sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Parabéns, presidente!


PARABÉNS, PRESIDENTE!

Clóvis Campêlo

Talvez o grande erro de Lula e do Partido dos Trabalhadores tenha sido apostar em um acordo com bandidos e larápios tradicionais da política brasileira em nome da chamada governabilidade. Foi aí que o PT perdeu o rumo e se deixou contaminar. Infelizmente.
Mas, natural da cidade de Caetés, onde veio ao mundo em 27 de outubro de 1945, “foi o único presidente do Brasil nascido em Pernambuco. Bateu um recorde histórico de popularidade durante seu mandato, conforme medido pelo Datafolha. Programas sociais como o Bolsa Família e Fome Zero são marcas de seu governo, ambos reconhecidos pela Organização das Nações Unidas como os programas que possibilitaram a saída do país do mapa da fome. Lula teve um papel de destaque na evolução recente das relações internacionais, incluindo o programa nuclear do Irã e a questão do aquecimento global”.
Na época do seu nascimento, Caetés era apenas um distrito da cidade de Garanhuns, situada no agreste meridional de Pernambuco. A cidade de Caetés surgiu de um povoado fundado por Miguel Quirino dos Santos. Até 1918 a localidade chamava-se "São Caetano". O topônimo mudou para Caetés por influência do jornalista, historiador e publicista da língua tupi, Mário Melo. Segundo este historiador, caetés é uma corruptela de caá-etê, significando "mato real ou verdadeiro, mata virgem". Emancipou-se como município em 13 de dezembro de 1963, desmembrando-se do município de Garanhuns.
Antes, em em 1952, com apenas sete anos de idade, Lula acompanhou a mãe e os irmãos numa viagem para São Paulo, em busca do próprio pai. Saiu de Caetés em um caminhão pau-de-arara. Em São Paulo chegou, viu e venceu. De engraxate a vendedor de jornais, torneiro-mecânico, líder sindical, deputado federal e presidente da República, numa trajetória vitoriosa.
Apesar da sua derrota para Fernando Collor de Melo em 1989, na eleição presidencial, Lula manteve sólida liderança no PT, bem como prestígio internacional, como no destaque obtido quando da fundação do Foro de São Paulo, em São Bernardo do Campo, em 1990. Tratava-se de um encontro periódico de lideranças partidárias que visava congregar e reorganizar as esquerdas latino americanas, que estavam politicamente desorganizadas com a expansão do neoliberalismo após a queda do muro de Berlim. Em setembro de 1993 estava percorrendo os Estados da Amazônia em campanha para a eleição presidencial de 1994. Em Ariquemes (RO), Lula disse: “Há no congresso uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns trezentos picaretas que defendem apenas seus próprios interesses”.
Em 27 de outubro de 2002, Lula foi eleito presidente do Brasil, derrotando o candidato apoiado pela situação, o ex-ministro da Saúde e então senador pelo Estado de São Paulo José Serra do PSDB. No seu discurso de diplomação, Lula afirmou: "E eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República do meu país."
Em 29 de outubro de 2006, Lula é reeleito no segundo turno, vencendo o ex-governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin do PSDB, com mais de 60% dos votos válidos. Após esta eleição, Lula divulgou sua intenção de fazer um governo de coalizão, ampliando assim sua fraca base aliada. O PMDB passa a integrar a estrutura ministerial do governo.
Pela primeira vez na história desse país, tomamos rumos diferentes e respiramos uma certa ilusão de protagonismo. No entanto, enquanto país estratégico no contexto mundial atual, por conta das suas riquezas e possibilidades, fomos vítimas de um novo golpe urdido provavelmente nos porões da CIA, conforme sempre afirmou o jornalista Paulo Henrique Amorim.
Os golpistas rapidamente redirecionaram o país para a subserviência e entreguismo, modificando regras de relações trabalhistas, sempre privilegiando a o capital em detrimento dos trabalhadores em geral.
Lula sempre despertou sentimentos antagônicos em relação à sua figura e isso nem Freud explica. Por causa da admiração que lhe tenho cheguei a romper com vários amigos menores que nunca souberam respeitar a diversidade de pensamentos e credos políticos. Melhor assim. Antes que só que mal acompanhado.
Parabéns, presidente! E vida longa para você.

Fonte: Wikipédia

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Quando o vermelho entra em cena







QUANDO O VERMELHO ENTRA EM CENA
Recife, agosto 2017
Fotografias de Clóvis Campêlo

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Um prefácio e seis contos

 
UM PREFÁCIO E SEIS CONTOS



Clóvis Campêlo

Não há a menor dúvida, amigos, de que existe um acordo tácito e implícito entre o prefaciador e o prefaciado. Tanto quanto os atributos dos textos analisados, sempre busca o primeiro retribuir ao segundo, de forma positiva, a gentileza do convite e da confiança depositada. E aí é que a vaca torce o rabo: não sendo o analisado dotado de grande capacidade literária e imaginativa, sobrará ao prefaciador o esforço hercúleo de juntar os cacos das mal traçadas linhas e estabelecer uma colagem razoável e digna.
No entanto, sendo o escritor dotado de boa capacidade literária e dominador das técnicas narrativas, torna-se agradável e pertinente, ao prefaciador, criar o seu texto apresentativo e paralelo, sem medo nenhum de ser feliz. De uma forma ou de outra, escrever prefácios é construir linhas de cumplicidades e parcerias.
No caso de Marcos Godoy, que além de amigo, colega de trabalho e companheiro de literatura, é um escritor competente e já reconhecido na sua labuta de escreviver, a tarefa a nós imposta, apesar da imensa responsabilidade, tornou-se muito mais um prazer do que uma obrigação. Não há como negar a sua competência na construção textual e narrativa.
No conto chamado de A confissão, mas que bem poderia ser chamado de A vingança, já podemos observar as opções técnicas por ele escolhidas para definir as bases do seu texto. Narrado na primeira pessoa, mostra-nos o que alguns estudiosos do assunto chamam de narrador autodiegético, personagem principal e que relata as suas experiências pessoais. A predominância da descrição em muitos momentos das histórias, como o fizeram todos os grandes autores do Realismo, leva-nos a entender a preocupação de Godoy com a verossimilhança. Sendo os contos narrados o resultado das histórias que escutava do seu pai, segundo o que o próprio autor nos revelou, nada mais justo do que preocupar-se com a contextualização e com a sua inserção em ambientes reais. O conto, aliás, que bem poderia ter acontecido em Serra Talhada, cidade natal do autor, situada a 415 quilômetros do Recife e uma das mais importantes do sertão pernambucano, conta a história da peça pregada pelo autor em Zé das Cabritas, sertanejo esperto mas crédulo na sua fé religiosa, obrigando-o a pagar uma penitência exagerada em função da sua confissão ao falso padre. Descoberta a farsa, pacientemente, Zé das Cabritas aguardou anos até surgir a oportunidade de dar o troco, fazendo com que o narrador literalmente entrasse numa fria.
No conto O estranho mundo de Doralice, a história começa em media res, com os acontecimento anteriores ao início da narrativa sendo resgatados pela memória do narrador. Esse artifício utilizado faz com que o fatos ocorridos anteriormente ao início da narrativa sejam trazidos ao presente através de flash-backs e analepses, provocando uma mudança no plano temporal. Esse artifício narrativo, aliás, é usado em profusão pelo autor em vários momentos desta e de outras narrativas deste livro. Talvez, numa tentativa de criar um jogo interpretativo com o leitor, quebrando um pouco da sua inércia diante do texto. Nesse sentido, outro recurso também muito utilizado são as digressões. São pequenas histórias, observações ou descrições acrescentadas ao texto principal e que nem sempre tem necessariamente a ver com ele, afastando do leitor a atenção momentânea sobre as ações da história principal.
No caso específico de O estranho mundo de Doralice, serve-nos de exemplo o episódio da anciã octogenária que discute com o dono da padaria por causa de divergências no valor da sua caderneta mensal.
De uma maneira geral, poderíamos considerar ainda o uso pelo autor do discurso direto livre como uma forma de interpor um personagem qualquer entre o narrador e o leitor. Se há algo interessante a ser dito, que o narrador saia de cena e fale o personagem. É a própria Doralice quem se expressa diretamente ao afirmar que precisa dormir para sonhar, para fugir de realidade da sua vida insatisfatória, para criar a utopia que insiste em perseguir e que a faz suportar a desventura da sua vida.
No conto O cangaceiro, ao contrário do que o título poderia supor (mais uma atitude lúdica do autor?), não é o cangaceiro Jesualdo Ibiapino da Silva, o Tenente Atropelo, que figura como protagonista da história. Durante toda a narrativa o anti-herói mantém-se fora da moldura da história, aparecendo apenas no final, envolto numa nuvem de poeira, que o traz à cena e, do mesmo modo, o leva de volta aos bastidores. Só reaparece no final do conto, com a sua morte anunciada numa notícia de jornal. Ele, que durante a vida matara tanta gente com crueldade, morre em consequência de um câncer no pulmão, provocado pelo cigarro que tanto lhe aprazia. Ironicamente, o cigarro e os fósforos que salvaram o personagem Joel, no encontro casual com o cangaceiro, são os elementos responsáveis pela doença causadora da sua morte. Nesse texto, fica latente as situações de “distraimento” do leitor pelas artimanhas narrativas do autor. Aqui, os personagens pouco falam, imperando a voz do narrador. Afinal, não seria de bom tom lhes dar voz e facilitar a leitura e interpretação do texto por parte dos leitores.
No que tange aos cigarros, em um tempo onde verificamos a sua demonização e tentativa de exclusão social, permitindo-me também uma digressão, lembro da história de Clayton, amigo da juventude, que, assim como Joel livrou-se da morte por acender o cigarro do cangaceiro, escapou da morte por sair da parada de ônibus onde se encontrava para comprar cigarros em um fiteiro. A parada ficava em frente a um sobrado antigo que desabou matando as outras pessoas que lá se encontravam. Para Clayton, como não cansava de afirmar, o cigarro salvara a sua vida.
O conto O Advogado Baiano é narrado na terceira pessoa e repete o cenário interiorano referenciado nas histórias anteriores: a mesma calmaria, a mesma arrumação, a mesma praça, os mesmos bancos. As horas passam perceptíveis, realçando a rotina do local. De novidade, apenas o novo coreto a ser inaugurado e o personagem recém-chegado, com ares ilustres de personalidade importante a ser apresentada. Aliás, como que demonstrando antecipadamente que a narrativa se encaminharia para um desfecho hilário e cômico, o narrador chega a compará-lo com o personagem de Clark Gable, no filme Aconteceu Naquela Noite. O final da história, porém, além de completamente inusitado, joga por terra todo o glamour da figura do jovem advogado e mostra com humor até onde pode chegar a ganância e a ambição humana.
O conto A Flor e o Espinho destoa de todos os outros anteriores. Primeiramente, como o diz o próprio narrador, porque aconteceu numa aldeia distante, distante das terras e dos dias de hoje. Ou seja, o tempo da narração é posterior ao tempo da narrativa. Do mesmo muda o cenário do acontecimento narrado. Não mais temos como palco as terras secas e áridas do sertão. Agora, estamos numa floresta úmida e perfumada. No que tange à construção do texto e da história, somem as descrições realistas e, em seu lugar, surgem as metáforas românticas, sugerindo ao leitor que chegara a horas de ser contada uma história de amor. Na verdade, um amor trágico, bem ao sabor dos românticos, destruído pela rigidez das convenções sociais que regiam aquela comunidade e aquele povo.
Narrado na primeira pessoa, Sobre Amores e Amigos é um conto pessoal e introspectivo. O narrador/personagem volta-se para dentro de si e apenas faz referências espaciais externas para se contextualizar. Debruçado sobra a larga janela, observa as pessoas e o mundo sem se deixar contagiar. Uma mulher que passa sob a chuva, vestida como se fosse para a missa, com uma sombrinha chinesa e sapatos de duas cores é uma figura interessante mas sem nenhuma influência no seu conflito interno. Ela a observa, mas logo a esquece.
Duas palavras destacam-se no primeiro parágrafo pela repetição: começo e vazio, que denunciam o imenso sentimento de solidão no qual o narrador/personagem está submerso.
A introspecção do texto reflete diretamente na sua forma narrativa: é a voz do narrador que predomina. O discurso direto livre aparece apenas duas vezes, de forma curta, em telefonemas equivocados que demonstram a sua inutilidade. E é voltando-se para dentro de si mesmo, das suas memórias e conjecturas, que o narrador/personagem irá procurar e reconstituir o seu equilíbrio emocional no aqui e no agora.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Entre colunas e cúpulas





 




 

ENTRE COLUNAS E CÚPULAS

Fotografias e pesquisa de textos de Clóvis Campêlo

Segundo a Wikipédia: "A origem da localização da Basílica da Penha remonta a um pequeno oratório situado em “Fora de Porta de Santo Antônio”, correspondendo, com uma pequena diferença, ao terreno onde hoje está erguida a construção contemporânea. O oratório foi instituído em 1655 pelos franciscanos capuchinhos franceses e ampliado em 16 de abril do mesmo ano, em um terreno doado por Belchior Alves Camello e sua mulher Joanna Bezerra. Contudo, o templo atual foi construído entre os anos de 1870 e 1882, sendo a única igreja em estilo coríntio do estado de Pernambuco. É inspirada na arquitetura da Basílica de São Jorge Maior. Em 2 de setembro de 2007 iniciou-se uma obra de restauro que durou até o dia 4 de julho de 2014, data de sua reinauguração. As obras custaram cerca de R$ 6 milhões e ainda não terminaram. O trabalho dos restauradores revelou diversos aspectos que estavam perdidos até então pela degeneração causada pelo tempo. A cor original da santa que encima a cúpula externa que é dourada foi restabelecida e foi encontrado um painel de mosaico vitrificado, feito na Itália. A igreja é conhecida pelo tradicional evento da Benção de São Félix onde passou a acontecer em um ambiente próximo da Basílica enquanto durava a reforma.
Diferente do estilo barroco utilizado na maioria das igrejas do Recife, a Basílica da Penha tem arquitetura neorenascentista e uma obra arquitetônica de vasto conjunto artístico tanto no seu interior quanto no exterior. A maioria das obras não tem documentação que indique autoria devida, deixando uma lacuna no levantamento histórico do prédio. Dentre as poucas peças de autoria conhecida encontramos, no altar-mor, as figuras de São Francisco e Santo Antônio entalhadas no mármore em baixo relevo com autoria de Valentino Besarel e baixo relevo no altar-mor. Mas há indícios de que que várias obras são oriundas do mesmo escultor. Também encontra-se no altar-mor afrescos de Murillo La Greca".
No seu livro Velhas Igrejas e Subúrbios Históricos,  o historiador Flávio Guerra diz o seguinte:"Em 1869 entenderam os capuchinhos de transformar a sua Igreja em um grande Templo, e a construíram dentro doe stilo suntuoso de Santa Maria Maior, de Roma, sendo responsável pelas obras o arquiteto Fr. Vivente de Vicenzia, construtor que tinha sido de grandes templos da Europa e até na Ásia.
A pedra fundamental, entretanto, só foi lançada no ano seguinte a 6 de novembro, e a 270 palmos afastados do local da Igreja existente. Concluído o novo Templo em 1882, foi ele sagrado festivamente no dia 22 de janeiro, pelo bispo do Maranhão, D. Antônio Cândido de Alvarenga, com a assistência do bispo de Olinda, D. José Pereira da Silva Barros, o conde de S. Agostinho.
Todo o edifício obedece à ordem artística coríntia.
É um templo majestoso com 65,70 de comprimento por 28,40 de largura.Sua configuração é de uma cruz latina, contendo três naves com um suntuoso zimbório, cuja chave se eleva a 43 metros de altura, tendo no alto uma elegante claraboia, sobre a qual se vê colocada uma colossal imagem de Nossa Senhora da Penha.
Por trás desse zimbório, sobem duas esguias e elegantes torres de 40 metros cada uma, sob forma quadrangular, que se transforma do meio para cima em perspectiva octogonal".
Segundo o site da Arquidiocese de Olinda e Recife, "a Basílica da Penha é um marco divisor na história da arquitetura pernambucana e um exemplar, no Brasil, dos primórdios do neoclassicismo em Pernambuco. Em 1964,  Dom Hélder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, criou a Paróquia Nossa Senhora da Penha e elegeu como Igreja Matriz a Basílica da Penha.  Tradicionalmente às sextas-feiras, a Basílica da Penha reúne grande fluxo de devotos, quando é ministrada a benção de São Felix ao longo do dia, pelos capuchinhos".

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Entre a burguesia e a revolução




 

Fotografias de Clóvis Campêlo / agosto 2017

ENTRE A BURGUESIA E A REVOLUÇÃO

Clóvis Campêlo


Já se disse que a fotografia e o cinema, enquanto artes modernas, só surgiram quando a evolução da tecnologia burguesa permitiu a criação de máquinas e engenhocas apropriadas para isso, diferentemente da música, do teatro e da literatura, artes que existem desde a Antiguidade.

No que tange especificamente à fotografia, a sua origem remonta ao Renascimento, com o desenvolvimento da câmara escura, artefato supostamente existente desde o século V aC. O uso mais intensivo dessa surgiu a partir da necessidade dos pintores renascentistas de copiarem a realidade com fidelidade.

A realidade fielmente copiada, porém, não foi e nem é suficiente para nos dar a dimensão exata do mundo multifacetado em que vivemos. Nem sempre o simulacro reproduz com fidelidade esse mundo e a sua contextualização. É aí que entra a arte do fotógrafo e a sua capacidade de fazer leituras diferenciadas. O mesmo objeto, numa mesma época e situação especial pode ter realçado detalhes diferentes e diferenciadores.

Além do mais, fotografar não é apenas perseguir o belo e o inebriante. Ao fotógrafo também se permite a caça ao grotesco, ao feio, ao sujo e ao politicamente “incorreto”.

Diferentemente do pintor, que pode dispor do tempo que achar necessário para criar a sua obra, o fotógrafo às vezes dispõe apenas de segundos para efetuar a sua captura. Um simples hiato temporal pode modificar todo o significado plástico e poético de uma imagem capturada.

Mas não era a minha intenção teorizar sobre a arte burguesa da fotografia, e sim falar sobra a sua utilização política e social. A arte de fotografar hoje pertence a todos, independentemente das suas posições, políticas, religiosas ou filosóficas. E essa apropriação é mais do que devida.

As fotografias acima, foram feitas no Pátio do Carmo, no Recife, em agosto próximo passado, enquanto aguardávamos a chegada do ex-presidente Lula e da sua caravana.

Serve para mostrar o perfil dos que o apoiam e acreditam na sua proposta política e governamental. Podemos observar não só o óbvio com também as mensagens subliminares nelas existentes. Podemos ver a democrática utilização das cores, mesmo com a predominância de alguns tons mais fortes.

E como já disse o poeta em um moderno frevo-canção, se a praça é do povo como o céu é do avião, nada mais justo do que a sua ocupação seja devidamente registrada e sirva para demonstrar e provar as suas opções e preferências.
Ao povo, o que é do povo! As lutas, a labuta, as caras, as cores, os credos, os cantos. A satisfação de simplesmente ser, sem a necessidade de subterfúgios, escamoteamentos ou cretinices.

Sem medo nenhum de ser feliz.

domingo, 10 de setembro de 2017

A Casa Navio




A CASA NAVIO

Clóvis Campêlo


Segundo o escritor João Braga, no livro Trilhas do Recife – Guia Turístico, Histórico e Cultura, a famosa Casa Navio, construída pelo empresário Adelmar da Costa Carvalho, existiu na Avenida Boa Viagem, 400. Sua arquitetura se assemelhava ao navio Queen Elizabeth, com sala de reuniões, quartos, suíte, cinema, salão de jogos, restaurante e até uma cabine de comando. Foi filmada pela Metro Golden Meyer, de Hollywood, e hospedou diplomatas e presidentes. Era um dos nosso cartões-postais, sendo demolida em 1981 para a construção do Edifício Vânia.
As informações acima são confirmadas pelo pesquisador Carlos Bezerra Cavalcanti, no livro O Recife e seus bairros. Afirma ainda que o imóvel foi construído em 1940. E, citando o historiador Napoleão Barroso, afirma: “O empresário não queria construir apenas uma casa navio e sim um transatlântico. Por causa das críticas da sua mulher e do arquiteto Hugo Azevedo Marques, construiu ao invés de um transatlântico, um iate”. Afirma ainda que até o presidente Juscelino Kubtschek foi seu hóspede.
Por seu lado, o jornalista Paulo Goethe publicou no Diario de Pernambuco, em 12/6/2016, sob o título Era uma casa engraçada, a matéria que abaixo reproduzimos na íntegra:
"Em 1940, o empresário Adelmar da Costa Carvalho (o mesmo que dá nome ao estádio da Ilha do Retiro) valeu-se da planta do transatlântico Queen Elizabeth para construir sua residência na Corta-Jaca, uma área de Boa Viagem que ganhou essa denominação porque era que ali Carlos de Lima Cavalcanti, governador vitorioso da Revolução de 1930, gostava de tomar banho. Imediatamente, os recifenses com tendência a puxa-saco começaram a mergulhar no mesmo local, desejosos de que a autoridade os visse. Na verdade, a ideia de construir sua excêntrica mansão, que virou automaticamente um cartão-postal recifense, Aldemar teve quando viu uma casa em formato de navio nas margens do Lago Como, na Itália
O empresário adquiriu, por dez mil contos, o terreno de um norte-americano residente na orla da capital pernambucana, com quarenta metros de frente. Como era o dono da maior empresa de construção do Nordeste, dinheiro, material, equipamento e operários não eram problema. Difícil mesmo foi convencer a esposa, que não queria morar em Boa Viagem, lugar distante meia hora da parte urbanizada do Recife. Mais difícil ainda foi contratar o arquiteto Hugo de Azevedo Marques, que relutou em aceitar o projeto. O renomado profissional acabou transformando o transatlântico em um iate de três andares, todo em concreto armado.
No dia 8 de julho de 1981, o Diario de Pernambuco noticiava o início da demolição da popular casa-navio, localizada no número 4.000 da Avenida Boa Viagem. O trabalho teve que ser realizado em 90 dias, por dez homens, de forma artesanal. O restaurante Tombadilho, que funcionava ao lado e oferecia até banhos de piscina a seus frequentadores, também havia sido adquirido pelo mesmo grupo imobiliário.
A casa-navio era um ponto de referência em Boa Viagem, hospedando personalidades e atraindo turistas. Até o presidente Juscelino Kubitschek participou de um encontro no local. A Metro-Goldwyn-Mayer chegou a enviar uma equipe para registrar em filme a mansão pernambucana. Maior revista em circulação do Brasil, O Cruzeiro fez também uma ampla reportagem. Ligando a avenida Beira-Mar à Navegantes, a casa-navio fez história. Tanto que parte dos comentários sobre a postagem anterior do filme sobre o Recife em 1954 era sobre ela. Demolida, tem sua história preservada aqui".
O empresário bem sucedido que iniciou a sua vida como dono de uma gráfica no bairro do São José, foi deputado federal eleito por vários mandatos e presidente do Sport Clube do Recife. O Estádio da Ilha do Retiro hoje tem o seu nome. O Edifício Vânia foi por ele construído em homenagem a uma das suas filhas, que era deficiente. Ao seu lado, hoje, na praia da Boa Viagem, também existe um prédio com o nome do empresário.

No final, complementando a nossa pesquisa, o amigo e escritor Urariano Mota nos enviou ainda o comentário abaixo:
"Clóvis, eu tenho o livro O homem da Casa Navio, de Vera Lucia Japiassu e Eliane Souto Carvalho (filha de Adelmar da Costa Carvalho). Nele, na página 130, lemos:"... foi a casa inaugurada com uma festa de Carnaval no 3o. aniversário de Eliane, em 06 de fevereiro de 1946". É claro, a construção e o projeto vieram antes. Mas a Casa Navio existiu pronta a partir de 6 de fevereiro de 1946. Abraço."


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A Feira de Caruaru



A FEIRA DE CARUARU

Clóvis Campêlo

Comecemos pela Wikipédia: “A Feira de Caruaru é um importante mercado ao ar livre da cidade brasileira de Caruaru em Pernambuco. Na feira são vendidos produtos das mais variadas naturezas, desde frutas, verduras, cereais, ervas medicinais, carnes, bem como produtos manufaturados como roupas, calçados, bolsas, panelas e outros utensílios para cozinha, móveis, animais, ferragens, miudezas, rádios, artigos eletrônicos e importados. Considerada uma das maiores feiras ao ar livre do país, a Feira de Caruaru atrai pessoas de todo o Nordeste brasileiro. A feira foi considerada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio imaterial do Brasil”.
Segundo o site do Iphan, “a Feira surgiu em uma fazenda localizada em um dos caminhos do gado, entre o sertão e a zona canavieira, onde pousavam vaqueiros, tropeiros e mascates. No final do século XVIII, foi construída nesse local a capela de Nossa Senhora da Conceição que ampliou a convergência social e fortaleceu as relações de trocas comerciais no local. Assim, a feira cresceu com a cidade e se tornou um dos principais motores do seu desenvolvimento social e econômico”.
Ainda segundo o Iphan, “ Essa enorme feira livre, frequentada por milhares de pessoas que compram carne, frutas, verduras, cereais, flores, raízes e ervas, panelas e outros utensílios de barro, calçados, vestuário, ferramentas, móveis e eletrodomésticos usados, e ferro velho. Há espaço do artesanato ou Feira dos Artistas onde são vendidas peças de barro, madeira, pedra, metal, palha, coco, cordas, couro, tecidos, bordados e lã, além de muitos outros materiais. Barracas vendem comidas típicas (sarapatel, buchada, cuscuz, macaxeira, carne de bode, de sol, mungunzá, xerém e coalhada, entre outras) enquanto poetas e repentistas mostram seus versos”.
Essa diversidade tamanha, inspirou o compositor Onildo Almeida a compor música homônima, gravada por ele sem muita repercussão em 1956, e transformada em sucesso nacional no ano seguinte, na voz de Luiz Gonzaga.
Segundo o Diário do Nordeste, em texto de Fernando Maia, “os versos do compositor caruaruense são a síntese do que representa para os nordestinos essa autêntica realização popular. Não há qualquer exagêro de que ali tem de tudo. Localizada no Parque 18 de Maio – data da emancipação política da cidade – ocupa uma área de 43 hectares, sem contar com mais de 15 hectares que são destinados para o estacionamento de ônibus, caminhões, vans e veículos particulares, que chegam todos os dias de várias localidades do Nordeste”.
Segundo o site G1, da Globo, em matéria de Joalline Nascimento, “A música "A Feira de Caruaru" foi apresentada pela primeira vez ao público na extinta Rádio Difusora, onde Onildo trabalhava. Ele estava operando um programa em um dia de domingo quando aproveitou para melhorar a letra. "Enquanto eu lia a música, Rui Cabral, que animava o programa, chegou. Ele perguntou o que era e eu disse que era uma música. Ele disse: 'Com essas bugingangas todas?' Falei que sim e ele me pediu para cantar", recorda o compositor”.
Ainda segunda a mesma matéria, “ O rei do baião estava em Caruaru no ano de 1957 quando ouviu a música pela primeira vez. Onildo ainda não conhecia Gonzaga. "Eu conheci ele quando perguntou se a música era minha e me pediu para gravar. Claro que eu deixei". No mesmo ano, Luiz Gonzaga pediu para que Onildo fizesse uma letra em comemoração ao centenário de Caruaru. Foi quando ele compôs "Capital do Agreste". As duas músicas fizeram parte de um mesmo disco do rei do baião”.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Lula no Recife






LULA NO RECIFE
Eleições Municipais 1992
Fotografias de Clóvis Campêlo

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Teresa, a poetisa coral

 

 

 Fotografias de Cida Machado

TERESA, A POETISA CORAL

Clóvis Campêlo

Teresa é poetisa e artesã, além de ser torcedora doente do Santa Cruz.
Para nós, na hora declamou diversos poemas dedicados ao clube do seu coração. Encontrei-a na Cia do Chope, em Boa Viagem, durante o carnaval, vendendo suas produções. Figura simples e dócil, mas bastante interessante.
Anda com um recorte plastificado de jornal, onde consta uma matéria publicada no Diario de Pernambuco sobre ela.
Deixo aqui a minha homenagem para essa mulher do povo, torcedora exemplar da Cobra Coral.

Recife, fevereiro 2015


COMENTÁRIOS:

"Publico, às 21h40, no blog: www.robsonsampaio.com.br. A coluna Cidades Online, no sábado e, no domingo e na 2ª.-feira, Teatro da Vida/Causos – Frases – Poesias e notícias. Divulguem e mandem notas e denúncias para o e-mail: rsampaioblog@gmail.com. Abs e obg."
Robson Sampaio, em 07/8/2017

sábado, 5 de agosto de 2017

Manual de sobrevivência entre crápulas e canalhas


MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA ENTRE CRÁPULAS E CANALHAS

Clóvis Campêlo

Meus caros amigos:

Escrevo estas mal traçadas linhas ao som de Chet Baker, Time After Time. O som me acalma a alma e o corpo. A canção não tem pressa. Nem eu. Tenho toda a manhã disponível, muito embora o sol do Recife me chame para as ruas. Difícil não atender a esse pedido, depois de meses de frio e chuva, com os quais a cidade não combina. O som do trompete em surdina domestica a manhã e invade completamente o ambiente. Relaxo e deixo o corpo pousar suavemente por sobre a cadeira da sala. Aterrissagem perfeita. Nem um lexotan me faria melhor.
Baker, americano do Oklahoma e um dos melhores trompetistas da história do jazz, faz parte do lado bom do colonialismo cultural. Se ter que ser assim, escolhamos sempre o melhor. Afinal, nem ele nem eu temos culpa das tronchuras do mundo. Suas improvisações no instrumento são calmas, precisas  e serenas. Morreu em Amsterdã, em 1988, aos 58 anos, ao cair da varanda do hotel em que estava. Até hoje se discute se a sua morte foi um acidente ou suicídio. Uma lástima, na verdade.
Time After Time é um canção que fala do amor com satisfação. É uma nave que navega em mar de tranquilidade, em dia de calmaria. Repito a dose e entro numa quase letargia. É disso que eu gosto. É disso que eu preciso.
Quanto aos crápulas e canalhas, resolvi ignorá-los. Não me fazem bem.

PS.: Minhas homenagens ao Negro Gato, que esta semana partiu em busca da grande planície, das terras de Manitu.


COMENTÁRIOS:

"Publico, às 18h30, no blog: www.robsonsampaio.com.br. A coluna Cidades Online, no sábado e, no domingo e na 2ª.-feira, Teatro da Vida/Causos – Frases – Poesias e notícias. Divulguem e mandem notas e denúncias para o e-mail: rsampaioblog@gmail.com. Abs e obg. "
Robson Sampaio, em 05/8/2017

"O som da "trompa" do Chet Baker acalma e nos adormece, é certo e pacífico, mas COMO este "frio" intenso q vc sentiu e a CHUVA, que também tranquiliza e poetiza, causou-lhe arrepios de pavor e prostração ao invés de lhe deixar entusiasmado e otimista?
E o Recife NÃO COMBINA é com o descaso e abandono do poder público, da nossa acomodação como cidadãos, com a miséria das indiferenças. A chuva NÃO atrapalha a vida e sim renova o espírito de uma cidade bem RESOLVIDA."
Aristóteles Coelho, em 05/8/2017

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Martha no Recife


MARTHA NO RECIFE

Clóvis Campêlo

Comecemos pelo começo, por onde se deve sempre começar.
No Marco Zero, onde se inicia o mundo, visitaremos a obra de Cícero Dias. Em obediência à rosa dos ventos, contemplaremos a cidade se expandindo em círculos concêntricos em busca da sua própria identidade e em busca dos poetas pernambucanos representados no Circuito da Poesia.
Ali mesmo, ao lado, reverenciaremos Naná Vasconcelos, com sua escultura e o seu berimbau, que providencialmente estabelece uma ligação indissolúvel entre as culturas da Bahia e de Pernambuco.
Na Rua da Moeda, saudaremos Chico Science, uma antena fincada no mangue onde mais uma vez Pernambuco falou para o mundo, e a sua revolução de beats e bites. Afinal, sempre fomos caranguejos com cérebros.
Às margens do Rio Capibaribe, sob a sombra generosa do seu chapéu de poeta, auscultaremos Ascenso Ferreira em busca de diagnosticar e identificar os ruídos modernistas que sempre o acometeram. O poeta, que nunca teve nada de besta, escolheu um lugar importante e simbólico para plantar a sua escultura. Ali, com certeza, sempre coube e sempre caberá um verbo transitivo direto.
Na ponte Maurício de Nassau, sem pagar nenhum pedágio à poesia, saudaremos o poeta Joaquim Cardozo, o engenheiro do poema, sempre atento aos entardeceres da cidade e aos transeuntes constantes e passantes. Talvez até, escutemos histórias sobre um tal boi voador. Afinal, o tempo decorrido sempre mistura memórias e imaginações.
Seguiremos adiante, passando pela Rua 1º de Março e chegando à Praça da Independência, onde Carlos Pena Filho, elegantemente trajado, entre putas, loucos e lúmpens, aguarda a hora de acender os seus poema no Bar Savoy. Seu olhar sereno contempla diuturnamente a Matriz de Santo Antônio, em torno da qual a cidade cresceu e apodreceu. Tudo no seu devido tempo.
Incólumes, atravessaremos a Avenida Guararapes, onde a vida ainda pulsa, e saudaremos Capiba na outra margem do Capibaribe. De costas para o rio, Capiba continua se guardando para quando o carnaval chegar. Nos bolsos de pedras, partituras e novas canções escondem-se contidas pela dureza da realidade implacável. Afinal, em determinados momentos, só nos cabe a inércia.
Como o Recife se fez sobre pontes e overdrives, mais uma vez cruzaremos o rio, com a naturalidade de um cão atravessando uma rua, e na paisagem úmida daquele lougradouro, após contemplarmos os casarões malassombrados da Rua da Aurora, encontraremos a secura dos poemas de João Cabral de Melo Neto, que, sentado à beira do caminho, não se cansa de contemplar o Recife da sua época. Naquele trecho do rio, onde um dia o escritor Suassuna tomou banho nu e onde os botos costumavam encantar os habitantes da cidade nos primórdios do século passado, ainda existe poesia suficiente para paralisar o poeta e seus admiradores.
Então já teremos traçado um longo trajeto, o que, para uma moça poetisa da Bahia, talvez seja uma overdose. O cheiro doce do rio, misturando-se com a brisa salobra do mar, poderá lhe causar vertigens.
Entretanto, nada disso importará desde que as emoções sobrevivam.

terça-feira, 20 de junho de 2017

O Cinema Atlântico


O CINEMA ATLÂNTICO

Clóvis Campêlo

Quem, como eu, tenta se habilitar a ser um pesquisar ligeiro e pouco profundo, corre o risco de surpreender-se de forma negativa com a ausência de informações virtuais sobre o objeto pesquisado. Muito embora tenhamos hoje à nossa disposição um grande manancial de informações, seja no google, na wikipédia ou em diversos blogs e sites de pertinazes pesquisadores, em determinados momentos esbarramos na ausência quase total de dados e informações. Sinto isso aqui e agora, ao pesquisar sobre o extinto Cinema Atlântico, do Pina.
Do fundo da memória, extraio apenas que o cinema marcou a minha infância e adolescência, com os filmes fantásticos de Cantiflas, Hércules, Macistes; as chanchadas da Atlantida, com Oscarito, Grande Otelo, Ankito e vários outros; os filmes de Drácula, com Cristopher Lee, etc, etc, etc.
Na grande rede, encontro um quase nada de informações sobre o cinema. Apenas no site da Universidade Federal de Pernambuco, sob o título de “Conheça a história do Recife através dos seus teatros”, descubro o seguinte: “Teatro Barreto Júnior - Localizado no bairro do Pina, foi o primeiro teatro da Zona Sul da cidade, que recebeu o nome do ator José do Rego Barreto Júnior. O espaço é resquício do Cine-Atlântico, que resistiu às demolições e fechamentos pelos quais passaram muitos cinemas do Recife no início da década de 80. A fachada ainda é mesma de seu estilo original, preservado até 1985, quando foram iniciadas as obras de restauração”.
Nem mesmo no site da Fundaj, em um bom artigo escrito por Lúcia Gaspar sobre os cinemas antigos do Recife, encontro referência ao Cinema Atlântico do Pina.
Volto à memória e relembro que do final dos anos 50 até 1971, fiz do Cinema Atlântico o meu lugar preferido para a apreciação da chamada sétima arte, com a sua programação popular e voltada para o público da classe média e do povão, que predominava no bairro naquela época.
O cinema era localizado em um prédio simples, sem muito luxo, com entradas e bilheterias pela Rua Conselheiro Aguiar e saídas pela Rua Estudante Jeremias Bastos, antiga Travessa Herculano Bandeira. Aos domingos, antes das matinês, a criançada trocava gibis na calçada principal.
Durante um certo tempo, a segurança e o policiamento do local foram feitos pela Polícia Mirim, composta principalmente de jovens e adolescentes requisitados nas comunidades mais carentes do próprio bairro. Geralmente eram pessoas conhecidas e que participavam conosco das peladas na praia do Pina. Lembro especificamente de Pinduca, um desses policiais mirins que morava numa rua próxima à nossa. Era irmão de Jorge Gabiru, um cara bom de bola que chegou a se profissionalizar e jogar em Portugal. Ganhou dinheiro e gastou tudo. Hoje sobrevive como cambista nos estádios do Recife. Costumo sempre encontrá-lo, em dias de jogos do Santa Cruz, trabalhando no Estádio do Arruda. Pinduca, hoje já falecido, tinha o dom de escrever paródias picantes feitas em cima de grandes sucessos da MPB. Uma figura e tanto. Pois bem, aos domingos, durante as matinês no Cinema Atlântico, era comum vê-lo vestido com a sua farda verde oliva tentando por um pouco de ordem naquela bagunça juvenil, uma missão quase impossível.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Vicente Celestino, a Voz Orgulho do Brasil


VICENTE CELESTINO, A VOZ ORGULHO DO BRASIL

Clóvis Campêlo

Talvez as gerações brasileiras mais novas já não saibam quem foi Vicente Celestino. Afinal, muitos afirmam que somos uma nação sem memória. Pode ser, embora se considerarmos a memória como alguma coisa utilitária, talvez encontremos justificativas para esse esquecimento.
Por isso, não nos custa nada reativar essas lembranças e trazer de volta informações ainda hoje necessária para que possamos conhecer melhor a história e as influência e desdobramentos da nossa música popular.
Filho de italianos da Calábria, Vicente Celestino nasceu no Rio de Janeiro, no bairro de Santa Teresa, ainda no século 19, em 12 de setembro de 1894. Trazia, assim, na sua formação musical todos os componentes e valores reinantes naquela época, e que marcariam de forma inexequível as suas composições.
A sua voz grave de tenor, por muito tempo, e numa época em que o rádio ainda não havia sido implantado no Brasile formado ídolos e moldando preferência, impôs-se como grande cantor e grande compositor. Aos poucos, porém, depois, foi sendo preterido em nome de cantores e compositores que se utilizavam de uma linguagem mais moderna e ao gosto popular do início do século passado. Por isso, na época, a incompreensão de alguns, e, hoje, o grande esquecimento.
O cantor Orlando Silva chegou a chamá-lo de bebê chorão do rádio, por conta do sentimentalismo exacerbado repetidamente cantados por ele: chorar a traição da mulher amada, sofrer masoquistamente por amor, afogar irracionalmente as mágoas na bebida...
É claro que a afirmativa maldosa encontrava uma explicação: vinte anos mais jovem do que Vicente Celestino e sob a proteção de nada mais nada menos do que Francisco Alves, Orlando Silva alcançava o sucesso quando Celestino já decaía no gosto do povo e da crítica. Como afirma o texto de Marco Aurélio Carvalho e Marcos Leite, no site Todas as Vozes, da EBC, a voz grave ainda era ótima, mas Celestino começava a ser rejeitado pelo Teatro Municipal.
Por isso, quando Caetano Veloso, no disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circenses, lançado em julho de 1968, gravou a canção Coração Materno, com um arranjo fantástico do maestro Rogério Duprat, todos pensaram que se tratava de mais uma chacota, o que logo foi contradito pelo compositor baiano, que afirmou tratar-se de uma homenagem.
Ironicamente, Vicente Celestino morreu em São Paulo, no Hotel Normandie, em agosto de 1968, quando se preparava para participar de uma gravação em sua homenagem, na gafieira Pérola Negra, ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil, a qual seria apresentada em um programa televisivo. Seus restos mortais foram enterrados no Rio de Janeiro, no Cemitério de São João Batista, sob os aplausos do público, depois de ser velado na Câmara Municipal por uma multidão de admiradores.
Segundo a insuperável Wikipédia, “começou cantando para conhecidos e era fã de Enrico Caruso. Antes do teatro cantava muito em festas, serenatas e chopes-cantantes. Estreou profissionalmente cantando a valsa Flor do Mal no teatro São José e fez muito sucesso e, também, entrou no seu primeiro disco vendendo milhares de cópias em 1915 na Odeon (Casa Edison).
Em 1920 montou uma companhia de operetas, mas sem nunca deixar o carnavalesco de lado, emplacando sucessos como Urubu Subiu. Rapidamente, depois de oportunidade no teatro, alcançou renome. Formou companhias de revistas e operetas com atrizes-cantoras, primeiro com Laís Areda e depois com Carmen Dora. As excursões pelo Brasil renderam-lhe muito dinheiro e só fizeram aumentar sua popularidade. Nos anos 20, reinava absoluto como ídolo da canção. Vicente Celestino teve uma das mais longas carreiras entre os cantores brasileiros”.
Ainda segundo a Wikipédia, “Vicente Celestino, que tocava violão e piano, foi o compositor inspirado de muitas das suas criações. Duas delas dariam o tema, mais tarde, para dois filmes de enorme público: O Ébrio (1946), que foi transformada em filme por sua esposa, e Coração Materno (1951). Neles Vicente foi dirigido por sua mulher Gilda Abreu (1904 - 1979), cantora, escritora, atriz e cineasta. No total, gravou em 78 RPM cerca de 137 discos com 265 músicas, mais dez compactos e 31 LPs, nestes também incluídas reedições dos 78 RPM”.
Finalmente, diz a Wikipédia: “Seu eterno arrebatamento, paixão e inigualável voz de tenor, fizeram com que o povo o elegesse como A Voz Orgulho do Brasil”.

terça-feira, 13 de junho de 2017

A Primeira Comunhão


A PRIMEIRA COMUNHÃO

Clóvis Campêlo

Naquela época, a Primeira Comunhão não era apenas uma festa familiar. Era uma festa comunitária. Toda a vizinhança participava. Lembro da nossa casa no Pina bem cheia, repleta de amigos, parentes e vizinhos. Um frege, no bom sentido, já que naquela dia especial nem eu nem meus irmãos, Carlinhos e Mana, poderíamos prevaricar. Nem em pensamentos. E, confesso, não era fácil manter essa retidão de pensamento e comportamento. Tudo conspirava contra.
Estávamos todos vestidos de branco, simbolizando a pureza das nossas almas. O sacramento se daria à tarde, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, sob a batuta do Padre José, ao lado dos outros alunos do Instituto Dantas, escola que promovia o evento cristão. A festa propriamente dita seria depois, em casa, ao voltarmos da igreja. Comida e bebida, à vontade. Mas aí já estaríamos aceitos fazendo parte definitivamente da comunidade da Igreja Católica Apostólica Romana.
A Primeira Comunhão é uma celebração da Igreja Católica, onde os participantes recebem pela primeira vez o Corpo e o Sangue de Cristo em forma de pão e vinho. Para receber a Primeira Eucaristia, como também é chamada a celebração, deve o cristão saber e compreender alguns princípios e fundamentos da Igreja, como os 10 Mandamentos, os Mandamentos da Madre Igreja, suas principais orações, e os 7 sacramentos. Antes do rito religioso, o participante deve se confessar, livrando-se assim dos pecados e faltas graves cometidos.
Segundo a Wikipédia: “a Eucaristia é " o próprio sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus, que Ele instituiu para perpetuar o sacrifício da cruz no decorrer dos séculos até ao seu regresso, confiando assim à sua Igreja o memorial da sua Morte e Ressurreição. É o sinal da unidade, o vínculo da caridade, o banquete pascal, em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da vida eterna." (n. 271). A palavra hóstia, em latim, quer dizer vítima, que entre os hebreus, era o cordeiro, sem culpa, imolado em sacrifício a Deus”. Ou seja, exista na cerimônia toda um simbologia que deve ser entendida, pratica e respeitada pelo participante.
Não era fácil para nós, eu e meus irmãos, seguirmos tudo isso ao pé da letra. Meu pai e minha mãe não eram de frequentar a igreja e nem nos obrigavam a isso. Mas havia um misto de respeito e temor que nos fazia ir adiante sem nada questionar. Para nós, era melhor e mais seguro estar ao lado de Deus, Jesus Cristo e todos os anjos do que vagarmos indefesos e solitários sob as tentações do demônio. E além do mais, todos os nossos colegas e amigos da escola estavam ao nosso lado naquele momento e isso fazia com que nos sentissemos seguros e protegidos. Restaria-nos depois, ao longo da vida, mantermos essa chama acesa e vibrante. Intuitivamente, sabíamos que não seria nada fácil, pois são muitas as tentações e os perigos dessa vida.
A festa em casa, ao voltarmos da igreja, foi plena e vibrante. Aos poucos, porém,a casa foi esvaziando e a família ficando sozinha. Nossas roupas brancas e nossos livrinhos foram guardados e ainda hoje se encontram entre os objetos deixados por dona Tereza, minha mãe, quando faleceu.
À noite, sozinho, quando me deitei e tentei conciliar o sono, percebi que teria pela frente uma longa caminhada a percorrer, e que nessa caminhada estaria para sempre dividido entre a virtude da retidão da crença religiosa e as tentações do mundo dos homens.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Mandrake e a nave aprisionada


MANDRAKE E A NAVE APRISIONADA

Clóvis Campêlo

Lee Falk nasceu em St. Louis, em 1911. Escritor e quadrinista, ao chegar em Nova York em 1936, aos 25 anos de idade, criou os personagens Fantasma e Mandrake, para apresentar ao King Features Syndicate. Mandrake logo ganhou as páginas coloridas dos suplementos dominicais, conquistando a cidade e o mundo.
Segundo a Wikipédia, Mandrake evocava a essência dos mágicos de vaudeville, que faziam espetáculos itinerantes pelo sul dos Estados Unidos, muito populares entre 1880 e 1920. As apresentações combinavam números de dança e acrobacias, música popular, encenações de operas e peças de teatro, adestramento de animais e todo tipo de “maravilhas exóticas de toda parte do mundo. Estes elementos marcaram a infância de Falk e se tornaram a matéria prima das aventuras do mágico e seu fiel companheiro, o nobre africano Lothar. O rosto do personagem, baseado no do próprio Falk, reunia todos os traços típicos do homem de aventuras exóticas que o cinema da época tinha se encarregado de mistificar: elegante, viril, enigmático, cavalheiresco e pronto para a ação”. Morando em Xanadú, numa propriedade fantástica no alto de uma colina, combatia os criminosos usando a hipnose como arma. Sua noiva, a princesa Narda de Cockaigne, fictício reino na Europa oriental, e seu companheiro inseparável, Lothar, gigante príncipe africano que abandonou sua tribo para acompanhar o mágico e surrar os bandidos com sua força, eram os personagens mais constantes nas histórias. Segundo a mesma fonte acima citada, Lothar, provavelmente, foi o primeiro personagem negro a surgir nas histórias em quadrinhos, mesmo que de uma forma caricata, usando roupas de pele e um chapéu típico turco.
Ainda segundo a Wikipédia, Mandrake era um ilusionista que se valia de uma impossível técnica de hipnose instantânea, aplicada com os olhos e gestos das mãos, e de poderes telepatas. Quando o narrador informava que ele executava seu gesto hipnótico, a arma do vilão se transformava em um buquê de rosas ou numa pomba. Na verdade, o personagem foi baseado em Leon Mandrake, um mágico que fazia performances no teatro pelos anos 20, usando uma cartola, capa de seda escarlate e um fino bigode. Estava criado o heroi que se impõe no mercado até os dias de hoje, sobrevivendo até mesmo a morte do seu criador, ocorrida em Nova York, no dia 13 de março de 1999. Falk faleceu no seu luxuoso apartamento em frente ao Central Park, vítima de um ataque cardíaco fulminante.
As histórias de Mandrake estrearam no Brasil na década de 30 do século passado, na revista Suplemento Juvenil. E assim como aconteceu com a maioria dos jovens americanos daquela década e das décadas seguintes, também marcou a vida dos jovens brasileiros, submetidos à imposição cultural que sempre marcou a nossa relação com Tio Sam.
Entre as muitas histórias por nós lidas, lembro particularmente de uma que narrava a aventura de uma nave alienígena presa em algum lugar gelatinoso do planeta Terra. A nave emite mensagens ameaçadoras de destruição do planeta, caso não seja rapidamente libertada da suposta armadilha. Desesperadas, as autoridades competentes, sempre capitaneados pela inteligência americana, tentam inutilmente localizá-la e provar que não existia da nossa parte nenhuma intenção bélica.
Nesse meio tempo, Mandrake aparece com um incômodo em um dos olhos. Algo muito pequeno lhe caíra em uma das conjuntivas e o incomodava bastante. Depois de algum tempo, resolve ir ao oftalmologista e descobre que o motivo do incômodo sentido era a pequeníssima nave alienígena. Retirada a nave do seu olho e finalmente libertada, chega a história a um final feliz.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Sentimento e solidão


Memphis Slim, o criador de Blue and Lonesome

SENTIMENTO E SOLIDÃO

Clóvis Campêlo

Houve um tempo em que dona Cida, minha mulher, esmerava-se na cozinha em receitas fabulosas. Talvez levada pela máxima de que um homem também se prende pela boca e pela barriga. Depois, cansou e confessou: “Estou sem novas ideias. Vou voltar ao trivial”. O trivial, para ela, seria o velho feijão, arroz, legumes e um pouco de carne. Funcionou à contento. Todos ficaram satisfeitos e bem alimentados.
Acredito que isso foi o que aconteceu com os Rolling Stones. Depois de onze anos sem gravar em estúdio, no final do ano passado gravaram Blue & Lonesome, um disco sem músicas inéditas e com velhas canções de blues. O trivial. Também funcionou e todos ficaram satisfeitos e bem alimentados.
A música que dá nome ao disco foi composta por Memphis Slim, pianista, cantor e compositor negro americano, nascido em Memphis, no Tenessee, no dia 3 de setembro de 1915, e falecido em Paris aos 72 anos, em 24 de fevereiro de 1988, de insuficiência renal. Seus restos mortais estão enterrados na cidade em que nasceu.
Fico pensando que voltar ao trivial foi um golpe stoniano de mestre. Setentões e podres de rico ainda teriam algo de novo a dizer para o mundo de hoje? O longo hiato talvez traduza isso.Afinal o blues pode traduzir com perfeição sentimentos entendíveis por todas as gerações. E até mesmo transformar possíveis negatividades em expressões atualizadas de contemporânea alegria. Como nos diz Daniel Corrêa em texto publicado na revista Rolling Stones: “A voz de Jagger, desgastada pelo tempo, acaba mudando o sentido que as frases tinham. De sofridos relatos de amor, muitas delas soam como vivas canções de experiência. De como o tempo traz autoconhecimento”. Falado e dito.
Aliás, quem não gosta de blues bom sujeito não é. E é preciso reconhecer que o gênero, ao desembocar no cenário urbano moderno, em terras americanas e mundiais, ganhou novas conotações. De lamentos repetidos monocordicamente para expressões de extases, foi um pulo. As guitarras elétricas ajudaram nessa metarmorfose ambulante. O blues mudou. E mesmo as velhas canções de sentimento e solidão, podem soar com outros timbres. Quem escutar, verá!
Como dizia o finado John Winter, uma boa música de blues deve sempre ser suja e barulhenta. É claro que nessa afirmativa, ele se refere ao blues do seu tempo: eletrificado, gritado e sem requintes excessivos tecnológicos de gravação. Os Stones, com as suas guitarras primárias, também conseguem isso: Blues & Lonesome é um disco básico. Qualquer outra intervenção mais requintada, como a elegante guitarra de Eric Clapton em duas músicas, pode logo ser detectada. Como diz o mesmo Daniel Corrêa no texto acima citado: “Blue & Lonesome é disco essencial para se ouvir e guardar na coleção. O único problema é a sensação de já estar ouvindo essas canções na voz dos Stones desde sempre, não como se fosse uma novidade, e não ter aquele gostinho de imaginar como seria ouvir novas canções autorais dos Stones, como o ótimo single “Doom & Gloom”, de 2012”.
Ou mesmo como diz o co-produtor do disco, Don Was, em material publicitário: “Este álbum é um testemunho manifesto da pureza de seu amor por fazer música, e o blues é, para os Stones, o manancial de tudo o que eles fazem”. Mais uma vez, falado e dito.
Para mim, só nos resta escutá-los!

terça-feira, 6 de junho de 2017

O cinquentão Sargento Pimenta


O CINQUENTÃO SARGENTO PIMENTA

Clóvis Campêlo

Lançado no Reino Unido no dia 26 de maio de 1967, o velho Sargento Pimenta completou cinquenta anos de vida bem vivida. No Brasil, não lembro a data do seu lançamento, mas foi um rebuliço tremendo. Estávamos em plena ditadura militar e os Beatles enveredavam pela psicodelia. Barato total.
Para mim, comprar o disco não foi fácil. Aos dezesseis anos de idade, ainda sem trabalhar e vivendo numa família em crise existencial e financeira, tive que me virar. Junta daqui e junta dali, chegamos ao patamar desejado. Conseguida a quantia necessária com uma pequena ajuda dos amigos, lá fomos nós para a Casa Rubi, na Rua do Sol, no centro antigo do Recife, às margens do Rio Capibaribe, comprar a preciosidade. Afinal, o nordestino é, antes de tudo, um forte.
Decepcionante foi chegar em casa e verificar que o alto-falante da minha pequena vitrola, havia estourado. Era a hora de mais uma vez exercitar a criatividade. Liguei a pequena caixa de som no alto-falante da televisão em preto e branco do meu pai, uma velha Müllard cansada de guerra, e funcionou. Logo o som estridente se espalharia pela sala. Extasiado, eu queria mais, Não me cansava de ouvir aquilo tudo, para desespero da velha Macionila, a nossa secretária, uma interiorana da cidade de Lagoa dos Gatos, que carinhosamente chamávamos de Lila. Reclamou da música estranha e pediu uma música de Vicente Celestino. Fui impiedoso. Aquela não seria a hora adequada para fazer concessões. Ela que tratasse de entender e gostar dos Beatles. Afinal,o LP gravado com todos os requintes da tecnologia de ponta e da criatividade da época estava sendo escutado naquela gambiarra funcional. Pra mim, ótimo!
Ali estava o oitavo LP da banda que revolucionava a música pop. O disco era conceitual e inovador, não só pelas músicas criadas, como pelas técnicas de gravação utilizadas pelo grupo e seus engenheiros. Não havia como ignorar tudo isso. Entre o mar e a maré, o Pina dos anos 60 estava antenado e ligado nas novidades do grupo. Hoje, no auge da maturidade cronológica mas ainda apaixonado por tudo o que os Beatles foram, são e serão, leio coisas engraçadas que foram escritas sobre o grupo e o disco, naquela época.
Por exemplo: “Sgt Peppers “reconcilia os ideais estéticos diametralmente opostos da música clássica e da psicodelia, angariando uma síntese psicoclássica das duas formas musicais”. Engraçadíssimo! Mas dá para entender? Quem disse isso foi um tal de Nahptali Wagner, para mim, um ilustre desconhecido, uma eminência parda, pegando carona no sucesso do momento.
Outra joinha: “Além de importante trabalho da psicodelia britânica, o disco de multigêneros incorpora diversas influências estilísticas, incluindo, vaudeville, circense, music hall, avant-garde, e música clássica ocidental e indiana”. Não sei quem falou isso, mas está lá na wikipédia. Era inteligência demais para a minha cabeça adolescente. E enquanto as galinhas cacarejavam no quintal, eu aumentava o volume pra curtir aquele rock'n'rool. A novidade vinha dar na praia do Pina. Graças a Deus e aos Fab Four. Naquele momento, a felicidade não era uma arma quente. A felicidade era poder olhar a cara aparentemente tranquila do Sargento Pimenta.
Je vous salue, meninos de Liverpool!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Grafite, o último rei do Arruda


Fotografia de Gabriel Campêlo

GRAFITE, O ÚLTIMO REI DO ARRUDA

Clóvis Campêlo

Como aconteceu com outros grandes jogadores que já passaram pelo Arruda, Grafite também deixou o seu nome gravado na história do Santa Cruz, Aliás, não só o seu nome, como também a sua imagem estampada nas paredes das arquibancadas corais, onde está desenhado como o último Rei do Arruda. Acompanhe a trajetória desse grande jogador e artilheiro e veja como ele foi importante no ressurgimento do Santinha na elite do futebol brasileiro..
Seu nome verdadeiro é Edinaldo Batista Libânio. Nasceu na cidade de Jundiaí, em São Paulo, no dia 2 de abril de 1979, no Ano Internacional da Criança.
Começou a sua carreira futebolística na Sociedade Esportiva Matonense, clube da cidade de Matão, que disputa as divisões inferiores do futebol paulista, fundado em 24 de maio de 1976, apenas três anos antes do nascimento do craque.
Em seguida, foi para Araraquara, defender a Ferroviária daquela cidade, clube mais antigo e tradicional do futebol paulista, criado em 1950. De Araraquara para o Recife, foi um pulo. Em 2001, chegava pela primeira vez às Repúblicas Independentes do Arruda para iniciar uma relação com o Santinha que se estenderia até os dias de hoje.
No Arruda, entre 2001 e 2002, disputou 22 jogos pela Cobra Coral, marcando apenas cinco gols, mas chamando a atenção pelas boas atuações e por sua frieza diante dos goleiros adversários na hora de finalizar.
Do Santa Cruz foi para o Grêmio Portalegrense, em 2002, onde disputou nove partidas sem marcar nenhum gol. Em 2003, foi contratado pelo Anyang Cheetaas, da Coreia do Sul, de onde, no segundo semestre veio para o Goiás, destacando-se no Campeonato Brasileiro daquele ano, marcando 12 gols em 20 jogos.
Em 2004, embalado pela boa fase no Goiás, foi para o São Paulo Futebol Clube, onde formou no ataque titular ao lado de Luís Fabiano, marcando 27 gols em 73 jogos. No São Paulo, em 2005, mesmo passando um bom tempo machucado, ajudou o clube e se tornar Campeão Brasileiro naquele ano, e Campeão Mundial de Clubes, participando dos jogos da semifinal e da final. Em função das suas boas atuações pelo tricolor paulista, foi convocado por Carlos Alberto Parreira para a Seleção Brasileira de Futebol, onde disputou quatro jogos, assinalando um gol contra a Guatemala, no jogo que marcou a despedida de Romário da seleção.
Em 2006, ganhou o mundo indo atuar na França, pelo Les Mans, onde em 51 jogos marcou 16 gols. Em 2007, foi o Wolfsburg, da Alemanha, onde em quatro anos e 131 jogos disputados, foi autor de 76 gols. Pelo clube alemão, conquistou, em 2009, o inédito título do Campeonato Alemão, sendo ainda o artilheiro da competição com 28 gols marcados e batendo o recorde de 53 gols de Gerd Müller e Uli Hoeneb, marcando 54 gols numa mesma temporada. Era a glória e a consagração definitiva do grande artilheiro na Europa.
Antes de voltar ao Santa Cruz, em 2015, ainda atuou pelo Al-Ahli Club, de Dubai, onde marcou 66 gols em 85 jogos, entre 2001 e 2014, e pelo Al-Sadd Sports Club, do Qatar, em 2015, onde jogou nove partidas, marcando um gol.
De volta ao Santa Cruz, foi recebido em grande estilo no Estádio do Arruda, onde chegou de helicóptero para delírio da torcida coral. Estreou contra o Botafogo carioca, no Campeonato Brasileiro da Série B, marcando de cabeça o gol da vitória e terminando a competição como vice-campeão, o que levou de volta o Santinha à Série A do Campeonato Brasileiro, em 2016.
Nesse mesmo ano, foi campeão da Copa do Nordeste e do Certame Estadual, realizando o sonho de conquistar títulos com a camisa coral, o que não havia acontecido antes. Ao todo, entre 2015 e 2016, participou de 71 jogos com a camisa coral e marcou gols, numa passagem brilhante e vitoriosa.
Ao sair do clube, em dezembro de 2016, rumo ao Atlético Paranaense, deixou nas redes sociais a seguinte mensagem de despedida:
"Queria agradecer a todos os jogadores, técnicos, diretores e especialmente funcionários, que são a base do nosso sucesso no dia a dia, por este um ano e meio de convívio, irmandade e lutas, porque sabemos que o dia a dia no Santa não é fácil. A saída não está sendo do jeito que imaginávamos que seria um dia, mas foi amigável, sem mágoas ou rancor de minha parte e vi que por parte do nosso 'Querido Presidente' Alírio Moraes também, em comum acordo decidimos que era melhor eu sair, sabemos das dificuldades que o clube vive administrativamente, vai ser melhor para ambos!"