domingo, 10 de agosto de 2014

Eu também sou brasileiro!


Com ele juntos em campo, o Brasil nunca perdeu

EU TAMBÉM SOU BRASILEIRO

Clóvis Campêlo

Como dizia Nélson Rodrigues, a seleção brasileira é a pátria de chuteiras. Não há como negar. Em 1970, começamos com 90 milhões em ação e ao longo do tempo só nos multiplicamos.
Aliás, em termos de seleção brasileira de futebol, Nélson Rodrigues sempre tinha razão. Complexo de vira-lata? Nunca mais! Depois que Garrincha e Pelé, em 1958, desmontaram o cérebro eletrônico soviético? Tá certo que, em 1974, esbarramos na Laranja Mecânica. Mas, nem sempre tudo corre bem. Também existe a competência alheia. O certo é que, apesar de tudo, sempre estivemos lá. Somos os únicos, aliás. Cadeira cativa em todas as Copas do Mundo.
Se fossemos espanhóis, dividiriamo-nos em bascos e catalões, uns torcendo pelo fracasso dos outros. Mas, somos brasileiros, o povo bombril, vários em um, unidos, coesos na mesma emoção. Do Oiapoque ao Chuí. Não importa o sotaque.
Lembro que em 1974, no segundo jogo da seleção brasileira contra a finada Ioguslávia, alguns amigos politicamente correto torciam contra o Brasil. Sabe como é: ditadura militar, populismo de direita, o ópio do povo. Eu não! Sempre soube distinguir uma coisa da outra. Em 1970, o caudilho Médici já havia convocado Dario Peito-de-Aço, impondo o jogador à Zagalo e a toda a comissão técnica. Concessão feita, deixa o homem no banco, curtindo o calor mexicano do meio-dia. Foi tri sem botar os pés em campo. Mas, tava lá no grupo e curtiu as glórias posteriores. Nada mais lógico, portanto (para eles, os politicamente corretos), que torcer pelo fracasso do Brasil na Copa seguinte. Tínhamos grandes valores naquela seleção de 74: Jairzinho, Rivelino, Luís Pereira, Marinho Chagas, Leão, etc. O nosso azar foi a assombração holandesa. Te esconjuro até hoje!
Em 1982, outro timaço sob o comando de Telê Santana. E mais uma pedra no caminho: a Itália do mafioso Rossi. Dançamos novamente. Paciência. Ali sucumbiu toda uma geração de craques que merecia uma melhor sorte em termos de Copa do Mundo: Zico, Sócrates, Falcão, Toninho Cerezzo, etc.
Em 1994, conquistamos um tetra meio malassombrado com o retranqueiro Parreira. Mas, tetra é tetra. E a festa da conquista começou no Recife. Tremenda apoteose. A cidade azul dos poetas ficou verde e amarela. A nossa brasilidade se manifestou com toda intensidade. E ainda tínhamos Ricardo Rocha entre os campeões, que, machucado, quase não jogou. Em 1958, aliás, também tinha sido assim: voltando da Suécia, onde Garrincha não só ganhou a Taça do Mundo como também deixou plantada a sua semente brasileira, a primeira escala foi no Recife. Graças a Rubem Moreira, o tirano comodoro que deu certo. Entre os campeões do mundo, os pernambucanos Vavá e Zequinha. O nosso futebol e o nosso povo até hoje agradecem. Na Suécia, aliás, fomos campeões do mundo com o técnico Vicente Feola cochilando no banco. Um timaço.
Depois do penta, em 2002, com Rivaldo e a família Scollari, que venha o hexa. Talvez Dunga nos lembre Parreira com suas precauções excessivas, negando o drible e a catimba, revalorizando os armandinhos, reafirmando que a defesa é o melhor ataque. Talvez.
Mas, como dizem que Deus é brasileiro, não custa nada acreditar que seremos hexa. Temos força para isso. E além do mais, hoje, já somos mais de 190 milhões em ação.
Pra frente, Brasil!
Salve a seleção!
Eu também sou brasileiro!

Recife, 2010

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