quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Dylan e o Nobel de Literatura


DYLAN E O NOBEL DE LITERATURA

Clóvis Campêlo

Como diz Rita Lee, tudo vira bosta. Talvez essa máxima se aplique com adequação à notícia divulgada pela Academia Sueca. Pra que diabo Bob Dylan vai querer um prêmio desses? Em que é que isso vai enriquecer ainda mais a sua carreira musical, além, é claro dos 2,9 milhões de reais a serem pagos? Do mesmo modo que não quero entender, até hoje, porque os Beatles aceitaram o título de “sir” que lhes foi dado por uma Inglaterra ferozmente capitalista e, na época, envolvida com a Guerra escrota do Vietnã.
Dylan, com a cara atual de maracujá enrugado, começou a sua carreira fortemente influenciado pela cultura beatnik. Nascido em no estado da Minnesota, em 1941, netos de emigrantes judeus russos, escolheu a música folk para lhe servir de base e veículo dos seus textos e poemas. Deu certo. Emigrou para Nova York, onde vive até hoje, e no bairro do Greenwich Village começou sua longa e profícua carreira de compositor. Dizem que a escolha pela música folk foi uma homenagem ao ídolo Woody Guhtrie. Nós, fãs da periferia, talvez não tenhamos conhecido o Woody, mas, no Festival de Woodstock, seu filho, Arlo, fez um relativo sucesso.
Mas, Dylan, que em seu nome artístico também homenageia outro poeta, Dylan Thomas, teve ressonância entre os descontentes da época por alertar aos seus contemporâneos, sempre de forma branda e poética, sobre os rumos dos novos tempos. Nunca foi, porém, um contestador do sistema. Nunca pregou revoluções. Aliás, chegou mesmo a homenagear o american way of life, ao declarar que mudava de nome por viver na terra da liberdade. Destetava, inclusive, a alcunha de compositor de músicas de protesto. Na verdade, um bom moço, o Dylan. Por isso, não foi a toa, que nos anos 70, Lennon afirmou em uma das suas músicas pós-Beatles que, entre outras coisas, não acreditava mais em Robert Zimmerman (o nome de batismo de Dylan).
Vejo agora na imprensa que Dylan, classificado pela Academia Sueca como arrogante e mal-educado por não se pronunciar sobre a premiação, corre o risco de não receber a dinheirama do prêmio. Seu silêncio, constrangedor para os cedentes, pode lhe custar os cifrões. Pelo regulamento, o premiado deve fazer palestra sobre a sua arte, no prazo máximo de seis meses a partir da concessão do Nobel. Ou até mesmo um show musical, admite a Academia. Mas ele continua mudo como um túmulo.
Ainda pelas regras da Academia cedente, a recusa do prêmio não será aceita. O recusante, no entanto, ficará privado do valor monetário a ser recebido. Consta que apenas Jean Paul-Sartre, em 1964, recusou o mimo. Anos depois, porém, diante das graves dificuldades financeiras que enfrentou, solicitou à Academia Sueca que lhe pagasse o valor devido, o que lhe foi negado. Sarte, talvez, tenha se arrependido, mas já era tarde.
Para mim, a Academia Sueca arriscou-se um grande golpe publicitário, aproveitando-se da fama de Dylan. Talvez ele tenha percebido esse intuito e tenha se reservado. Não sabemos até onde isso irá e qual a verdadeira importância dessa babaquice para o conturbado mundo moderno.
Portanto, que se fodam Dylan e o Nobel de Literatura!


Recife, outubro 2016

domingo, 23 de outubro de 2016

A praia da Boa Viagem

 










A PRAIA DA BOA VAGEM
Recife, outubro 2016
Fotografias de Clóvis Campêlo

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

De volta para o passado


DE VOLTA PARA O PASSADO

Clóvis Campêlo

Não tenho pretensões de ser nenhum novo Dom Casmurro. A minha mulher não se chama Capitolina. E nem, ao menos, tenho algum amigo chamado Esequiel. Nem mesmo ando mais de trem. Na cidade moderna em que vivo, esse foi substituído pelo metrô. Mas, nem de metrô eu ando. Tenho meu próprio automóvel, conseguido pela ascensão da classe média nos últimos governos populistas. Vivo, portanto, a solidão coletiva e diária de me locomover escutando alguma rádio que toque música popular brasileira ou o bom rock'n'roll. Poemas, só escuto os de Carlos Drummond de Andrade, gravados em um compact disc que me foi presenteado por um amigo de longas datas. Meto-o no equipamento de som do carro, e escuto sempre o poeta mineiro com sua voz aparentemente frágil e cansada. Aliás, cansadíssima!
Mas, assim como o famoso personagem machadiano, surgiu-me, na etapa final da vida, a necessidade de reconstituir, ao menos fisicamente, um cenário que me fora adequado no início. O desenho, fazia muito tempo, estava gravado na minha cabeça teimosa. Aliás, teimosíssima (como podem reparar, também curto os superlativos!).
Do portão que vinha da rua até o pequeno terraço de entrada, havia uma curta calçada. Do terraço, alcançava-se a porta da sala, em duas abas e ao lado de uma janela, também com duas abas, que se abriam para o terraço. Os quartos, eram em número de trás, do mesmo lado da casa. Os dois últimos, tinham as suas janelas voltadas para o oitão lateral. Era lá que o sol nascia. O primeiro, porém, abria a janela para o poente e era estucado, o que o tornava insuportavelmente quente à noite quando as portas da casa se fechavam para o sono dos justos e dos injustos também. Nesse, ninguém queria se acomodar. Era para lá que fugíamos, eu e meu irmão, nas noites quentes de verão para desfrutar do corpo de Creusa, a doméstica que nos iniciara sexualmente. Meus pais nunca desconfiaram de nada. Tudo confabulava ao nosso favor naqueles tempos ideais.
Entre a sala e a cozinha, havia uma pequena passagem que também dava acesso ao banheiro única da casa. Por seu lado a cozinha abria-se em um terraço interno, mandado construir depois por meu pai, onde ficava a lavanderia e os tonéis com a água que chegava à noite nas torneiras mais baixas. Ainda não haviam construído a Barragem de Tapacurá e os banhos de chuveiro eram um sonho quase inalcançável.
O quintal era um caso especial. Na parte da frente, havia um jardim com canteiros em forma de losangos, onde plantávamos rosas de todas as cores. Na parte lateral estavam as fruteiras, onde canários, curiós e papa-capins se abrigavam e proliferavam incansáveis. Não havia verão que desse conta daquela capacidade de propagação. Era a preservação das espécies.
Na parte traseira do quintal, meu pai plantara bananeiras de várias espécies e alguns pés de mamão caiano. Ali, era o lugar dos sanhaçus, guriatãs e concrizes, passarinhos de molhado, como se dizia, comedores de frutas e de cantos maviosos.
Recompondo a casa antiga do Pina, termino assim essa crônica. Se fui descritivo, quando me queria irônico e memorialista, talvez até mesmo introspectivo, culpa a minha incapacidade literária de copiar o grande mestre, mesmo que em um pequeno e insignificante texto.
Talvez, como ele, termine me convencendo que seria bem melhor tentar escrever sobre as histórias dos antigos subúrbios.

Recife, outubro 2016

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Guerra e paz


GUERRA E PAZ

Clóvis Campêlo

Sou de paz em tempos de guerra e de guerra em tempos de paz. Evoluções me interessam. Mentiras sinceras, não. Talvez isso faça com que me sinta vivo no mar de insensatez que é a vida moderna.
Sempre que vejo imagens antigas do passado, fico pensando como a vida parecia ser mais fácil antigamente. Talvez esteja ficando velho demais para acompanhar a rapidez das mudanças atuais. Nem mesmo consigo entender o que fala meu neto mais velho, Pedro, quando se refere aos seus jogos e personagens virtuais. Percebo que hoje a maior parte das minhas referências estão no passado. Quando muito, consigo manejar o computador e escrever minhas mal traçadas linhas. Já me contento com isso.
Confesso que sempre almejei um mundo melhor, com mais justiça social e melhor distribuição de renda. Para mim, seria apenas uma questão de tempo para que isso acontecesse. Imaginava que um dia as pessoas perceberiam o equívoco dos seus credos e optariam por um mundo mais equânime.
Nos tempos do Jubrapi, no Pina, nos seminários promovidos pelos padres oblatos, o sociólogo Carlos Rocha afirmava que o socialismo seria uma consequência natural do capitalismo. Era esperar para ver. No mundo justo de Deus não deveria haver espaço para a fome, a exploração do homem pelo próprio homem, a injustiça. Eu tinha a impressão, naquela época, de que o próprio Deus estava empenhado no restabelecimento desse equilíbrio. Afinal, éramos todos irmãos (ou deveríamos sê-los). A divisão geopolítica do mundo sempre me pareceu um equívoco e ser remediado. Era só escolher o caminho e segui-lo. Haveria uma força tamanha a proteger os homens de boa vontade que se empenhassem nisso. Eu, na ingenuidade da minha adolescência, acreditava piamente nisso. Na maior parte da minha vida, direcionei os meus esforços e esperanças nesse sentido. Não me arrependo, mas poderia ter sido um pouco menos crédulo, mais pragmático e ter percebido que a vida, no futuro, especialmente a minha, quando as forças vitais começassem a fraquejar, necessitaria de uma melhor estrutura para se apoiar e sobreviver.
Hoje, percebo estarrecido que antigos amigos que dividiam conosco essas esperanças e crenças, mudaram de atitude e, não sei se por benefícios pessoais ou por degeneração de caráter, defendem ideias e políticas deletérias e facciosas. Como, para mim, toda relação humana deve se basear em fatos concretos comuns, não vejo como manter esses relacionamentos apenas baseado em pontos comuns do passado ou em considerações mortas e insustentáveis. Não consigo achar que a verdade possa ter dois lados. E dentro da visão maniqueísta de que quem não está comigo está contra mim, passo a vê-los, no mínimo, como antagonistas.
Se a minha pretensão ainda é encaminhar o mundo para o lado da justiça e da irmandade (mesmo que isso possa parecer cada vez mais impossível) não tenho como conviver ou perder tempo com equívocos e maus discernimentos.
Penso que hoje vivemos a educação para o egoísmo e a individualidade. Vivemos a bestialização das pessoas e a insensibilidade diante dos problemas do mundo e do outro. Deixar-se envolver e levar por isso, para mim, significa desistir de toda uma vida de lutas e de atitudes em busca do bem comum.

Recife, outubro 2016

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A doença de Deus


A DOENÇA DE DEUS

Clóvis Campêlo

Já faz tempo que os muros de Londres foram pichados com a frase famosa.
Em 1966, eu ainda morava no Pina, pescando, jogando bola e acompanhando a trajetória dos Beatles e dos Brecheiros, os ted boys que incomodavam o bucolismo e a lentidão do bairro. A juventude era bela, poderia até me arriscar. Porém, se os Beatles revolucionaram o mundo, a revolução dos Brecheiros logo acabou, afundada nas drogas, na ilicitude e nas ruas do Pina.
E olhe que quase tudo nos parecia ser tão lógico. Hoje, dos Beatles, apenas dois sobrevivem. Os Brecheiros, morreram todos. O último, talvez, tenha sido Marco Bobão, morto quando o bairro já começava a se transformar, remodelado pela especulação imobiliária e pela engenharia das largas avenidas, que espantou terreiros de macumba, afoxés e maracatus, gafieiras, pescadores e o lúmpen proletariado que lhe era habitual. Ali conviviam o mundo pop de então, trazido pelo rádio, televisão e cinema, e a cultura popular dos excluídos e marginalizados. O Pina era um caldeirão cultural que fervia e cheirava mal.
A classe média, que admirava os Beatles e temia a ousadia dos Brecheiros, porém, não só sobreviveu como aumentou o seu espectro e se consolidou. Os tempos começavam a mudar. Enquanto os Beatles cantavam All You need os love, os Brecheiros olhavam escondidos as moças de família da classe média pinense tomando banho ou vestindo seus pijamas e camisolas para dormirem. Eu, nunca tive essa coragem, embora tivesse a vontade. Afinal, as filhas da classe média daquela época já eram belas e apetitosas. Hoje, são todas respeitáveis e loiras senhoras, embora algumas ainda mantenham um certo e discreto charme.
Mas, onde entraria Eric Clapton nisso tudo? Em 1966, London City teve os seus muros pichados por jovens enlouquecidos pela maconha e pelos acordes das guitarras de Clapton. Para eles, Deus era Clapton (ou vice-versa). Clapton tinha então vinte anos de idade, e dominava a cena pop inglesa tocando com os Beatles e os Rolling Stones, entre outros. Nas horas vagas, compunha músicas para a esposa do amigo fiel e traído. O nosso “Deus” ainda tinha as gônadas funcionais e atrevidas. O futuro absorveria e absolveria o ato. A música pop ganhava outros clássicos musicais para lhe alimentar a saga de lucros e todos viveriam felizes para todo o sempre. Para que fomentar sacrilégios inúteis?
Hoje, vejo no blog Sonoridades, do reacionário e careta Estadão, que aos 71 anos de idade, Clapton sofre de neuropatia, doença que geralmente acomete diabéticos e hipertensos. E tudo começou com inexplicáveis dores nas costas. A doença é incurável e provoca danos irreparáveis no sistema nervoso. Como diria Lupicínio, não há nervos de aços que resistam e estejam imunes a tantos adjetivos.
A realidade é que Clapton (ou God) envelheceu e está doente. E do mesmo modo que o tempo levou o vento dos anos 60, carregando os sons e as ousadias daquela época, também se prepara para passar a limpo o que veio depois e o que hoje existe e persiste. Inexorável tempo, mestre de todas as criações e de toda a destruição da vida.

Recife, outubro 2016

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

No mesmo lugar


NO MESMO LUGAR

Clóvis Campêlo

Dizia Chico Science (por que não Chico Ciência, pergunto eu repetindo a xenofobia do mestre armorial?) que “um passo atrás e já não estamos mais no mesmo lugar”. É verdade. A afirmação contrária, também. Apenas, nem sempre é possível o passo à frente. E como vivemos em um sistema que sugere a evolução em linha reta, numa sequência direta de eventos e acontecimentos, saltar de banda pode nos parecer, às vezes, um recuo vergonhoso.
Caranguejos ou não, atolados na lama ou não, temos a responsabilidade de ter cérebros. Não para justificativas a terceiros, mas por uma questão de sobrevivência. Difícil, porém, é manter a coerência na hora do recuo, dizer não à debandada fácil e frouxa. Isso deve ficar para os ratos. Aos homens de bem, deve ser dado o direito a uma trégua, um recondicionamento, um reencontro consigo mesmo e com os seus ideais. Afinal, nadar contra a corrente da mesmice e dos valores consolidados, não é fácil, embora acredite necessário. A mudança sempre passa por aí.
Todos querem apenas segurança e repetições. Não nos cabe julgar, se é justo ou não. Cada um deve saber das suas idiossincrasias. Cada um deve saber a dor e a delícia de se ser o que é. Afinal, vale a pena repetir o poeta, a pimenta malagueta do planeta?
O problema é que essa vontade de ser feliz pode acabar nos matando. Toda ousadia será castigada? Ou será mesmo necessário provar o remédio amargo da eterna repetição dos papéis sociais e antropológicos? Neste admirável mundo atual, até a tristeza deve ter seus dias contados (está no script!).
Nas florestas tropicais ou nas selvas de pedras, somos os responsáveis por nós mesmo. E talvez não tenhamos uma segunda chance de sobrevivência. Nas estatísticas, somos apenas números insignificantes. Ilude-se quem quiser. A insignificância coletiva confunde-se com o sonho da importância da personalidade própria e individualista. Acabamos por adentrar na perigosa zona do personalismo inútil e tolo.
Talvez caiba aqui a autocrítica do maniqueísmo ideológico. Afinal, quem não está comigo está contra mim. Se não nos afinamos no campo das ideias, muito menos nos afinaremos nos campos das ações e das estratégias. Caminhos em sentidos e direções contrários. Nada de interseções. Alimentamos conjuntos vazios. Somos caminhantes soturnos e solitários buscando a anulação mútua e atendendo aos interesses do sistema. Tudo em nome das possibilidades. A mais pura tolice, embora eu mesmo não consiga deixar de pensar assim.
Assumo bem assumidamente esse modo estúpido e inevitável de pensar. Afinal, a estupidez também remove montanhas e eu nem mesmo sou Maomé. São Tomé, talvez. Preciso ver para crer. E crendo, ajo. E agindo, evoluo ou recuo. Assim é a vida, até que a morte nos separe. Até que aprendamos a separar o joio do trigo e metamorfoseá-lo no pão, aproveitando o ácido glutâmico que dizem ser o ácido da inteligência. Sem brometo de potássio e sem doses excessivas de fermento. Apenas a massa manufaturada e pronta para o consumo que alimenta a vida.
Até um dia, até talvez, até quem sabe!

Recife, outubro 2016