Se isso foi bom ou ruim, talvez seja uma questão de visão ou de opinião íntima definir. Talvez até mesmo o suposto caos que hoje enfrentamos seja o prenúncio de outros tempos ainda maiores virão.
Estaremos preparados? Sinceramente, não sei. Do caos ao mangue ou do mangue aos caos vivemos numa cidade entrelaçada com as águas. E nesse embate entre o que as linhas tortas da natureza criou e o que as linhas retas da compreensão humana alterou ou inventou, ficamos nós respirando e querendo sobreviver. Enquanto isso, a beleza do cenário pode ser encontrada e admirada na sua plenitude.
Ao olhar puramente contemplativo talvez não caiba o questionamento politicamente correto. Viver não significa necessariamente indagar ou criar oposição imaginativas. O olhar reto e direto não necessitaria de retificações. Entre a natureza e o concreto, talvez as águas claras do rio escorra sem a necessidade de interpretações como sintomática e diuturnamente o tempo faz. E ninguém a ele sobreviverá. Morrer sempre será preciso. A vida vive disso.
Por trás da copa das árvores a cidade simplesmente existe. E vista assim de longe mais parece um céu no chão. Para que servem afinal os detalhes deletérios da visão direcionada? Para nada, eu mesmo respondo. A não ser que queiramos alimentar a angústia, as justificativas para o sofrimento, as elaborações filosóficas inúteis e inquietantes.
Nascemos sobre a lama rica do mangue e um dia ao pó voltaremos. Que o tempo a nós oferecido entre estes dois atos extremos seja repleto de alegria e êxtase. Deixemos o olhar vagar por todo o cenário como se a nada buscasse, como se apenas quisesse usufluir da plasticidade do momento que se nos oferece.
Nós merecemos, a cidade merece.

 

quarta-feira, 7 de março de 2018

Respeito



RESPEITO
Recife, fevereiro de 2018
Fotografia de Clóvis Campêlo

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Miguel Arraes e o MST











MIGUEL ARRAES E O MST
Recife, 1992
Fotografias de Clóvis Campêlo